Participei recentemente de uma entrevista para uma consultoria em estratégia, que está fazendo um trabalho para um cliente nosso. O objetivo é consolidar visões possíveis do futuro para o setor lácteo, para que a empresa avalie oportunidades e ameaças ou seu negócio.
Esses exercícios são interessantes porque, se bem feitos, nos ajudam a pensar, principalmente se o interlocutor for alguém de fora do setor, sem os vieses naturais que temos, justamente por estarmos imersos no mundo lácteo.
Ao final, ele me fez a seguinte pergunta: “Se você tivesse acesso a um gênio da lâmpada e pudesse escolher 3 perguntas para ele responder, pensando no futuro, que perguntas gostaria de ter as respostas?”
Essas perguntas são “a hora da verdade”, quando você precisa sintetizar seu conhecimento e sua visão sobre o setor, em apenas 3 perguntinhas. Não é fácil! Mas vamos lá.
A primeira pergunta que gostaria de perguntar ao gênio é: “Olhando 10-15 anos à frente, o setor lácteo será pujante, dinâmico e rentável, a nível mundial, ou será uma cadeia estagnada ou mesmo decadente?”
Se analisarmos as projeções feitas por especialistas, instituições de pesquisa, bancos e governos, quase sempre a visão de futuro é positiva: a população mundial vai crescer; o consumo per capita de proteína animal vai crescer; players tradicionais não vão conseguir suprir a demanda; há restrições ambientais crescentes em muitos lugares, que dificultam o crescimento da oferta nos países que historicamente dominaram o mercado. Nesse contexto, os preços vão subir estruturalmente e leite será sim um ótimo negócio.
Mas não é tão simples. Ouvimos há pelo menos 2 décadas que isso iria ocorrer, mas o fato é que, até agora, essa tendência não se concretizou, exceto pontualmente. Quando a demanda sobe, os preços sobem e há estímulo à produção, mesmo em players tradicionais como a Europa, a Nova Zelândia e os Estados Unidos, reequilibrando oferta e demanda. Há, ainda, a questão das mudanças de hábitos de consumo, sendo dignos de nota os medicamentos para emagrecimento, que reduzem o consumo de alimentos. No Dairy Vision 2025, vimos que a nova geração dos GLP-1, ainda em aprovação, é significativamente mais eficiente, com menos (ou sem) efeitos colaterais e com ingestão oral, sem contar que os preços devem cair à medida que as patentes vençam. É possível imaginar que parte significativa da população de renda média/alta, no futuro próximo, usará esses medicamentos como rotina. Quais serão as implicações no consumo de alimentos e, em especial, lácteos?
Ainda, há a questão dos lácteos feitos em laboratórios, a partir da fermentação de precisão. Hoje, é um mercado incipiente, com baixa capacidade de produção e restrito a ingredientes específicos. Será que terá um papel relevante no futuro, disruptando parte dos lácteos?
A segunda pergunta que faria ao gênio é: “O Brasil será um player relevante, competitivo globalmente, como ocorre com outras cadeias do agro?”
Essa pergunta é de importância central para nós, evidentemente. Os lácteos podem ser um mercado atrativo sob o ponto de vista global, mas será que vamos participar da festa, ou permaneceremos importadores líquidos?
Aqui, estamos falando de competitividade estrutural, que passa por aumento da eficiência como um todo: produtividade, escala, logística, sólidos no leite, melhoria da infraestrutura, gestão, relações mais estáveis entre os elos e avaliação dos custos relativos dos insumos, detectando possíveis lacunas que precisam ser trabalhadas.
A terceira pergunta que gostaria de fazer ao gênio é se “questões hoje ainda periféricas do ponto de vista de preferência do consumidor, como bem-estar animal, rastreabilidade, biossegurança e sustentabilidade, entre outras, serão main stream, isto é, se tornarão a regra do mercado: sem elas, não haverá produção”.
Muito se fala sobre todos esses aspectos, mas a verdade é que o que norteia as decisões de consumo são preço, sabor e qualidade nutricional. Mesmo em países de renda mais alta, a grande maioria dos consumidores não está disposta a pagar mais – está disposta a pagar igual, mas ter o benefício. Com quem fica a conta?
Em função disso, na minha visão, esses aspectos se tornarão essenciais não pela demanda do consumidor, mas porque trazem mais dinheiro ao produtor. Em outras palavras, se as tecnologias novas relacionadas a esses pontos tiverem retorno positivo, serão adotadas, caso contrário, serão nichos. Ou, claro, se houver regulamentação governamental.
Dentro dessa terceira pergunta, há uma variante que também desperta minha curiosidade: os mercados de carbono serão realidade em larga escala? Hoje, muito se fala, mas são muito poucos os produtores no mundo que têm na venda de créditos de carbono uma receita relevante. Será que isso vai mudar no espaço de 10 a 15 anos?
Acabei não dando a minha visão sobre as duas primeiras perguntas.
Por estar dentro da cadeia e ser parte interessada, não posso deixar de admitir que tenho um viés óbvio. Mas acredito sim que a cadeia do leite será atrativa mundialmente (caso contrário, por que trabalhar nela?), principalmente pensando no abastecimento de grande parte da população mundial, com uma proteína de alta qualidade. Mas há que se atentar para os produtos substitutos, que ainda estão em sua infância – especialmente a fermentação de precisão. Também, restrições em relação ao uso da água e o manejo de nutrientes do esterco em sistemas intensivos são questões que ganharão importância.
Sobre o Brasil, também sou positivo. É sempre complicado ser positivo quando o cenário é desafiador, como agora. É difícil não ceder ao momento. Mas racionalmente, o Brasil tem todas as condições para ser um player relevante a nível global. Os avanços que estão ocorrendo são muito significativos, ainda que não uniformemente distribuídos entre os produtores. Há evoluções necessárias no ambiente institucional, como a existência de ferramentas de proteção de preços (mercados futuros, seguros de margem) e amadurecimento no relacionamento entre os elos, mas chegaremos lá.
E você, o que acha dessas perguntas e respostas? E que outras perguntas fariam ao gênio da lâmpada?
PS pós-publicação: há, também, pressões que podem vir do varejo (o customer, e não o consumer) e de financiadores (bancos). Nesse caso, a conta vai ser de alguma forma dividida por produtor e indústria. Mas, de qualquer forma, esse driver ainda não é suficiente para mudar o ponteiro.
