A saúde bucal vai além da ausência de doenças como cárie e periodontite, ela está intimamente relacionada ao equilíbrio da microbiota oral. Esse ecossistema complexo é formado por diversos microrganismos, cada um com funções específicas, que interagem entre si e com o organismo hospedeiro (SAMPAIO-MAIA et al., 2016), mantendo-se em equilíbrio e contribuindo para a proteção contra patógenos. Entretanto, fatores como dieta inadequada, higiene bucal deficiente, uso de antibióticos, estresse e tabagismo podem desequilibrar esse microbioma, levando à disbiose. Nesse contexto, os probióticos destacam-se como aliados potenciais da saúde bucal, por serem microrganismos vivos que, quando consumidos em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro (HILL et al., 2014).
Os probióticos têm sido amplamente utilizados pela indústria de alimentos, acompanhando a expansão do mercado de produtos funcionais e a crescente demanda por opções inovadoras voltadas à saúde humana e animal (DE MELO PEREIRA et al., 2018). De acordo com o relatório Market Research Reports (Markets and Markets, 2024), a indústria de probióticos deve alcançar um valor de mercado aproximado de 105,7 bilhões de dólares até 2029. Embora tradicionalmente associados à saúde intestinal, os probióticos têm demonstrado um papel crescente na saúde bucal, pois podem colonizar a cavidade oral, competir com microrganismos patogênicos e, assim, reduzir seu crescimento, diminuindo o risco de doenças (RANGANATHA et al., 2024). Uma das principais formas de consumo desses microrganismos é por meio de produtos lácteos, como iogurtes e leites fermentados, reforçando seu potencial de aplicação. Além de fornecer probióticos, esses alimentos também são fontes de fósforo, cálcio e proteínas, nutrientes que ajudam a prevenir cáries e doenças periodontais, favorecendo a remineralização do esmalte dentário, dificultando a adesão de patógenos e inibindo a formação de biofilmes (CRUZ et al., 2022; NOZARI et al., 2015; ALVES et al., 2019).
Estudos indicam que o consumo regular de produtos lácteos com probióticos pode modular de forma positiva a microbiota oral e inibir o desenvolvimento de cáries e doenças periodontais em diferentes faixas etárias (CRUZ et al., 2022). Entre esses produtos, o iogurte se destaca por sua capacidade de reduzir bactérias associadas à cárie, como Streptococcus mutans, enquanto aumenta a presença de Lactobacillus sp. e melhora parâmetros clínicos, incluindo o acúmulo de placa e a gengivite (NOZARI et al., 2015; PAHUMUNTO et al., 2019).
O queijo, por sua vez, pode contribuir para a redução de S. mutans, diminuir o risco de desmineralização em casos de hipossalivação e controlar a infecção por Candida sp. (PAHUMUNTO et al., 2019). Já o consumo de leite fermentado e leite convencional pode estar associado a uma menor incidência de cáries, à melhora da capacidade tampão salivar e à redução de enzimas envolvidas na degradação tecidual (CRUZ et al., 2022; PAHUMUNTO et al., 2019). Outros produtos lácteos, como leite em pó, kefir, petit suisse e coalhada, também apresentam benefícios, embora as evidências sejam ainda limitadas (CRUZ et al., 2022; PAHUMUNTO et al., 2019).
A literatura também evidencia uma forte associação entre patógenos orais e o desenvolvimento ou agravamento de doenças sistêmicas, como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e artrite reumatoide (KILIAN et al., 2016; SANZ et al., 2020). Isso ocorre porque bactérias e suas toxinas podem translocar para a corrente sanguínea, desencadeando respostas inflamatórias em tecidos distantes (KILIAN et al., 2016). Nesse contexto, o consumo regular de produtos lácteos probióticos ganha destaque, ultrapassando a função de simples cuidado com a higiene bucal e configurando-se como uma estratégia terapêutica complementar e eficaz. Esses alimentos funcionais modulam o microbioma oral por diferentes mecanismos, incluindo a competição por adesão, a produção de substâncias antimicrobianas, como bacteriocinas, e a regulação da resposta imune do hospedeiro (ZAURA; TWETMAN, 2019). Essa ação direta sobre o biofilme dental inibe o crescimento de patógenos e favorece o restabelecimento do equilíbrio microbiano, essencial para a manutenção da saúde bucal e sistêmica (DEO; DESHMUKH, 2019).
Assim, manter a homeostase oral por meio da alimentação — especialmente com o consumo de produtos lácteos que contenham probióticos — representa não apenas uma medida preventiva contra cáries e periodontite, mas também um fator essencial para a promoção da saúde. Cuidar da boca é, portanto, cuidar de todo o corpo. Nesse contexto, a modulação do microbioma oral por meio de probióticos lácteos surge como uma estratégia promissora e acessível para prevenir diversas doenças crônicas (DEO; DESHMUKH, 2019; SAMPAIO-MAIA et al., 2016).
Referências bibliográficas
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CRUZ, M. F. da. et al. Probióticos e produtos lácteos em odontologia: Uma revisão bibliométrica e crítica de ensaios clínicos randomizados. Food Research International, v. 157, 111228, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.foodres.2022.111228. Acesso em: 8 de out. 2025
DE MELO PEREIRA, G. V. et al. How to select a probiotic? A review and update of methods and criteria. Biotechnology Advances, v. 36, n. 8, p. 2060–2076, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.biotechadv.2018.09.003. Acesso em: 8 out. 2025.
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RANGANATHA, N. et al. Unlocking the Potential: Probiotics as a Promising Frontier in Oral Health. Journal of Pharmacy & Bioallied Sciences, v. 16, suppl. 3, p. S1947–S1949, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.4103/jpbs.jpbs_96_24. Acesso em: 8 out. 2025.
SAMPAIO-MAIA, B. et al. The Oral Microbiome in Health and Its Implication in Oral and Systemic Diseases. Advances in Applied Microbiology, v. 97, p. 171–210, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1016/bs.aambs.2016.08.002. Acesso em: 8 out. 2025.
SANZ, M. et al. Periodontitis and cardiovascular diseases: Consensus report. Journal of Clinical Periodontology, v. 47, n. 3, p. 268-288, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1111/jcpe.13189. Acesso em: 8 out. 2025.
ZAURA, E.; TWETMAN, S. The impact of probiotics on the oral microbiota. In: Oral Health and Herbal Medicine. Cham: Springer, 2019. p. 111-122. Disponível em: https://doi.org/10.3390/pathogens13050419. Acesso em: 8 out. 2025