Galactosemia: falha na rotulagem pode gerar risco real

Produtos lácteos sem lactose podem conter galactose em excesso e representam perigo oculto a pessoas com galactosemia. Rótulos devem informar.

Publicado em: - 2 minutos de leitura

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O mercado de produtos lácteos com redução ou isenção de lactose deve crescer 7% ao ano até 2026, gerando US$ 14 bilhões. Contudo, a preocupação com a galactose, resultante da hidrólise da lactose, aumenta, pois é perigosa para pessoas com galactosemia, uma condição hereditária que pode causar sérios problemas de saúde. Embora rótulos no Brasil exijam a discriminação da galactose, estudos sobre seu teor são inexistentes. Leites UHT isentos de lactose podem conter níveis de galactose que superam em muito o limite seguro para esses indivíduos. É necessário monitorar e informar claramente os consumidores sobre o teor de galactose.

Produtos lácteos com redução ou isenção de lactose tem apresentado consumo crescente no mundo, sendo reportado que até 2026 é esperado uma expansão do mercado em 7% ao ano ocasionando um faturamento anual de US$ 14 bilhões.

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Em virtude disso, cresce a preocupação com os níveis de galactose — carboidrato resultante da hidrólise da lactose pela enzima lactase, etapa comum no processamento industrial de produtos lácteos sem lactose —, que pode representar riscos à saúde de indivíduos com galactosemia.

 

O que é galactosemia?

A galactosemia também é considerada uma intolerância. Ela  é causada pela deficiência de qualquer enzima da via de degradação da galactose no organismo e é caracterizada pelo aumento da concentração plasmática de intermediários do metabolismo da galactose. A galactosemia pode ser dividida em quatro tipos, sendo o tipo I uma deficiência da presença da enzima galactose-1-fosfato-uridiltransferase, o tipo mais comum dentre os casos diagnosticados,

Para um recém-nascido a galactosemia pode estar ligada a riscos de morte além de surgimento de problemas no desenvolvimento da fala e motor e ainda o desenvolvimento de um problema ocular, a catarata. Ela é hereditária e os riscos à saúde são maiores e mais graves quando comparados aos da intolerância a lactose, podendo levar o indivíduo com a óbito.

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A rotulagem de produtos alimentícios vigentes no Brasil determina que todos os açúcares presentes nos alimentos devem estar discriminados e com nome e quantidade presente. para produtos lácteos isentos/reduzidos de lactose isso significa que todos os rótulos do produto devem informar o teor de galactose presente no produto e sua porção. Contudo trabalhos mencionando o teor de galactose em rótulos de produtos lácteos isentos/reduzidos de lactose comercializados no mercado brasileiro são inexistentes.

 

Risco para os  indivíduos com galactosemia

A galactose, ao contrário da lactose não tem limites de segurança para consumo estipulados por leis e normas expedidas pelas agências de saúde e o controle de sua ingestão fica ainda mais dependente da informação preconizada na rotulagem do produto lácteo o e conhecimento do consumidor acerca dessa patologia. É reportado, entretanto, que um indivíduo sem galactosemia deveria consumir no máximo 125 mg de galactose por dia, enquanto indivíduos que possuem a doença não deveriam ter um consumo maior do que 40 mg ao dia de galactose.

Recente estudo feito em avaliação visual dos rótulos do leite UHT reduzidos/isentos de lactose mostrou uma variação da concentração de galactose entre as marcas apresenta uma pequena variação, com 4,3 g a 5,0 g por porção (200mL) e 21,5 a 25,0 g e cada 1000 mL de leite UHT, com valor médio de 4,61 e 23,02 g de galactose respectivamente.

Se consideramos 45 mg ao dia de galactose, estipulado para o consumo de um indivíduo que possui galactosemia, uma porção de leite UHT zero lactose, ou seja (200 mL) já ultrapassaria esse valor, sendo quase cem vezes mais do que a pessoa poderia consumir. Nesse contexto, os leites UHT com redução/isenção de lactose apresentam de risco elevado para pessoas com galactosemia, pois possui quantidade elevada de galactose o que poderia levar o indivíduo a complicações severas de saúde e até mesmo ao óbito.

Dessa maneira torna-se necessário monitoramento do teor de galactose em produtos com redução/isenção de lactose e a necessidade de informações em linguagem de fácil entendimento para os consumidores e de alguma forma um alerta para as agências de saúde.

Autores:

Ana Carolina R. Silva1,

Marcos Raphael Freitas1,

Adriano G. Cruz1,

Renata S.L. Raices1

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), Departamento de Alimentos

Referências bibliográficas

Baldellou et al. (2000). Protocolo para el diagnóstico y el tratamiento de los errores congénitos del metabolismo de la galactosa. Anales Españoles de Pediatría, 53, p. 1-9. 

Data Bridge Market Research. (2024). Global Galactosemia Treatment Market – Industry Trends and Forecast to 2030. Disponível em: 19/05/2025.

Dairy Foods. (2024), Lactose-free dairy global market nears $7B. Disponível em: https://www.dairyfoods.com/articles/96322-lactose-free-dairy-global-market-nears-7b. Acesso em: 19/05/2025.

Silva, A.C.R. et al. (2024a). Produtos Lácteos com Baixo Teor de Lactose: Tecnologia e Mercado Consumidor. Revista Técnica da Agroindústria, 1, artigo 23.

Silva, A.C.R. et al. (2024b). Galactosemia : qual a relevância do leite UHT reduzido/isento de lactose Industria de Lacticínios, v.2, p. 51 - 55, 19 abr. 2024.

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Material escrito por:

Adriano Gomes da Cruz

Adriano Gomes da Cruz

Engenheiro Químico, Doutor em Tecnologia de Alimentos (UNICAMP), Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) - Departamento de Alimentos.

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