Recalls de queijos: sinal de falha ou de transparência?

Recall de queijos mostra responsabilidade sanitária. Detectar, comunicar e retirar lotes contaminados é essencial para proteger a saúde pública. Saiba mais!

Publicado em: - 2 minutos de leitura

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A Vigilância Sanitária de Belo Horizonte recolheu 2,4 toneladas de queijos contaminados da rede Verdemar, evidenciando o tabu sobre recalls no Brasil. O recall é uma ferramenta de proteção ao consumidor, essencial para lidar com falhas na produção. Na Europa, a prática é comum e transparente, com portais que informam sobre os recalls. A Listeria e a Escherichia coli representam riscos à saúde, exigindo monitoramento eficaz. No Brasil, a resistência em comunicar recalls prejudica a confiança do consumidor e a imagem das empresas.

Recentemente, a Vigilância Sanitária de Belo Horizonte recolheu 2,4 toneladas de queijos contaminados vendidos em unidades da rede Verdemar. A notícia gerou enorme repercussão entre consumidores e profissionais do setor, reforçando a percepção de que o recall de alimentos ainda é visto como um grande tabu no Brasil.

 

Mas será que deveria ser assim?

O processo de recolhimento, na verdade, é uma ferramenta essencial de proteção ao consumidor. Qualquer cadeia produtiva – por mais rigorosa que seja – está sujeita a falhas, seja por contaminação microbiológica, problemas na armazenagem, erros de rotulagem ou falhas logísticas. O recall, portanto, não é sinal de fracasso, mas de transparência e responsabilidade sanitária.

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Na Europa, a prática é encarada de forma muito mais natural. Na França, por exemplo, existe um portal oficial – rappel.conso.gouv.fr – que reúne todas as chamadas de recolhimento de produtos, atualizadas em tempo real e acessíveis a qualquer consumidor. Somente no mês de setembro de 2025, foram registradas 31 chamadas de recall de queijos no país. Os principais agentes identificados foram:

- Listeria monocytogenes → 17 ocorrências

- Escherichia coli STEC → 14 ocorrências

A grande maioria dos casos envolveu queijos elaborados com leite cru (27 casos), mas houve também recalls de queijos pasteurizados (4 casos).

 

Os riscos da Listeria monocytogenes e da Escherichia coli

Listeria monocytogenes é uma bactéria particularmente preocupante porque pode causar listeriose, doença grave que afeta principalmente gestantes, recém-nascidos, idosos e pessoas imunodeprimidas. Durante a gravidez, a infecção pode provocar aborto espontâneo, parto prematuro ou infecção neonatal. Por isso, na França, os rótulos de queijos feitos com leite cru trazem uma advertência clara, informando que não são recomendados para gestantes.

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Já a Escherichia coli STEC (produtora de toxina Shiga) pode provocar diarreia sanguinolenta, cólicas intensas e, em casos graves, síndrome hemolítico-urêmica (SHU), condição potencialmente fatal que afeta os rins, especialmente em crianças pequenas. 

 

O papel da análise e do monitoramento

O recall só é possível se existir um sistema de monitoramento e análise laboratorial eficiente. Amostras coletadas rotineiramente nos laticínios, em pontos de venda e em programas de vigilância permitem detectar rapidamente microrganismos perigosos e identificar quais lotes precisam ser retirados do mercado.

Essa detecção precoce é o que garante que o consumidor esteja protegido antes que o problema se torne mais grave. Sem análises sistemáticas, muitos casos de contaminação passariam despercebidos, com riscos diretos à saúde pública.

Outro aspecto essencial é a forma como o recall é comunicado. Informar rapidamente o consumidor sobre os riscos, os lotes envolvidos e os canais de devolução é tão importante quanto identificar o problema.

No Brasil, entretanto, ainda há resistência em assumir publicamente os recalls, o que gera desconfiança e até amplia os danos à imagem das empresas. 

O recall não deve ser visto como uma “falha exposta”, mas sim como o resultado de um sistema que funciona: identifica o risco, age rapidamente e protege o consumidor.

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Material escrito por:

Maike Tais Maziero Montanhini

Maike Tais Maziero Montanhini

Tecnóloga em Alimentos, especialista em Higiene, Vigilância e Processamento de Produtos de Origem Animal, mestre em Ciência de Alimentos, doutora em Tecnologia de Alimentos e com pós-doutorado na Universidade Federal do Paraná.

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