Pecuária sustentável: sistema silvipastoril para vacas leiteiras

Descubra como integrar animais, forrageiras e árvores pode transformar a pecuária com mais conforto térmico e ganhos econômicos.

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O sistema silvipastoril (SSP) integra o manejo de animais, forrageiras e árvores, promovendo maior complexidade e sustentabilidade na produção agrícola. Embora exija gestão eficiente, o SSP oferece proteção contra extremos climáticos, renda extra com produtos florestais e serviços ecossistêmicos. As vacas têm liberdade para buscar sombra, melhorando seu bem-estar. Alem disso o SSP também proporciona microclimas mais amenos, beneficiando a saúde dos animais e a qualidade da madeira.

O sistema silvipastoril (SSP) é uma modalidade de agrofloresta que integra, em uma mesma unidade de área, o manejo simultâneo de animais, forrageiras e árvores. Essa combinação confere maior complexidade ao sistema de produção agrícola, exigindo uma gestão eficiente de seus componentes, um desafio recorrente para produtores, técnicos e extensionistas rurais.

O estabelecimento de árvores no sistema representa um investimento de médio a longo prazo. No entanto, o SSP tem se mostrado uma alternativa promissora para a proteção do rebanho (Deniz et al, 2019) e das forrageiras (Schmitt Filho et al., 2023) rente aos extremos climáticos.

A multifuncionalidade das áreas de pastagem leva a uma nova forma de pensar o planejamento e a implementação dos sistemas produtivos, considerando diferentes escalas de espaço e tempo. Com o SSP, áreas antes destinadas exclusivamente à produção animal passam a gerar uma variedade de produtos. Assim, o produtor pode obter renda extra com a venda de madeira (lenha, escoras, postes, lascas, madeira para serraria, entre outros) e/ou produtos florestais não madeireiros, como frutos, resinas e mel. Além disso, proporciona serviços ecossistêmicos, contribui para a valorização da paisagem agrícola (Joseph et al., 2019).

Diante de seus benefícios para o ambiente e para os animais, o SSP configura-se como uma prática sustentável para a pecuária baseada em pastagens, ou seja, passível de ser mantida ao longo do tempo. Essa sustentabilidade está alinhada à crescente demanda dos consumidores por sistemas de produção a pasto que proporcione conforto térmico aos animais. Adicionalmente, aspectos ecológicos e econômicos reforçam o potencial do SSP como alternativa sustentável para a produção pecuária.

 

Silvipastoril: sombra que protege no calor... e no frio também!

Engana-se quem pensa que o sistema silvipastoril (SSP) é útil apenas no verão. Criar animais em SSP, é proporcionar a oportunidade do animal utilizar diferentes áreas (sombra ou sol) dentro do sistema, dependendo da sua motivação. Por exemplo, em clima subtropical durante o inverno, as vacas preferem se deitar ao sol — uma estratégia para evitar a perda de calor, já que o solo sombreado tende a ser mais frio (Deniz et al., 2020; De-Sousa et al., 2021). Além disso, as estações frias podem apresentar extremos térmicos: frio intenso durante a madrugada e ao amanhecer e calor no período da tarde. Nesse cenário, o SSP se destaca por oferecer opções, tanto áreas ensolaradas quanto sombreadas, permitindo que os animais se autorregulem conforme a necessidade.

Quando você vai à praia, não gosta de levar um guarda-sol? Quando está chovendo, você não gosta de se proteger com o guarda-chuva? Então, por que as vacas também não deveriam ter uma área sombreada para se proteger?

Oferecer sombra natural aos animais, como no sistema silvipastoril (SSP), pode ser um dos segredos para o sucesso da pecuária a pasto. Vacas leiteiras demonstram alta motivação para acessar áreas sombreadas (Cardoso et al., 2021), e o público em geral também prefere sistemas de produção a pasto que ofereçam sombra como forma de aliviar o calor (Cardoso et al., 2018).

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Além disso, no SSP, as vacas têm a liberdade de escolher entre diferentes estratégias para lidar com o ambiente térmico: permanecer na sombra nas horas mais quentes do dia e buscar áreas ensolaradas e o bebedouro quando estiverem motivadas para isso. Ter opções faz toda a diferença para o bem-estar dos animais e para a produtividade também!

Quando o ambiente ultrapassa o limiar de conforto térmico, vacas leiteiras sem acesso a sombra frequentam mais vezes (~33%) o bebedouro do que vacas no sistema silvipastoril (De-Sousa et al., 2021).

Desenho de personagem de desenho animado
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Será que todos os animais conseguem acessar a sombra?

Um aspecto que muitas vezes passa despercebido no planejamento dos sistemas silvipastoris (SSP) é a hierarquia social entre os bovinos. A organização social do grupo influencia diretamente o uso dos recursos disponíveis, como alimento e, claro, sombra.

Características como peso e idade ajudam a determinar a posição social de cada animal dentro do rebanho (Deniz et al., 2021a). Com isso, em um SSP, as vacas dominantes têm maior probabilidade de deitar-se em áreas sombreadas (40%) e menor probabilidade de beber água (50%) quando comparadas às vacas intermediárias e subordinadas (Deniz et al., 2021b).

Por outro lado, as vacas intermediárias e subordinadas compensam esse menor acesso de outras formas. Em todas as estações do ano, elas tendem a beber mais água do que as dominantes. E, durante os períodos mais quentes, mesmo sendo mais motivadas a buscar sombra, acabam permanecendo mais tempo em pé — provavelmente por estarem em alerta ou em constante deslocamento dentro do piquete (Deniz et al., 2021b).

Diagrama
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O mais interessante é que esses efeitos da hierarquia social ocorrem mesmo quando há sombra suficiente para todas as vacas ao mesmo tempo. Isso acontece porque o gado, como um animal presa, tem o instinto natural de se manter em grupo como estratégia de proteção contra predadores. Por isso, mesmo em ambientes controlados, como os sistemas de produção, é essencial garantir que todos os recursos (sombra, água, alimento) estejam disponíveis de forma adequada e bem distribuída. Dessa maneira, é possível reduzir disputas e promover o bem-estar de todos os animais, independentemente de sua posição social no rebanho.

 

Bem-estar animal

Além de oferecer sombra e conforto térmico, as árvores também servem como uma forma de enriquecimento ambiental para os animais. Os bovinos costumam usar os troncos para coçar em regiões de difícil acesso, como pescoço e cabeça; locais onde não conseguem alcançar com a língua, os chifres ou as patas (Figura 1). Mas, quando o objetivo é a produção de madeira, esse comportamento pode ser um problema. O contato constante com os animais pode danificar as árvores, favorecendo doenças, reduzindo o valor da madeira ou até causando a morte da planta (Nicodemo; Porfírio-da-Silva, 2019).

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Uma forma simples de evitar esses danos é oferecer alternativas aos animais. Estudantes da Universidade Federal de Uberlândia testaram um coçador de baixo custo, feito com corda de sisal enrolada em um palanque de madeira fixado no chão. O custo desse modelo varia entre R$ 50 e R$ 100 (Faria, 2022). Ou seja, com um baixo investimento o produtor pode contribuir para que os animais direcionem esse comportamento (que possuem alta motivação por realizar) para uma estrutura alternativa, de modo a não danificar as árvores.

Outro ponto positivo do sistema silvipastoril é que as vacas tendem a formar relações sociais mais estáveis e demonstram com mais frequência comportamentos sociopositivos (Figuras 1 e 2), como as tradicionais lambidas (Améndola et al., 2016).

Figura 3

 

Sistema Silvipastoril e o microclima

Que sombra faz bem, todo mundo já sabe! Mas o benefício das árvores vai além da sombra projetada. Mesmo fora da faixa de sombra direta, as condições microclimáticas próximas às árvores costumam ser mais amenas do que em áreas abertas, sem o elemento arbórea (Deniz et al., 2019). 

Segundo Deniz et al. (2021), as árvores reduziram a carga térmica radiante em aproximadamente 34% nas áreas sombreadas, em comparação com regiões totalmente expostas ao sol. A tabela a seguir mostra alguns valores de variáveis microclimáticas registrados em uma pastagem sem árvores e em um sistema silvipastoril, no qual as árvores foram plantadas ao longo da cerca que divide os piquetes (Deniz et al., 2021b). 

Texto
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Gostou do conteúdo? Na próxima publicação, vamos explorar os diferentes arranjos arbóreos no sistema silvipastoril, destacando suas vantagens, desafios e, principalmente, as percepções de quem está na linha de frente da transformação da pecuária leiteira: os técnicos que atuam no campo. Não perca!

Todo o conteúdo apresentado está disponível na cartilha online

Referências bibliográficas

AMÉNDOLA, L. et al. Social behaviour of cattle in tropical silvopastoral and monoculture systems. Animal, v. 10, n. 5, p. 863–867, 2016. 

CARDOSO, C. S. et al. Dairy Heifer Motivation for Access to a Shaded Area. Animals, v. 11, 9, 2021. 

CARDOSO, C. S. et al. Hot and bothered: Public attitudes towards heat stress and outdoor access for dairy cows. Plos One, v. 13, n. 10, p. 1–14, 2018. 

DENIZ, M. et al. Age and body mass are more important than horns to determine the social position of dairy cows. Journal of Ethology, v. 39, p. 19–27, 2021a. 

DENIZ, M. et al. High biodiversity silvopastoral system as an alternative to improve the thermal environment in the dairy farms. International Journal of Biometeorology, v. 63, n. 1, p. 83–92, 2019.  

DENIZ, M. et al. Microclimate and pasture area preferences by dairy cows under high biodiversity silvopastoral system in Southern Brazil. International Journal of Biometeorology, v. 64, n. 11, p. 1877–1887, 2020. 

DENIZ, M. et al. Social hierarchy influences dairy cows’ use of shade in a silvopastoral system under intensive rotational grazing. Applied Animal Behaviour Science, v. 244, p. 105467, 2021b. 

DE-SOUSA, K. T. et al. Influence of microclimate on dairy cows’ behavior in three pasture systems during the winter in south Brazil. Journal of Thermal Biology, v. 97, p. 102873, 2021. 

FARIA, C. A. S. Percepção de bovinocultores sobre a utilização de coçadores no enriquecimento ambiental para vacas leiteiras. 1–28 f. 2022. 

JOSEPH, L. et al. Sistemas silvipastoris e serviços ecossistémicos: a visão dos produtores de leite do Sul do Brasil. Revista de Ciências Agrárias, v. 42, n. 3, p. 261–270, 2019. 

NICODEMO, M. L. F.; PORFÍRIO-DA-SILVA, V. Bark stripping by cattle in silvopastoral systems. Agroforestry Systems, v. 93, n. 1, p. 305–315, 2019. 

SCHMITT FILHO, A. L. et al. Applied nucleation under high biodiversity silvopastoral system as an adaptive strategy against microclimate extremes in pasture areas. International Journal of Biometeorology, 2023. Disponível em: https://link.springer.com/10.1007/s00484-023-02488-2.

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Material escrito por:

Karolini Tenffen De-Sousa

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Maria Rita
MARIA RITA

CALDAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/08/2025

Gostei muito do assunto gostaria de que tipo de árvore pode ser planta séria ideal
Qual a sua dúvida hoje?