A relação entre música e bem-estar animal ganhou um capítulo curioso no Sul de Minas Gerais. Em Alagoa, município conhecido pela produção de queijos artesanais, o produtor Osvaldo Filho passou a tocar tuba para suas vacas em momentos pontuais da rotina na propriedade.
Reconhecido pelo trabalho pioneiro com vendas digitais de queijos artesanais da região, Osvaldo, carinhosamente chamado de Osvaldinho, também é músico. “Eu aprendi a tocar na Congregação Cristã no Brasil. Comecei com o trombone, aos 12 anos, e depois aprendi a tocar a tuba”, explica.
A prática surgiu de forma espontânea, em junho de 2025, quando recebeu amigos em seu sítio, localizado a cerca de 1 km de Alagoa. “Um dia eu estava recebendo amigos no meu sítio e estava com a minha tuba no porta-malas do carro. Resolvi tocá-la para as vacas, e vi que elas gostaram, pois se aproximaram de mim”, conta Osvaldinho.
Embora não faça parte de uma rotina fixa, o produtor afirma que tenta repetir a experiência ao menos uma vez por mês. Para ele, a iniciativa reflete o cuidado com os animais e o ambiente onde são criados. “O diferencial do nosso queijo é o terroir, a união dos fatores ambientais com o saber fazer”, afirma, destacando o amplo espaço de pastagem, a presença de araucárias que fornecem sombra e o rio que atravessa a propriedade.
O vínculo com os animais também se expressa de forma simbólica: todas as vacas têm nome próprio, como Pequena, Malu, Pipoca, Sereia, Brisa, Batalha, Figura, Pintura, Nobreza, Estrela, Rebeca, Limeira, Brunela e Serena.
Crédito: Queijo D'Alagoa/Divulgação
Mas, afinal, como a música soa para os bichos?
A iniciativa desperta curiosidade sobre como os sons são percebidos pelos animais. Para entender melhor essa relação, o musicoterapeuta Luís Leão explica que a forma como os bovinos escutam e reagem à música é diferente da experiência humana. “Nós, seres humanos, somos os únicos animais que possuímos córtex cerebral com desenvolvimento para racionalidade, então nós nos diferenciamos dos outros animais pela capacidade de racionalizar as coisas”, afirma.
Segundo o especialista, embora os bovinos não racionalizem a música, eles podem reagir fisiologicamente aos sons. Quando um animal escuta determinadas frequências, há produção de neurotransmissores, mas esse processo ocorre de maneira instintiva. “Só que isso não é racionalizado. Essa produção vai acontecer de acordo com a frequência que o animal escuta”, explica.
Luís destaca que, na natureza, a audição é usada como defesa pelos animais. A audição das vacas é especialmente sensível a sons graves, associados à presença de predadores, e a determinados agudos ligados à movimentação. Por isso, mais do que o estilo musical, o fator determinante é a frequência sonora. “O estudo da musicoterapia ainda é muito primário no desenvolvimento animal, mas o que eu posso te dizer é que ela é muito mais voltada para frequência, para a vibroacústica, do que efetivamente para música”, ressalta, destacando que os animais não diferenciam gêneros musicais.
O especialista também alerta que sons em determinadas alturas podem ser prejudiciais se interferirem na capacidade de percepção do ambiente, como a identificação de possíveis ameaças. Em relação a estudos que associam música à redução de estresse ou à estimulação da produção de leite, ele pondera que os dados ainda exigem cautela. “Ainda não são temas estudados como deveriam, a gente ainda não tem as amostragens corretas”, afirma.
Por fim, o especialista reforça que a musicoterapia tem foco principal em humanos. “Em animais, existem alguns estudos paralelos ainda com pouco embasamento, cientificamente falando”, conclui.
As informações são do Estado de Minas.