Como pequenos produtores encaram a sucessão familiar?

Assumir uma propriedade leiteira vai muito além da herança. Sucessão exige gestão, tomada de decisão e adaptação das práticas do passado às exigências do presente.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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O texto discute a sucessão familiar em propriedades leiteiras, abordando desafios enfrentados por herdeiros na gestão dos negócios. Destaca que muitos assumem a atividade por obrigação e nem sempre possuem paixão ou conhecimento adequados. A importância de adaptar práticas antigas às novas técnicas é enfatizada, ressaltando que a melhoria na produção depende de gestão e informação. O autor conclui que, com dedicação e aprendizado, a produção de leite pode ser rentável e atrativa, promovendo um possível retorno ao campo.

Olá, pessoal, tudo bem com vocês? Vamos conversar um pouco sobre sucessão familiar em propriedades de leite? Não é um assunto fácil, não é mesmo?

Eu entendo como sucessão familiar aquela família que culturalmente produz leite há várias gerações. Pessoas experientes (será?), com conhecimento profundo e capazes de produzir leite com qualidade. Mas por que coloquei um “será” nessa ideia? A resposta é muito simples, porque, nas minhas andanças, o que mais encontro são propriedades conduzidas por herdeiros — sim, herdeiros — que assumiram a produção de leite, a favor ou contra a própria vontade.

Muitas vezes, são pessoas que gostam da atividade, mas nem sempre são apaixonadas por ela. E, acreditem, ser apaixonado pode ser um problema, assim como não gostar pode ser uma solução. Já vou explicar. Ainda encontramos propriedades geridas por pessoas que vêm de outros ramos de produção. Isso assusta num primeiro momento, mas ameniza com o tempo.

Vamos começar falando primeiro daquelas pessoas que receberão o sistema por herança, dos herdeiros apaixonados pelo que fazem. Esses, a meu ver, podem dar certo ou não. O lado positivo é quando a pessoa gosta da atividade e já acompanhou a produção, sabe produzir e quer que o sistema funcione. Os apaixonados pelo leite talvez trabalhem um pouco com o amor e não a razão. Não estou generalizando nem dizendo que isso acontece sempre, mas pessoas que são apaixonadas por animais ou pela profissão que fazem podem ter dó ou pena de algumas coisas. Aí está o problema. Não ter pena, não significa não ter dó de animal, bater ou agredir um animal. Ter dó demais nos impede de selecionar rebanho. 

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Sabe aquela vaca malhada, mimosa, que foi do vovô? Pois é. Se ela não estiver produzindo, o sistema precisa ser ajustado, com ou sem ela. Se produz menos por causa da idade, por exemplo, ou ela é vendida ou recebe menos ração. O que não dá é simplesmente deixar tudo como está e seguir em frente sem ajustes.

Depois temos os herdeiros que não gostam da atividade, não querem produzir e só estão ali por obrigação. Se as vacas produzem mais leite, isso já é motivo de comemoração. Mas aí fica a pergunta: esse leite é viável? A pessoa conhece os custos de produção?

Há ainda aquele sucessor que não vinha da atividade leiteira e produzia algo completamente diferente. Ele já ouviu falar de leite, tem receio de gastar a toa e procura informação. Este, talvez não saiba o que precisa, mas busca se informar, faz cursos, quer aprender a gerir, procura entender o sistema. 

Assumir uma produção como sucessor merece, no mínimo, um agradecimento. Muitas vezes não agradecemos pelo que ganhamos. Se não sabemos, precisamos buscar informação. A assistência técnica atende muito bem a tudo isso, mas o novo produtor (sucessor) precisa buscar e ter vontade de produzir. 

Nunca contei essa história, mas vamos lá. Um certo dia visitei uma propriedade leiteira e o produtor me disse: “Estou começando hoje. Não sei produzir leite, mas vou fazer tudo como meu avô fazia." Fiquei feliz por ele buscar ajuda, mas triste com a ideia de repetir tudo igual ao que o avô fazia.

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Digo isso porque, para mim, sucessão não pode vir associada ou atrelada a passados pessoais e sim atrelada a um passado adaptado ao presente. Com técnicas atualizadas, dietas corretas, manejo adequado de bezerras, foco em qualidade do leite e bons índices zootécnicos.

Nesse caso, as vacas produziam cerca de 5 litros de leite por dia. Para o tempo do avô, era magnífico. Cada vaca paria a cada 2,5 anos, e a propriedade produzia 300 litros de leite com 60 vacas.

Sucessão é assumir algo e fazer melhor. Se não for para melhorar, é preciso repensar ou até mudar de atividade.  Se ficar na mesma, hoje em dia não dá.

Mesmo assumindo um sistema antigo, foi possível melhorar. As vacas passaram a parir a cada 1,3 anos. A produção continuou em 300 litros, o que, segundo ele, já estava bom, mas agora com apenas 15 vacas em lactação. A qualidade do leite melhorou, pois passou a ser feita dieta adequada. Antes, as vacas ficavam apenas no pasto, porque o avô dizia que leite só dava dinheiro se fosse no pasto, sem ração.

Quase não foi preciso descartar animais. Das 60 vacas, ficamos com mais de 40. Ficamos com 20 vacas na ordenha, outras secas ou em preparo para entrar na produção. As demais foram vendidas como animais de produção, não como descarte. E sabem por que aquelas vacas não produziam leite? Faltava ajuste na dieta e no manejo do pasto. Engraçado e triste, não?

Então, sucessores, não desanimem. Acreditem, com gestão, informação e busca pelo caminho certo, a produção de leite pode ser uma das atividades mais rentáveis. Alguns podem estar se perguntando se quem escreve isso realmente conhece a pecuária leiteira. Conheço, e muito. Cresci vendo minha avó tirar leite em uma panela de pressão. Quando a vaca enchia aquela panela de 4,5 litros, ela dizia: “vaca boa”.

Sucessores, controlem seus custos e busquem ajuda. Para finalizar, o que mais vejo são sucessores felizes e capazes. Gente da geração do celular, usando tecnologia, buscando dias melhores, produções mais eficientes. Além disso, voltar à propriedade leiteira eficiente denota uma coisa contrária ao êxodo rural. Será que estamos falando de um êxodo urbano ou de um retorno ao campo? Pensem nisso.

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Material escrito por:

Marco Aurélio Factori

Marco Aurélio Factori

Consultor, Factori Treinamentos e Assessoria Zootécnica.

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