A construção da competitividade nos EUA. E, nós, como ficamos?

Como explicar que os EUA, com preços parecidos, exportam o equivalente a quase 70% da nossa produção anual?

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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Os preços do leite no Brasil e nos EUA são semelhantes, variando entre US$ 0,40 e US$ 0,50/kg. Apesar disso, os EUA são exportadores estruturais, enquanto o Brasil enfrenta dificuldades com importações. A competitividade americana se deve a fatores como eficiência de processamento, logística e uma mentalidade de longo prazo. Além disso, os teores de sólidos do leite nos EUA aumentaram, enquanto os do Brasil caíram. Isso impactou a competitividade entre os dois países. A reflexão final destaca a necessidade de planejamento e visão de longo prazo no setor lácteo brasileiro.
Brasil e Estados Unidos têm preços do leite mais ou menos parecidos, na faixa dos US$ 0,40-US$ 0,45/kg de leite. É certo que as variações do câmbio podem distorcer momentaneamente essa semelhança, como agora, em que o real valorizado faz o leite brasileiro estar mais para os US$ 0,50/kg. 

Mesmo com essa ressalva, é possível ver, pelo gráfico 1, que a diferença de preços entre os dois países, para o leite já corrigido para sólidos, é bastante baixa. Com exceção de 2023, quando nosso preço descolou deles, e 2020, quando o deles descolou do nosso, em geral os valores ficam próximos ou abaixo de 5%. A favor dos EUA, diga-se. Mas nem sempre, especialmente quando são avaliados os dados mensais e não as médias: há momentos em que nosso preço é menor do que o deles, mesmo em anos cujas médias indicam o contrário. Aliás, eu não gosto de médias, especialmente quando servem mais para “desexplicar” do que para explicar algo. 

Gráfico 1. Preços do leite por kg, nos EUA e Brasil, para o leite corrigido para sólidos.  Fonte: MilkPoint Ventures, a partir de dados do USDA e Cepea. 

O que chama a atenção é que, apesar da pouca diferença nos preços pagos ao produtor, os Estados Unidos são hoje um exportador estrutural, exportando entre 16 e 18% de sua produção, ao passo que o Brasil ainda luta contra as importações. Exportações, no nosso caso, são ainda um sonho de uma noite de verão.

A observação é interessante porque costumamos dizer que o produtor de leite brasileiro não é competitivo globalmente, principalmente ao comparar nossos preços com os de Argentina, Uruguai e Nova Zelândia. Sim, esses países têm preços em geral mais baixos, e, sim, nós temos muito a evoluir. Mas como explicar que os EUA, com preços parecidos, exportam o equivalente a quase 70% da nossa produção anual? 

Não sei a resposta exata. Talvez seja uma combinação de fatores. Será eficiência de processamento, uma vez que o leite chega nas fábricas? Talvez, em algum grau. As fábricas são muito maiores e o parque industrial tem se modernizado muito. Será logística pós-fazenda e até os países de destino? Eventualmente. Será algum incentivo governamental? Difícil dizer.

O que, com certeza há, é uma mentalidade diferente, um projeto de longo prazo, envolvendo a organização do setor através da USDEC – Conselho de Exportação de Lácteos dos EUA, a abertura de novos mercados e o desenvolvimento de produtos nos quais o país tem espaço para competir. E, não menos importante, a ausência de barreiras ao crescimento da produção,  ao mesmo tempo em que o sistema é estruturado para tudo ser grande. 

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Vale informar que, até outro dia, no início dos anos 2000, os EUA eram importadores de lácteos, com exportações eventuais, subsidiadas pelo governo. Em 20 anos, mudaram o setor.   Entre 2005 e 2014, o volume das exportações americanas mais do que dobrou, transformando os EUA em um dos principais players globais, ao lado da Nova Zelândia e da União Europeia. Esse crescimento foi impulsionado pelo aumento da renda da classe média e da demanda por proteínas no Leste e Sudeste Asiático, além da entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Nesse período, os EUA conquistaram uma posição dominante no mercado global de produtos de alto valor à base de sólidos desnatados, como leite em pó desnatado (NFDM), soro de leite (whey) e lactose. Em outras palavras, embora o custo de produção seja uma variável importante, ela não é a única e talvez nem a mais definitiva, mesmo em se tratando de commodities lácteas.

Mas há um outro ponto que vale a pena abordar sobre a competitividade EUA x Brasil. Nos últimos anos, os teores de sólidos no leite norte-americano subiram muito, fruto da melhoria genética (há o efeito marcante do sêmen sexado, permitindo que somente as melhores vacas sejam reprodutoras para o rebanho de leite), do manejo e da nutrição. A mudança foi tão grande que, assim como já ocorre na Nova Zelândia há anos, começa-se a se falar em produção de sólidos e não de leite. Veja esse trecho desse artigo da Dairy Herd Management (aliás, sugiro muito ler o artigo): 

“Por quase um século, a métrica de sucesso em uma fazenda leiteira americana foi simples: o total de quilos de leite no tanque de refrigeração. O objetivo era volume, e a vaca de 45 quilos de leite por dia era o padrão ouro da excelência operacional. Mas, à medida que o setor avança, uma mudança sísmica está ocorrendo — uma mudança de maré que está redefinindo fundamentalmente o que produzimos, como processamos e para onde isso vai.

Os EUA não são mais apenas uma nação de leite fluido. Tornaram-se uma potência global em componentes nutricionalmente densos, impulsionada por um enorme crescimento da infraestrutura de processamento e por uma mudança agressiva em direção aos mercados internacionais.”

E ainda: “A indústria leiteira dos Estados Unidos superou a época em que as exportações funcionavam apenas como uma válvula de escape para o excedente de leite. Hoje, as exportações são um dos pilares centrais do modelo de negócios”.

Os gráficos 2 e 3 trazem a evolução de gordura e proteína do leite dos EUA e do Brasil de 2020 até 2025. O caso da gordura é o mais emblemático: enquanto o Brasil oscilou para baixo, ao redor de 3,7%, os EUA subiram de 3,94% para 4,29%. Em 5 anos!  Na proteína, o avanço foi menor, mas revela uma inversão. De acordo com os dados disponíveis, nosso leite tinha mais proteína do que o leite dos EUA em 2020 (3,28% x 3,17%), enquanto somente 5 anos depois, os EUA saltaram na frente: 3,34% x 3,30%.  

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No mês passado, tivemos um dos melhores produtores norte-americanos dando palestra no Milk Pro Summit. Antes do evento, ele visitou algumas fazendas e, apesar de ter gostado bastante do que viu, chamou sua atenção o baixo teor de sólidos do leite. Isso porque eram fazendas da elite brasileira.  Fonte: USDA, MAPA, Clínica do Leite.  


 


 

 

Fizemos, por fim, um último exercício. Pegamos os teores de proteína e gordura do leite dos EUA em 2020, e aplicamos a partir daí a “evolução” ano a ano dos nossos teores de gordura e proteína. O que teria acontecido com os preços do leite dos EUA corrigidos para sólidos, caso tivessem, em 5 anos, andado de lado ou para trás, como no nosso caso? 

O resultado está no gráfico 4. Em resumo: o leite norte-americano teria ficado mais caro do que o nosso nos últimos anos. Em outras palavras, de 5% mais competitivo, passaria a ser 2% mais caro. As trajetórias diferentes no teor de sólidos mudaram a equação de custos entre Brasil e EUA. 

Gráfico 4. Qual o custo do leite norte-americano se tivesse tido a variação dos sólidos brasileiros, de 2020 a 2025. Fonte: MilkPoint Ventures, a partir de dados do USDA e Cepea. 

Constatações importantes:

1. Enquanto estamos ocupados com outras agendas, normalmente de curto prazo, há países que estão fazendo o trabalho de casa e ficando mais competitivos. Será que estamos ao menos percebendo?

2. Competitividade se constrói com trabalho, planejamento, agenda correta e visão de longo prazo.

3. Em um momento cada vez mais rápido, até na agricultura e na pecuária o jogo pode virar em poucos anos.  Nesse sentido, cada ano perdido nos custa muito mais do que antes.

Pergunta: quem, no setor lácteo brasileiro, está olhando para essas questões?

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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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