Mastite na secagem afeta a imunidade e saúde das bezerras?

Um estudo no Uruguai investigou como a saúde do úbere na secagem influencia a qualidade do colostro e a imunidade dos bezerros. Resultados mostraram que a saúde materna impacta a capacidade de absorção dos bezerros. Confira!

Publicado em: - Atualizado em: - 6 minutos de leitura

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A mastite subclínica em vacas afeta a produção e qualidade do leite, aumentando custos nas fazendas leiteiras e comprometendo a imunidade dos bezerros. Um estudo no Uruguai investigou como a saúde do úbere na secagem influencia a qualidade do colostro e a imunidade dos bezerros. Resultados mostraram que bezerros de vacas saudáveis absorveram mais imunoglobulinas, mesmo com colostro de menor qualidade. A saúde materna impacta a capacidade de absorção dos bezerros, destacando a importância de controlar a mastite subclínica para garantir a imunidade da prole.

A mastite subclínica causa inúmeros custos nas fazendas leiteiras, sendo os mais estudados a redução da produção e qualidade de leite, aumento do risco de descarte, redução de fertilidade, além de maior risco de ocorrência de mastite clínica. As vacas somente são diagnosticadas com mastite subclínica apenas quando são feitos testes (p. ex., CCS ou CMT) no leite que indicam alterações na CCS e composição. 

O sucesso da criação e da saúde das bezerras depende de um fator crítico que é a transferência de imunidade passiva (TIP). Devido à estrutura da placenta bovina, que impede a troca de anticorpos (imunoglobulinas) durante a gestação, os bezerros nascem com um sistema imunológico funcionalmente imaturo e desprotegido. A única forma de adquirir essa proteção imune nas primeiras semanas de vida é através da ingestão e absorção das imunoglobulinas presentes no colostro. No entanto, a saúde do úbere da vaca durante a secagem e ao longo do período seco pode ser um fator de alteração da capacidade de TIP, pois a mastite subclínica pode comprometer a qualidade do colostro.

Isso levanta a seguinte questão: a mastite na secagem prejudica a imunidade do bezerro por reduzir a qualidade do colostro ou por um efeito direto de programação fetal? Um estudo recente avaliou como a mastite na secagem afeta a imunidade e a saúde das bezerras, que é um tema ainda pouco explorado.

Para estudar a interação entre a saúde úbere na secagem, a qualidade do colostro e a imunidade do bezerro, o estudo realizado no Uruguai utilizou um protocolo que permitiu isolar os efeitos distintos da origem dos bezerros (se ele nasceu de uma vaca saudável ou com mastite subclínica) em relação aos tipos de colostro que ele consumiu.

Um total de 40 vacas foi classificado em dois grupos de acordo com a CCS antes da secagem: baixa-CCS (< 200.000 células/mL) e alta-CCS (> 200.000 células/mL). A partir desses grupos de vacas, os bezerros nascidos e o colostro foram classificados da seguinte forma:

a) Bezerros nascidos de vacas com baixa CCS - Bez-baixa;

b) Bezerros nascidos de vacas com alta CCS - Bez-alta;

c) Colostro coletado de vacas baixa CCS;

d) Colostro coletado de vacas alta CCS.

Essa estrutura resultou em quatro grupos de tratamento (n=10 por grupo), permitindo aos pesquisadores cruzar as variáveis de forma controlada, conforme ilustrado na tabela abaixo.

Grupo

Origem do Bezerro

Tipo de Colostro

1

vaca baixa-CCS

colostro baixa-CCS

2

vaca baixa-CCS

colostro alta-CCS

3

vaca alta-CCS

colostro baixa-CCS

4

vaca alta-CCS

colostro alta-CCS

Cada bezerro recebeu 4 litros de colostro via sonda esofágica em até 3 horas após o nascimento, o que eliminou variações na quantidade e no tempo de ingestão, permitindo uma avaliação precisa dos fatores que influenciam a imunidade.

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Os resultados do estudo revelaram que a saúde do úbere da vaca afeta diretamente a qualidade do seu colostro. No entanto, além da qualidade do colostro, também houve alteração da capacidade de absorção do próprio bezerro.

Impacto da mastite sobre a qualidade do colostro.

A análise das amostras de colostro produzido por vacas com CCS alta e baixa CCS indicou as seguintes diferenças; porém, a grande maioria das amostras de ambos os grupos foi classificada como de "boa qualidade", com IgG acima do limiar de 50 g/L.

  • Concentração de IgG: o colostro de vacas sadias (baixa-CCS) apresentou concentração de imunoglobulina G (IgG) 24% maior em comparação com o de vacas com CCS alta (alta-CCS), com médias de 92,8 g/L versus 74,7 g/L.

  • Proteína e Sólidos Totais: o colostro de vacas com baixa CCS também teve maiores concentrações de proteína e sólidos totais, indicando maior densidade nutricional e imunológica.

  • Contagem de Células Somáticas (CCS): Como esperado, o colostro de vacas com alta CCS apresentou CCS média de 1.584.000 células/mL, em comparação com 631.000 células/mL em vacas de baixa CCS.

 

A origem do bezerro importa mais que o colostro ingerido?

O tipo de colostro que o bezerro ingeriu (alta-CCS vs. baixa-CCS) não teve efeito significativo nos níveis de IgG no sangue ou na eficiência de absorção. Por outro lado, bezerros nascidos de vacas saudáveis (Bez-baixa) demonstraram maior capacidade fisiológica para absorver as imunoglobulinas, independentemente de terem recebido colostro de alta ou menor qualidade de IgG.

Parâmetro de Imunidade

Bezerros de Vacas com CCS Baixa)

Bezerros de Vacas com CCS Alta 

IgG Sérica (g/L)

28,7 (Excelente)

22,8 (Bom)

Eficiência Aparente de Absorção (EAA) (%)

30,0

24,5

 

Curiosamente, apesar das diferenças na transferência de imunidade passiva, o estudo não encontrou diferenças significativas no ganho de peso diário ou no desenvolvimento corporal dos bezerros nos primeiros 30 dias de vida. No entanto, foi observada uma tendência relevante: bezerros que receberam colostro de vacas saudáveis (baixa-CSS) tiveram maior consumo inicial de matéria seca de concentrado. Isso sugere que, embora o crescimento imediato não seja afetado, a qualidade do colostro pode influenciar o comportamento alimentar ou a saúde geral do bezerro.

Essa diferença crítica na capacidade de absorção, independente da qualidade do colostro, aponta diretamente para influências pré-natais, o que indica que a saúde materna durante a gestação impacta a prontidão neonatal.

Os resultados deste estudo sugerem um possível mecanismo de programação fetal. As causas da menor eficiência de absorção em bezerros nascidos de vacas com alta-CCS ainda não são conhecidas, mas uma hipótese é que o ambiente intrauterino — incluindo a saúde e o estado inflamatório da mãe — pode "programar" aspectos da fisiologia do bezerro. O processo inflamatório crônico associado à mastite subclínica na vaca pode ter alterado o desenvolvimento intestinal do feto, resultando em um bezerro com menor capacidade de absorver IgG.

Dessa forma, destacam-se as seguintes implicações e recomendações:

  1. O manejo da Vaca Seca e o controle da mastite subclínica durante o período seco vão além de garantir a saúde da vaca na próxima lactação; impactam a viabilidade e resiliência imunológica do bezerro. Tratar a saúde do úbere da vaca seca é, na prática, o primeiro passo para garantir a competência imunológica de sua prole.

  2. Medir a qualidade do colostro com um refratômetro de Brix continua a ser uma prática essencial. No entanto, este estudo mostra que fornecer um colostro excelente não garante uma TPI excelente se o bezerro nasceu com capacidade de absorção fisiologicamente comprometida.

  3. A saúde geral da vaca pré-parto, e não apenas a produção de colostro no momento do parto, parece ter efeitos duradouros. A possibilidade de que a inflamação crônica em vacas com CCS alta possa prejudicar o desenvolvimento do trato gastrointestinal do feto sublinha a importância de uma abordagem holística à saúde da vaca seca, considerando estresse metabólico, nutricional e infeccioso.

  4. Manter um banco de colostro de alta qualidade continua sendo uma das melhores práticas. Contudo, este estudo adiciona uma nova camada de complexidade: bezerros nascidos de vacas com histórico de CCS alta devem ser considerados de "maior risco". Mesmo quando recebem colostro de excelente qualidade do banco, eles podem necessitar de um monitoramento mais rigoroso de seus níveis de IgG sérica, pois sua capacidade de absorção pode ser o fator limitante.

Vacas com alta CCS no período seco produzem bezerros com menor eficiência de absorção de IgG, o que resulta em menor concentração de anticorpos no sangue, independentemente da qualidade do colostro fornecido. O impacto mais significativo e oculto da mastite subclínica materna não está na qualidade do colostro em si, mas na capacidade da prole de utilizá-lo. Em resumo, os resultados desse estudo indicam que a prevenção e o controle da mastite devem ser vistos também como uma estratégia de saúde materno-fetal, não apenas como um problema de saúde do úbere.


Fonte: Pastorini, et al., 2025 (https://doi.org/10.3168/jds.2024-25335)

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Material escrito por:

Marcos Veiga Santos

Marcos Veiga Santos

Professor Associado da FMVZ-USP Qualileite/FMVZ-USP Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225 Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP Pirassununga-SP 13635-900 19 3565 4260

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Marcos Veiga Santos
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 08/12/2025

Obrigado, Iara
Iara Nunes de Siqueira
IARA NUNES DE SIQUEIRA

SÃO JOSÉ DO EGITO - PERNAMBUCO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/12/2025

Que matéria perfeita!
Parabéns professor
Qual a sua dúvida hoje?