Uso do resíduo industrial de tomate como método de reidratação do milho

Normalmente, a água é usada para reidratação do milho moído. Contudo, um novo método para reidratação do milho e, posteriormente, a ensilagem tem sido avaliado.

Publicado em: - 6 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 2
Ícone para curtir artigo 15

O milho grão processado é um dos alimentos mais utilizados no Brasil como fonte de energia para os animais ruminantes. Os nutrientes que mais contribuem como fonte energética nesse alimento são os carboidratos não fibrosos, especialmente o amido. O amido são homopolímeros de glicose que está presente no endosperma que corresponde a aproximadamente 85% do peso seco do grão.

No Brasil, de acordo com Correa et al (2002) e Jacovaci et al. (2021), os híbridos de milho cultivados são predominantemente do tipo duro ou flint, com uma proporção maior de endosperma vítreo em comparação aos híbridos dentados produzidos nos EUA e outros países com clima temperado. Essa maior proporção de endosperma vítreo verificado no milho cultivado no Brasil resulta em menor digestibilidade do amido que é a principal fonte de energia no milho e representa mais de 60% da composição do grão.

Uma das estratégias utilizada em algumas fazendas mundo afora é a moagem (1-2 mm), reidratação e ensilagem do milho. De acordo Roseira et al. (2023), a silagem de milho reidratado é o produto resultante da fermentação anaeróbia de grãos de maduros, moídos, com umidade reconstituída, na qual os microrganismos consomem carboidratos solúveis em água e produzem ácidos orgânicos de cadeias curtas. Ainda, de acordo com os mesmos autores, a reidratação e ensilagem de cereais como o milho e sorgo, por exemplo, tem a vantagem de evitar perdas desses insumos por excesso de umidade, presença de roedores, pássaros e fungos produtores de micotoxinas, principalmente em fazendas que não se dispõem de estruturas de armazenamento adequado. Também permite compras estratégicas dos cereais em tempos de baixos valor aquisitivo.

A menor digestibilidade do amido de milho com alto endosperma vítreo (flint) está relacionado com a matriz proteica (prolaminas) que envolve os grânulos de amido, tornando menos acessível a ação de enzimas (Correa et al., 2002; Jacovaci et al., 2021). Dessa forma, com a reidratação e ensilagem do milho moído, durante o processo de fermentação, as proteases microbianas, bem como ácidos orgânicos produzidos por bactérias lácticas, promovem a solubilização da matriz proteica que envolve os grânulos de amido, aumentando a digestibilidade por microrganismos ruminais.

Normalmente, a água é usada para reidratação do milho moído. Contudo, outras substâncias como soro de leite sem cloreto de sódio e palma forrageira, por exemplo, foram avaliadas e podem ser usada para reconstituir o teor de umidade no milho grão. Um novo método para reidratação do milho e, posteriormente, a ensilagem tem sido avaliada usando o resíduo industrial de tomate (RIT), um subproduto das agroindústrias.

O tomate (Solanum lycopersicum) é uma das commodities agrícolas mais produzidas e consumidas no mundo, respondendo por cerca de 150 milhões de toneladas por ano. No Brasil, cerca de 3,8 milhões de toneladas dessa fruta são colhidas para consumo humano. Uma fração significativa do tomate é consumida como produtos processados, o que gera uma grande quantidade de subprodutos, como resíduos ou frutos descartados, bagaço, cascas e sementes, cujo manejo é um desafio. Para cada tonelada de tomate processado são gerados até 420 kg de subprodutos (Figura 1).

Figura 1. Resíduo industrial de tomate in natura.

Resíduo industrial de tomate in natura.

Fonte: Autor

 

Estes subprodutos contêm múltiplos nutrientes como os compostos nitrogenados, fibra não forrageira e compostos bioativos (carotenóides, vitaminas E e C), minerais e não contém fatores antinutricionais, portanto, apresentam potencial para uso na alimentação de ruminantes.

Continua depois da publicidade

Conforme a Tabela 1, o RIT gerado do nas indústrias de processamento apresentam como destaque na composição química 24,46% de matéria seca, 19,49% de proteína bruta e digestibilidade potencial da MS acima de 60%. Ainda, destaca-se o elevado teor de extrato etéreo e fibra em detergente neutro no RIT. Assim, é possível afirmar que o RIT tem grande potencial para uso na alimentação de ruminantes. Ainda, o elevado teor de umidade associado a acidez pode contribuir na reidratação do milho grão para produção de silagem.

Tabela 1. Composição química dos ingredientes utilizados na produção de silagem.

Composição química dos ingredientes utilizados na produção de silagem

 

Nas fazendas de bovinos, principalmente no Norte do Estado de Minas Gerais, o RIT pode ser adquirido nas indústrias de processamento do tomate por um acessível valor aquisitivo. Como a época de disponibilidade do RIT nessa região coincide com o período seco do ano, grandes quantidades desses subprodutos são adquiridas para compor a alimentação dos animais, principalmente, ruminantes.

Contudo, o alto teor de umidade no RIT tem sido apontado por fazendeiros como fator que inviabiliza o manejo de armazenagem e utilização para os animais, o requer a necessidade de criar alternativa de conservação desse material. Na Tabela 2 pode ser verificada as características fermentativas, químico-bromatológica e digestibilidade das silagens de milho considerando dois métodos de reidratação. O milho foi reidratado pelos dois métodos visando obter silagens com 35% de umidade. Os silos foram abertos após 72 dias de ensilagem.

Tabela 2. Características fermentativas, químico-bromatológicas e digestibilidade de silagens de milho reidratado por diferentes métodos (Águas vs Resíduo industrial de tomate)

 Características fermentativas, químico-bromatológicas e digestibilidade de silagens de milho reidratado por diferentes métodos (Águas vs Resíduo industrial de tomate)

Em geral, para os valores de pH, apesar da diferença observada entre os métodos, estes estão dentro dos valores desejáveis que varia entre 3,8 a 4,2. A acidez do RIT no momento da ensilagem poderia ter contribuído para menor valor de pH da silagem, contudo, o alto teor de proteína bruta (19,49%) do subproduto pode ter contribuído na resistência da massa ensilada em reduzir o pH. Quanto o teor de nitrogênio amoniacal, verificou-se maior valor silagem milho reidratado com água. Esse resultado pode ser explicado pela água livre utilizada nesse método em comparação ao uso do RIT. Não houve diferença entre as perdas totais de MS, o que é um achado de destaque.

Outro destaque verificado pelo autor está relacionado ao teor de proteína bruta que aumentou 34,06% quando se utilizou o RIT como método de reidratação. Os resultados são explicados pela composição do RIT que é rico em proteínas e fração fibrosa. A fração fibrosa por outro lado contribuiu para menor digestibilidade da matéria seca e proteína bruta.

Continua depois da publicidade

Numericamente, os valores médios das variáveis apresentadas referente a cada silagem variaram pouco, o que ressalta a possibilidade de uso do RIT como método de reidratação do milho (Figura 2). Essa estratégia irá contribuir no armazenamento do RIT nas fazendas, bem como na melhoria da digestibilidade dos nutrientes do milho, especialmente o amido.

Figura 2. Milho reidratado com resíduo industrial de tomate no momento da ensilagem.

Milho reidratado com resíduo industrial de tomate no momento da ensilagem.

Fonte: Autor.

 

 

Gostou do conteúdo? Deixe seu like e seu comentário, isso nos ajuda a saber que conteúdos são mais interessantes para você.

 

 

 

Agradecimentos

O autor agradece a Universidade Estadual de Montes Claros e ao CNPq pelas bolsas concedidas. Agradece também a FAPEMIG pelo financiamento da pesquisa e pelas bolsas de iniciação científica concedidas.

 

Referências Consultadas

Correa CES, Shaver RD, Pereira MN, Lauer JG, Kohn K. 2002. Relationship between corn vitreousness and ruminal in situ starch degradability. J. Dairy Sci. 2002, 85(11): 3008–3012. doi. 10.3168/jds.S0022-0302(02)74386-5

Cruz FNF, Monção FP, Rocha Júnior VR, Alencar AMS, Rigueira JPS, Silva AF, Miorin RL, Soares ACM, Carvalho CCS, Albuquerque CJB. 2021. Fermentative losses and chemical composition and in vitro digestibility of corn grain silage rehydrated with water or acid whey combined with bacterial-enzymatic inoculant. Semina: Ciênc. Agrár. 42(6):3497-3514. doi. 10.5433/1679-0359.2021v42n6p3497

Da Silva, NC, Nascimento, CF, Nascimento, FA, De Resende, FD, Daniel, JLP, & Siqueira, GR (2018). Fermentação e estabilidade aeróbica de silagem de grãos de milho reidratados tratados com diferentes doses de Lactobacillus buchneri ou uma combinação de Lactobacillus plantarum e Pediococcus acidilactici. Journal of Dairy Science, 101 (5), 4158-4167.

Roseira, JPS, Pereira, OG, da Silveira, TC, da Silva, VP, Alves, WS, Agarussi, MCN, & Ribeiro, KG (2023). Efeitos da adição exógena de protease na fermentação e no valor nutritivo de silagens de grãos de milho e sorgo reidratados. Scientific Reports, 13 (1), 7302.

Soares, R.L., et al., (2024). Corna grain rehydration methods: Water vs. cactus pear in the diet for fedlot lambs. Small Ruminant Research 230. https://doi.org/10.1016/j.smallrumres.2023.107151

Jacovaci FA, Salvo PAR, Jobim CC, Daniel JLP, 2021. Effect of ensiling on the feeding value of flint corn grain for feedlot beef cattle: A meta-analysis. Rev Bras Zoot. 50:e20200111. doi. 10.37496/rbz5020200111

Junges D, Morais G, Spoto MHF, Santos PS, Adesogan AT, Nussio LG, Daniel JLP. 2017. Short communication: Influence of various proteolytic sources during fermentation of reconstituted corn grain silages. J Dairy Sci. 100(11):9048-9051. doi.10.3168/jds.2017-12943

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 2
Ícone para curtir artigo 15

Material escrito por:

Flavio Pinto Moncão

Flavio Pinto Moncão

Zootecnista, Pesquisador Pós-Doutorado Júnior do CNPq e Professor na Universidade Estadual de Montes Claro. Ênfase em pesquisas de alimentação e nutrição.

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

André Luiz Barbosa da Silva
ANDRÉ LUIZ BARBOSA DA SILVA

MACAÉ - RIO DE JANEIRO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 02/10/2024

Olá, boa noite.
Extremamente interessante esse artigo, principalmente para quem produz leite próximo a unidades processadoras de tomate.
Um ponto do artigo me chamou a atenção e já havia pensado nisso, que é a utilização do soro do leite na hidratação do milho, para silagem. Tem algum artigo aqui no Milkpoint ou fora, que trate da utilização desse subproduto na hidratação do milho?
Flavio Pinto Moncão
FLAVIO PINTO MONCÃO

JANAÚBA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 03/10/2024

Olá André.

Muito Obrigado pelas considerações e pela pergunta. Leia esse artigo André que tem como tema principal o uso de soro de leite. É uma artigo aqui da nossa equipe Unimontes, campus Janaúba. Qualquer dúvida estou à disposição. segue o link https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/semagrarias/article/view/43381/0

Abraços!
Qual a sua dúvida hoje?