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Colostragem e higiene: influência na transferência de imunidade passiva

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GERCINO FERREIRA VIRGINIO JUNIOR

CARLA BITTAR

EM 01/10/2019

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Bezerros em aleitamento são particularmente vulneráveis a problemas de saúde, especialmente às diarreias, e esse é geralmente o período em que se observam as maiores taxas de mortalidade. A qualidade e o gerenciamento do colostro, bem como as práticas de higiene relacionadas ao bezerro, como a rotina de limpeza de equipamentos de alimentação e de instalações, seja individual ou coletiva, podem ter grande impacto na saúde e na mortalidade dos bezerros.

A importância do fornecimento do colostro para bezerros neonatos já foi tratada em inúmeros textos desta coluna, assim como como fazer a avaliação de sua eficiência. Problemas no protocolo de colostragem podem resultar em falhas na transferência de imunidade passiva (FTIP), medida como uma concentração sérica de IgG <10 mg/mL entre 24 e 48 horas de vida. A FTIP pode aumentar as taxas de mortalidade, o risco de doenças, assim como o desempenho posterior da bezerra e a produção na primeira lactação. A enterite aguda, uma das causas mais comuns de mortalidade de bezerros, está associada ao manejo do colostro, mas também a práticas de higiene relacionadas a bezerros.

Um trabalho interessante foi conduzido por Barry et al. (2019) em 47 propriedades irlandesas, onde se investigou se ocorrem alterações no manejo do colostro e do recém-nascido à medida que a estação do parto progride. Cada fazenda foi visitada duas vezes quando foi aplicado um protocolo de avaliação do bem-estar de bezerros, que incluiu avaliação da saúde animal, pesquisa sobre manejo e avaliações ambientais. Assim, foi realizada uma entrevista com o colaborador responsável pelos bezerros para coletar informações sobre (1) manejo dos bezerros recém-nascido: separação do bezerro da vaca, tempo para primeira mamada, método de alimentação utilizado e volume fornecido; (2) manejo do colostro, que abordava o momento da coleta, armazenamento do colostro, avaliação da qualidade e uso do colostro de origem externa ou fabricado.

Na segunda visita, a entrevista se concentrou em áreas potenciais em que as práticas de manejo poderiam ter mudado à medida que o número de bezerros presentes na fazenda aumentou e a carga de trabalho associada se intensificou, como o momento da remoção do bezerro da vaca após o nascimento. A entrevista também incluiu perguntas sobre práticas de higiene relacionadas ao bezerro para determinar rotinas de limpeza para equipamentos de alimentação, áreas de parto e piquetes (individuais e de grupo). Em cada visita, um pessoal treinado avaliava fisicamente a higiene para determinar a eficácia de tais rotinas e, ao mesmo tempo, verificava as respostas dadas durante a entrevista. Em função disso, foi analisado se havia a presença de resíduos superficiais nos utensílios de alimentação, sendo dado um escore de 1 a 4 para a limpeza (1= baixos níveis de resíduos; e 4 = altos níveis de resíduos).

Também foram coletadas 6 amostras de colostro aleatoriamente em vacas recém-paridas, em cada propriedade. As amostras permaneceram congeladas até o ponto de análise para a concentração de IgG. Qualquer bezerro com mais de 24 horas e menos de 6 dias de idade no momento da visita teve sangue amostrado para avaliação de proteína sérica e diagnóstico de FTIP.

A taxa de mortalidade de bezerros nascidos em 2017 nas fazendas participantes foi fornecida pelas mesmas. Também foi fornecido o status (vivo ou morto) de bezerros dos quais as amostras de soro foram coletadas no final do ano em que nasceram. Para todos os bezerros mortos, foi fornecida a idade em que a mortalidade ocorreu. Os registros de produção média de leite e CCS para 305 dias do ano 2016 foram fornecidos, mas apenas para as vacas que o colostro foi coletado anteriormente.

Concentração de IgG no colostro, IgG sérica e mortalidade de bezerros

A concentração média de IgG observada no colostro foi alta (85,1 mg/mL), mas do total avaliado, 21% das amostras apresentaram concentração menor que o limiar recomendado de 50 mg/mL. As concentrações médias de IgG sérico foi alta tanto na primeira (30,9 mg/mL) quanto na segunda visita (27,1 mg/dL), o que pode ser atribuído ao alto conteúdo médio de IgG no colostro, associado a boas práticas de colostragem. A porcentagem de amostras de soro abaixo do limiar recomendado foi menor (8%) do que a de amostras de colostro (21%).

O tamanho do rebanho (P <0,01), a raça (P <0,05) e a idade na coleta de sangue (P <0,01) foram associados à concentração sérica de IgG. Observou-se uma relação inversa entre a concentração sérica de IgG com o tamanho do rebanho (Figura 1) e a idade na coleta de sangue (Figura 2). Embora tenha-se identificado uma associação negativa entre a concentração sérica de IgG e o tamanho do rebanho, foram obtidas taxas biologicamente semelhantes de imunidade passiva.

Houve diferença estatística entre as concentrações séricas médias de IgG de bezerros de corte e leite, mas ambos os grupos tiveram valores médios duas vezes acima do limiar recomendado. A raça e a IgG sérica também foram estatisticamente diferentes com base no sexo. Fêmeas leiteiras, que seriam consideradas com o maior valor monetário, tiveram a maior concentração sérica de IgG, enquanto bezerras de corte, que teriam um valor monetário mais baixo, tiveram a menor. Ambos os grupos apresentaram uma concentração sérica de IgG mais que o dobro do limiar para imunidade passiva. No entanto, o valor monetário percebido pode ter influenciado no manejo recebido. Em termos de gerenciamento de bezerros leiteiros, estudos anteriores demonstraram que o tratamento preferencial pode ser fornecido a bezerras fêmeas. A diferença nas taxas de mortalidade entre bezerros machos e fêmeas observadas nacionalmente na Irlanda sugere que as práticas de manejo podem diferir de acordo com o sexo dos bezerros. Embora as práticas de manejo possam variar com base no sexo e na raça, a concentração sérica de IgG não indicou diferença no sucesso do TIP com base no sexo.

A associação negativa identificada no presente estudo pode ser atribuída ao uso de medidas de economia de trabalho em rebanhos maiores. Uma dessas medidas é o uso de “pool” de colostro, praticada por mais de 30% dos participantes no presente estudo (Tabela 5). A associação de colostro de qualidade desconhecida pode reduzir a concentração geral de IgG e aumentar o risco de exposição da bezerra a patógenos transmitidos por colostro.

Figura 1. Médias para a concentração sérica de IgG em bezerros de 1 a 6 dias de idade, determinados pelo teste de imunodifusão radial, pelo tamanho do rebanho (número de vacas). Barras com letras diferentes (a, b) uma diferença significativa (P <0,05) nas médias.

A associação identificada neste estudo entre a concentração sérica de IgG e a idade na coleta de sangue foi conforme o esperado. Após a alimentação do colostro, a concentração sérica de IgG atinge o pico em aproximadamente 24 horas e diminui gradualmente a partir de então. O conhecimento da taxa na qual ocorre a depleção de anticorpos é importante tanto para os proprietários quanto para os veterinários, pois pode permitir que sejam feitos cálculos retrospectivos para determinar se a TIP adequada foi alcançada.

Figura 2. Médias para a concentração sérica de IgG em bezerros de 1 a 6 dias de idade, determinados pelo teste de imunodifusão radial, localizados em 47 fazendas comerciais irlandesas. Barras com letras diferentes (a, b) indicam uma diferença significativa (P <0,05) nas médias.

Nenhuma associação foi detectada no presente estudo entre a concentração sérica de IgG e a mortalidade de bezerros. A falha em encontrar uma diferença na mortalidade com base no limiar de IgG no soro da bezerra de 10 mg/mL indica que esse limite precisa ser revisado. O limiar de 10 mg/mL de IgG é amplamente aceito como ponto de corte da imunidade passiva, conforme aplicado em muitos estudos. Alguns estudos, no entanto, sugerem que esse limite precisa ser ajustado para diferentes países ou regiões e para diferentes tipos de sistemas de produção. A Tabela 1 mostra as taxas de mortalidade acumulada nos diferentes pontos de avaliação.

Tabela 1. Taxa média de mortalidade, do nascimento até os 6 momentos no primeiro ano de vida, de todos os bezerros nascidos em 2017 em 47 fazendas leiteiras irlandesas comerciais

Práticas de higiene

A higiene tendeu a diminuir da visita 1 para a visita 2 (P = 0,07), mas nenhuma associação foi identificada entre o escore de higiene e o tamanho do rebanho (P = 0,19). Uma melhor higiene (menor escore), tendeu a estar associada a maior concentração de IgG no soro das bezerras (P = 0,07). Não foi detectada associação (P = 0,26) entre o escore de higiene e a taxa de mortalidade em 28 dias.

Tabela 2. Escore médio de higiene para equipamentos de alimentação de bezerros, determinado usando kits de teste de resíduos de proteína e pontuado em uma escala de 1 a 4 pontos1

As respostas para o método e a frequência das práticas de higiene aplicadas durante cada visita estão descritas na Tabela 3. Também não foi detectada associação entre a concentração sérica de IgG e os escores ou práticas de higiene. Más práticas de higiene para utensílios de alimentação podem resultar em contaminação bacteriana do colostro, e numerosos estudos relataram uma associação negativa entre o conteúdo bacteriano do colostro e a TIP.

Tabela 3. Respostas dos funcionários em 47 fazendas comerciais irlandesas na frequência e método preferidos para práticas específicas de higiene relacionadas ao bezerro durante a primeira (visita 1) e a última (visita 2), 6 semanas da estação do parto

Gerenciamento de bezerros e fornecimento de colostro

As respostas em relação às práticas de manejo relacionadas à coleta, armazenamento, fonte e avaliação da qualidade do colostro são relatadas na Tabela 4. Não foi identificada associação entre práticas de manejo do colostro e concentração de IgG no soro de bezerros ou taxa de mortalidade em 28 dias.

Tabela 4. Respostas dos funcionários em 47 fazendas comerciais irlandesas sobre práticas de gerenciamento relacionadas à coleta, armazenamento, fonte e avaliação da qualidade do colostro

As respostas sobre alimentação de colostro e manejo de bezerros durante as primeiras e últimas 6 semanas da estação do parto, para bezerros machos e fêmeas, são relatadas na Tabela 5. Da mesma forma, as respostas de alimentação e colostro de colostro e manejo de bezerros não foram associadas à concentração de IgG no soro ou na taxa de mortalidade.

Tabela 5. Respostas dos funcionários em 47 fazendas comerciais irlandesas sobre alimentação com colostro e práticas de manejo de bezerros, na primeira (visita 1) e na última (visita 2) 6 semanas da estação do parto e para fêmeas e machos

        

A falha em detectar associações entre as práticas e manejo do recém-nascido e a limpeza com a mortalidade pode ser devida a dados de gerenciamento referentes a práticas gerais e não ao gerenciamento específico recebido por bezerros individuais dos quais o soro foi coletado. Ainda assim, pode-se notar que existem muitas falhas na criação de bezerras que sabidamente podem resultar em maiores taxas de mortalidade.

Embora ajustes nas práticas de manejo e alimentação tenham sido identificados à medida que a estação do parto progrediu, isso não afetou o nível de imunidade passiva alcançada pelos animais. O fato da maior parte das fazendas não avaliar a qualidade do colostro pode contribuir para a ocorrência de FTIP e consequentemente aumentar as taxas de mortalidade. O fornecimento do “pool” de colostro e a possibilidade de os bezerros mamarem diretamente da vaca, que são comumente praticados nestas fazendas leiteiras, podem ter implicações negativas para a saúde dos bezerros, mas também para a transferência de doenças nos rebanhos.

Os resultados mostram que o manejo do colostro nessas fazendas é de alto padrão, com uma taxa de sucesso > 90% para atingir TIP adequada. A concentração sérica de IgG foi maior em bezerros nascidos em rebanhos menores (<110 vacas), mas a concentração média de IgG sérica em todos os tamanhos de rebanho excedeu o limite recomendado (≥10 mg / mL). A qualidade do colostro em rebanhos leiteiros irlandeses geralmente é boa, no entanto, existe uma variação considerável na concentração de IgG no colostro. Implicações negativas associadas a essa variação podem ser superadas com a avaliação da qualidade do colostro, prática atualmente conduzida em menos de 15% das fazendas leiteiras irlandesas. As práticas de higiene relacionadas aos utensílios de alimentação de bezerros podem ser aprimoradas, principalmente durante as 6 semanas finais da estação do parto. Isso poderia reduzir o risco de contaminação bacteriana do colostro e aumentar ainda mais a taxa de imunidade passiva alcançada em fazendas comerciais de leite.

Comentários

Embora o trabalho tenha sido conduzido com produtores da Irlanda, alguns resultados são semelhantes ao que temos no Brasil. No entanto, a qualidade do colostro relatada no trabalho é bastante superior ao que temos visto, o que de certo modo acaba anulando alguns erros de manejo de colostragem. A caracterização das propriedades mostra uma série de práticas consideradas como inadequadas, a exemplo do bezerro mamar na vaca, de não se medir a qualidade do colostro, não saber o volume consumido e conservá-lo em temperatura ambiente. Ainda assim, na média houve adequada transferência de imunidade passiva. Com certeza estes resultados não seriam os mesmos caso o colostro fosse de menor qualidade. Além do manejo de colostragem, também existe necessidade de adequação na frequência e no método de limpeza de utensílios e instalações. Mesmo com adequada transferência de imunidade passiva, a taxa de mortalidade acumulada aos 28 dias já era de quase 6%, muito acima do aceitável. Não importa onde o produtor esteja, aqui ou na Irlanda, ainda há muito o que melhorar na criação de bezerras leiteiras. Temos muito conhecimento gerado e acumulado, mas muitas vezes ainda não adotado pelo produtor. Daí a importância de treinamentos, presenciais ou a distância, para o aumento na eficiência de criação de bezerras. Uma coisa é certa: temos muito trabalho pela frente!     

Referência

Barry, J.; Bokkers, E.A.M.; Berry, D.P.; Boer, I. J. M.; McClure, J.; Kennedy, E.  Associations between colostrum management, passive immunity, calf-related hygiene practices, and rates of mortality in preweaning dairy calves. Journal of Dairy Science 2019. In press.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

GERCINO FERREIRA VIRGINIO JUNIOR

Doutorando na Esalq

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