As 3 perguntas para o gênio da lâmpada

Imagine três perguntas decisivas para um "gênio da lâmpada" sobre o futuro do setor lácteo. Mercado global, papel do Brasil, novas tecnologias, consumo, sustentabilidade e até carbono entram no radar. As respostas não são simples - mas dizem muito sobre os rumos da cadeia. E você, que perguntas faria?

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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O texto aborda uma visão sobre o futuro do setor lácteo, focando em três perguntas hipotéticas a um "gênio da lâmpada". A primeira questiona se o setor será rentável globalmente nos próximos 10-15 anos, considerando tendências de consumo e inovações, como lácteos produzidos em laboratório. A segunda pergunta indaga se o Brasil se tornará um competidor relevante no mercado global. A terceira pergunta explora se questões como bem-estar animal e sustentabilidade se tornarão centrais na produção. O autor acredita que o setor lácteo pode ser atrativo, mas enfrenta desafios significativos.

Participei recentemente de uma entrevista para uma consultoria em estratégia, que está fazendo um trabalho para um cliente nosso. O objetivo é consolidar visões possíveis do futuro para o setor lácteo, para que a empresa avalie oportunidades e ameaças ou seu negócio.

Esses exercícios são interessantes porque, se bem feitos, nos ajudam a pensar, principalmente se o interlocutor for alguém de fora do setor, sem os vieses naturais que temos, justamente por estarmos imersos no mundo lácteo.

Ao final, ele me fez a seguinte pergunta: “Se você tivesse acesso a um gênio da lâmpada e pudesse escolher 3 perguntas para ele responder, pensando no futuro, que perguntas gostaria de ter as respostas?”

Essas perguntas são “a hora da verdade”, quando você precisa sintetizar seu conhecimento e sua visão sobre o setor, em apenas 3 perguntinhas. Não é fácil! Mas vamos lá.

A primeira pergunta que gostaria de perguntar ao gênio é: “Olhando 10-15 anos à frente, o setor lácteo será pujante, dinâmico e rentável, a nível mundial, ou será uma cadeia estagnada ou mesmo decadente?”

Se analisarmos as projeções feitas por especialistas, instituições de pesquisa, bancos  e governos, quase sempre a visão de futuro é positiva: a população mundial vai crescer; o consumo per capita de proteína animal vai crescer; players tradicionais não vão conseguir suprir a demanda; há restrições ambientais crescentes em muitos lugares, que dificultam o crescimento da oferta nos países que historicamente dominaram o mercado. Nesse contexto, os preços vão subir estruturalmente e leite será sim um ótimo negócio.

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Mas não é tão simples. Ouvimos há pelo menos 2 décadas que isso iria ocorrer, mas o fato é que, até agora, essa tendência não se concretizou, exceto pontualmente. Quando a demanda sobe, os preços sobem e há estímulo à produção, mesmo em players tradicionais como a Europa, a Nova Zelândia e os Estados Unidos, reequilibrando oferta e demanda. Há, ainda, a questão das mudanças de hábitos de consumo, sendo dignos de nota os medicamentos para emagrecimento, que reduzem o consumo de alimentos. No Dairy Vision 2025, vimos que a nova geração dos GLP-1, ainda em aprovação, é significativamente mais eficiente, com menos (ou sem) efeitos colaterais e com ingestão oral, sem contar que os preços devem cair à medida que as patentes vençam. É possível imaginar que parte significativa da população de renda média/alta, no futuro próximo, usará esses medicamentos como rotina. Quais serão as implicações no consumo de alimentos e, em especial, lácteos?

Ainda, há a questão dos lácteos feitos em laboratórios, a partir da fermentação de precisão. Hoje, é um mercado incipiente, com baixa capacidade de produção e restrito a ingredientes específicos. Será que terá um papel relevante no futuro, disruptando parte dos lácteos?

A segunda pergunta que faria ao gênio é: “O Brasil será um player relevante, competitivo globalmente, como ocorre com outras cadeias do agro?”

Essa pergunta é de importância central para nós, evidentemente. Os lácteos podem ser um mercado atrativo sob o ponto de vista global, mas será que vamos participar da festa, ou permaneceremos importadores líquidos?

Aqui, estamos falando de competitividade estrutural, que passa por aumento da eficiência como um todo: produtividade, escala, logística, sólidos no leite, melhoria da infraestrutura, gestão, relações mais estáveis entre os elos e avaliação dos custos relativos dos insumos, detectando possíveis lacunas que precisam ser trabalhadas.

A terceira pergunta que gostaria de fazer ao gênio é se “questões hoje ainda periféricas do ponto de vista de preferência do consumidor, como bem-estar animal, rastreabilidade, biossegurança e sustentabilidade, entre outras, serão main stream, isto é, se tornarão a regra do mercado: sem elas, não haverá produção”.

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Muito se fala sobre todos esses aspectos, mas a verdade é que o que norteia as decisões de consumo são preço, sabor e qualidade nutricional. Mesmo em países de renda mais alta, a grande maioria dos consumidores não está disposta a pagar mais – está disposta a pagar igual, mas ter o benefício. Com quem fica a conta?

Em função disso, na minha visão, esses aspectos se tornarão essenciais não pela demanda do consumidor, mas porque trazem mais dinheiro ao produtor. Em outras palavras, se as tecnologias novas relacionadas a esses pontos tiverem retorno positivo, serão adotadas, caso contrário, serão nichos. Ou, claro, se houver regulamentação governamental.

Dentro dessa terceira pergunta, há uma variante que também desperta minha curiosidade: os mercados de carbono serão realidade em larga escala? Hoje, muito se fala, mas são muito poucos os produtores no mundo que têm na venda de créditos de carbono uma receita relevante. Será que isso vai mudar no espaço de 10 a 15 anos?

Acabei não dando a minha visão sobre as duas primeiras perguntas.

Por estar dentro da cadeia e ser parte interessada, não posso deixar de admitir que tenho um viés óbvio. Mas acredito sim que a cadeia do leite será atrativa mundialmente (caso contrário, por que trabalhar nela?), principalmente pensando no abastecimento de grande parte da população mundial, com uma proteína de alta qualidade.  Mas há que se atentar para os produtos substitutos, que ainda estão em sua infância – especialmente a fermentação de precisão. Também, restrições em relação ao uso da água e o manejo de nutrientes do esterco em sistemas intensivos são questões que ganharão importância.

Sobre o Brasil, também sou positivo. É sempre complicado ser positivo quando o cenário é desafiador, como agora. É difícil não ceder ao momento. Mas racionalmente, o Brasil tem todas as condições para ser um player relevante a nível global. Os avanços que estão ocorrendo são muito significativos, ainda que não uniformemente distribuídos entre os produtores. Há evoluções necessárias no ambiente institucional, como a existência de ferramentas de proteção de preços (mercados futuros, seguros de margem) e amadurecimento no relacionamento entre os elos, mas chegaremos lá.

E você, o que acha dessas perguntas e respostas? E que outras perguntas fariam ao gênio da lâmpada?

 

PS pós-publicação: há, também, pressões que podem vir do varejo (o customer, e não o consumer) e de financiadores (bancos). Nesse caso, a conta vai ser de alguma forma dividida por produtor e indústria. Mas, de qualquer forma, esse driver ainda não é suficiente para mudar o ponteiro.

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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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Sérgio Ely
SÉRGIO ELY

LAJEADO - RIO GRANDE DO SUL

EM 28/01/2026

Boa tarde Marcelo, a reflexão acima é fundamental para que a cadeia possa se consolidar e de fato viabilizar a permanência não apenas dos grandes, mas, também, dos pequenos e médios “players”do setor produtivo. Todavia, acredito que estejamos um pouco atrasados na evolução do nosso “mindset”quanto ao funcionamento da cadeia e como os elos da mesma devam se comunicar e interagir com sinergia. Ainda acredito que a agregação de conhecimento para os produtores e os seus colaboradores deva ser o primeiro e mais importante fator a ser trabalhado afim de que o Brasil altere o peso que possui na cadeia mundial de leite e derivados. Uma questão de extrema importância (fora o seu impacto socioeconômico)será a manutenção na cadeia daqueles que não conseguirem ganhar escala ou agregar valor a produção, pois, se nas últimas décadas este fenômeno de exclusão dos mesmos tem acelerado, imaginemos com as possíveis novas pressões advindas da instabilidade geopolítica ou das novas demandas de cunho ambiental.
Marcelo Pereira de Carvalho
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 30/01/2026

Obrigado Sérgio!
Mário Sérgio Ferreira Zoni
MÁRIO SÉRGIO FERREIRA ZONI

PONTA GROSSA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 15/01/2026

Bom dia Marcelo

Muito boa a formulação das perguntas e as possíveis respostas. Não vou comentar suas ponderações porque você está muito mais envolvido com essa busca de cenários. Vou passar um pouco da minha impressão sobre este assunto.
Primeiro ponto discordo total mente da visão do Gilson. Em gênero, número e grau. Somos um país de consumo de Leite fluído e crescendo no de derivados proteicos, isso leva a modularmos dietas para volume abrindo mão de Gordura em excesso. Não há necessidade de nenhuma ação por parte de quem quer que seja, apenas do consumidor para que se aumente produção de Gordura no Leite. Usar o exemplo da Nova Zelândia é ridículo principalmente vendo os atuais problemas que estão passando com o crescimento da produção nos seus antigos importadores.
No que realmente importa que é essa evolução de médio prazo, vou responder com a visão de quem está dentro e fora das propriedades:
Este enorme crescimento das propriedades tende a se arrefecer, mas enquanto isso vamos aumentar um Uruguai e Argentina somados. E aí reside a grande mudança no meu ponto de vista. Passaremos a trabalhar com margens menores que no passado, como é comum no USA e isso vai forçar o fechamento de muitas propriedades ineficientes. Esta redução de margens condiciona um segundo posicionamento, que é a redução de investimentos em questões como manejo ambiental, marketing do setor e outras atividades altamente necessárias mas que serão postergadas. Muito de acordo com o que escutei de produtores da Nova Zelândia " É impossível pensar em verde, quando se está no vermelho".
Marcelo Pereira de Carvalho
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 16/01/2026

Bom dia Mário, obrigado pelos comentários. Eu concordo que as margens serão menores, principalmente as margens de produtores de maior porte, que hoje têm um prêmio de preço que tende a diminuir, principalmente pelo aumento do número de grandes produtores. À medida que temos aumento geral de escala, esse é um processo natural. Sobre a questão dos sólidos, com certeza proteína continuará em alta. Já em relação à gordura, o apelo é menor do que proteína, mas ainda assim acho que há espaço e necessidade, principalmente se vamos exportar em algum momento leite em pó. Os produtos que crescem consumo no Brasil dependem de sólidos - mais proteína do que gordura, sem dúvida.
Gilson de Carvalho
GILSON DE CARVALHO

CIANORTE - PARANÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 14/01/2026

Marcelo, na minha opinião, nos comentários da sua segunda pergunta, que você destacou em vermelho, está o principal motivo do Brasil ainda não ser um player relevante, competitivo globalmente: os sólidos no leite. Toda a indústria sabe a relevância dos sólidos em suas planilhas de custo, mas essa forma brasileira de pagar o leite pelo litro de leite e não por kilos de sólidos, valorizando mais volume do que os sólidos no leite, deixa as indústrias brasileiras sem competitividade, incentiva os produtores de leite a desenvolver a genética e a raça do rebanho em cima de volume de leite , e se isso não for mudado o Brasil nunca será um player relevante. No ano passado, em uma consultoria, tive a oportunidade de participar de uma reunião, onde estava um produtor de leite aqui do Paraná, que tinha recém chegado da Nova Zelândia, onde ele foi conhecer a produção de leite da Nova Zelândia e me mostrou um tiket do caminhão de coleta a granel, onde tinha as análises do leite que constavam: Gordura = 6,1% e Proteína = 4,2%. Ele estava admirado com a raça das vacas Kiwi-Cross da Nova Zelândia, eles estão muitos anos na frente do Brasil, dizia. Concordei plenamente com ele e é por isso que são os maiores exportadores do mundo, estão na frente na genética de seu rebanho, não só do Brasil, mas do mundo todo. Acredito ser esse o nosso caminho para sairmos dessa estagnação: precisamos ter a humildade de reconhecer o nosso erro na forma de valorização do leite e seguirmos o modelo do maior exportador do mundo. E para encurtar caminhos, unir governos federal e estaduais, universidades, associações de produtores, as indústrias do setor lácteo e ir introduzindo, gradativamente, de forma conjunta, essa raça fantástica na produção de sólidos no leite, o que dará competitividade às indústrias brasileiras no mercado nacional e internacional e consequentemente, melhores preços aos produtores de leite. Vemos as indústrias automatizando suas linhas, incorporando novas tecnologias, produtores se organizando, melhorando a gestão de suas fazendas, mas se não mudarmos essa forma de valorização do leite, continuaremos estagnados e pressionados pelos produtos importados!
Marcelo Pereira de Carvalho
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 15/01/2026

Bom dia GIlson, obrigado pelo comentário. Eu concordo com você. Embora a Nova Zelândia seja um exemplo bem específico e com particularidades, o fato é que o teor de sólidos está crescendo nos EUA, na Argentina, no Uruguai, enquanto aqui aparentemente as % estão estagnadas. Isso faz com que a nossa competitividade vá caindo ao longo do tempo, não só pensando no acesso ao mercado eterno, mas também no custo dos derivados, que dependem do teor de sólidos para ter rendimento. Como contraponto, algumas indústrias estão atualizando seus sistemas de pagamento, valorizando mais sólidos, mas ainda é um movimento que não está mudando o mercado. Há um ganho potencial de sólidos por melhor nutrição, manejo, conforto, que também pode ocorrer, mesmo sem incentivos de preços.
André Thaler Neto
ANDRÉ THALER NETO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 14/01/2026

Parabéns pelas interessantes reflexões Marcelo. Elas são fundamentais para o planejamento da nossa atividade.
Quero aproveitar e deixar minha opinião. Quanto à segunda pergunta, acredito que o Brasil terá um espaço importante na cadeia no futuro. Provamos ao mundo que somos capazes de ser muito eficientes em diversas cadeias produtivas nas quais éramos secundários no passado e temos que fazer com leite. Entendo que os desafios estão aqui dentro do país como mencionado na tua matéria.
Quanto aos aspectos ambientais considero fundamental que nos debrucemos sobre eles, porque além da própria eficiência produtiva em muitos casos, ela é fundamental para a imagem da cadeia produtiva e poderá ser fundamental para o consumidor querer consumir lácteos, o que tem, na minha humilde opinião muita relação com a tua primeira pergunta. Precisamos agir ambientalmente, medir o ciclo de vida do carbono na cadeia produtiva do leite e publicizar de forma eficiente em uma linguagem na qual o nosso consumidor se sente atendido nas suas demandas
Marcelo Pereira de Carvalho
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 14/01/2026

Caro André,

Muito obrigado pelas suas considerações, com as quais concordo. Não há porque o Brasil não ter um papel relevante globalmente no leite, já que tem todas as condições para isso. Há, naturalmente, uma lição de casa a ser feita, para nos equipararmos em eficiência com outras cadeias do agro.

Sobre a questão ambiental, também. O que acho, porém, é que mesmo nos países desenvolvidos, há uma diferença entre o que diz o "cidadão" e o que faz o "consumidor". O cidadão está disposto a pagar mais por adequação ambiental, carbono, etc., mas quando está no consumidor , quer tudo isso, mas sem pagar mais. Ou seja, a conta não fecha, a não ser que aumente a eficiência produtiva, gerando ganhos para todos. Ou que alguém na cadeia (varejo, indústria?) arque com isso.
Qual a sua dúvida hoje?