Produção de leite cada vez mais concentrada

A produção de leite no Brasil e no mundo está cada vez mais concentrada. Conheça os fatores que impulsionam esse movimento

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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O setor leiteiro brasileiro enfrenta significativa concentração, com um produtor deixando a atividade a cada 16 minutos entre 1996 e 2017, devido a fatores como falta de sucessão familiar e dificuldades financeiras. Apesar disso, a produção de leite cresceu 73% entre 2000 e 2013. Globalmente, a tendência também é de concentração, com apenas 25 países responsáveis por 81% da produção. A profissionalização e adoção de tecnologias são cruciais para a competitividade, destacando a necessidade de adaptação dos pequenos e médios produtores.

O setor leiteiro brasileiro passa por um processo de concentração significativo. Segundo Paulo do Carmo Martins, pesquisador da EMBRAPA Gado de Leite, que trouxe em sua palestra no Interleite Brasil 2025 o tema, “Estima-se que entre os anos de 1996 e 2017 um produtor deixou de produzir leite a cada 16 minutos”, configurando uma das maiores reduções já registradas no segmento, esse processo tem sido motivado por alguns fatores como:

Apesar desse movimento, os números de produção revelam um cenário diferente. Segundo a Embrapa, a produção de leite cresceu mais de 73% entre 2000 e 2013 e, desde então, mantém-se em níveis estáveis, mesmo com a redução progressiva no número de produtores.

Diante dessa transformação na cadeia produtiva, surgem algumas questões importantes: esse processo é um fenômeno global? e como podemos explicá-lo?

 

O cenário global de produção de leite 

Ao analisarmos a produção global de leite, percebemos uma tendência à concentração, segundo a FAO, em 2022, a produção mundial alcançou cerca de 930 bilhões de litros, dos quais aproximadamente 81% foram produzidos por apenas 25 nações. 

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No entanto, a concentração não acontece apenas entre países: dentro dessas próprias nações, observa-se um movimento semelhante ao visto no Brasil, em que um número cada vez menor de fazendas responde pela maior parte da produção. Entre 1996 e 2022, por exemplo:

  • 23 dos 25 países com maior produção registraram um aumento do seu volume produzido

  • Todos os 25 apresentaram um aumento da produtividade em Litros/vaca/ano

  • 20 aumentaram o número total de vacas em seu rebanho 

  • 19 apresentaram diminuição no número total de propriedades produtoras de leite

Para ilustrar melhor o cenário global, vamos tomar como exemplo um país de grande relevância na produção de leite: os Estados Unidos. Nos EUA, entre os anos de 2017 e 2022, duas em cada cinco fazendas leiteiras encerraram suas atividades. Porém, ao observar os dados do USDA-NASS do mesmo período, tanto a produção quanto a produtividade do país continuaram em crescimento. 

Gráfico 1. Produção de leite nos EUA de 2015 a 2024 (milhões de libras)

Fonte: USDA-NASS, 2025

Gráfico 2. Produção média de leite por vaca/ano nos EUA (libras)

Fonte: USDA-NASS, 2025

 

Hoje estima-se que quase dois terços do leite dos EUA seja produzido por fazendas com mais de 1000 animais, o que representa apenas 8% de todas as propriedades leiteiras americanas. Além da diminuição no número de pequenos produtores, essa concentração da produção também possui outras razões

 

Se o número de produtores está caindo, porque a captação está aumentando

Como mencionado anteriormente, diversos fatores têm justificado a saída de pequenos e médios produtores da atividade leiteira. Contudo, ao analisarmos a realidade das grandes propriedades produtoras, o cenário é bastante diferente.

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A profissionalização da produção de leite em larga escala tem se mostrado um diferencial decisivo. O investimento em tecnologias, como genética de alta qualidade, sensores, câmeras, ordenhadeiras e alimentadores robóticos, aliado a melhorias na gestão financeira e de pessoas, estabelece uma fronteira clara entre uma produção lucrativa e sustentável e outra que não consegue se manter competitiva.

Esse contraste fica ainda mais evidente quando comparamos o volume médio de leite produzido por vaca, por dia, no Brasil, com a média alcançada pelos 100 maiores produtores do país, segundo o Ranking Top 100 MilkPoint/ABRALEITE. Os números refletem como a eficiência e a adoção de tecnologias impactam diretamente nos resultados e reforçando a vantagem competitiva dos grandes produtores.

Gráfico 3. Média da produção de leite em litros/vaca/dia do Brasil e dos 100 maiores produtores de leite do país

 

Além disso, propriedades de maior escala costumam ter acesso facilitado a essas tecnologias ou a linhas de crédito que viabilizam sua implementação. Essa vantagem permite que ampliem continuamente sua produção, seja pelo aumento da produtividade do rebanho ou pela aquisição de novos animais, consolidando cada vez mais sua posição no mercado.

 

A transformação da cadeia do leite

A análise dos dados mostra que a concentração da produção de leite é, de fato, um fenômeno global. Em praticamente todos os grandes países produtores, observa-se o mesmo movimento: o número de propriedades leiteiras diminui, enquanto a produção total segue em crescimento. Isso significa que um volume cada vez maior de leite é produzido por um número cada vez menor de fazendas, segundo Paulo Martins: “estamos diante de um processo de concentração muito rápido e intenso em toda a cadeia produtiva”.

Entre as principais razões para essa concentração estão a adoção de tecnologias avançadas, o efeito da economia de escala e a profissionalização da gestão nas grandes propriedades, que têm elevado cada vez mais a produtividade por vaca. Somado a isso, os pequenos e médios produtores enfrentam uma série de desafios que dificultam sua permanência na atividade.

No Brasil, esse cenário se repete e tende a se intensificar nos próximos anos. Nesse contexto, a concentração não deve ser vista apenas como uma consequência, mas como um alerta: quem deseja permanecer na atividade precisará se adequar às novas demandas do mercado, investindo em gestão, inovação e eficiência produtiva. Pequenos e médios produtores terão de buscar alternativas para aumentar sua competitividade, seja por meio da profissionalização, do cooperativismo ou da adoção de modelos inovadores de produção.

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Material escrito por:

Igor Antonio

Igor Antonio

Médico Veterinário formado pela Universidade Federal de Uberlândia. Editor de Conteúdo da MilkPoint

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