O impacto do clima na produção de leite e como os produtores estão se adaptando

Como o clima impacta a pecuária leiteira e quais as soluções adotadas por produtores para manter a produção e a saúde dos animais frente ao calor. Saiba mais!

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A pecuária leiteira enfrenta desafios crescentes devido às mudanças climáticas, especialmente o estresse térmico, que afeta a saúde e produtividade dos rebanhos. O calor impacta a ingestão de alimentos, a reprodução e a qualidade do leite. Para mitigar esses efeitos, produtores adotam estratégias como sombreamento, fornecimento de água, ajustes nos horários de manejo e modificação da dieta. A seleção genética de animais resistentes ao calor e a implementação de sistemas de resfriamento também são abordagens importantes para garantir a sustentabilidade da produção leiteira.

A pecuária leiteira, uma das atividades agrícolas mais importantes globalmente, encontra-se cada vez mais vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas. Ondas de calor intensas e secas prolongadas, eventos que se tornam mais frequentes e severos, representam desafios significativos para a saúde e produtividade dos rebanhos leiteiros, especialmente em regiões tropicais e subtropicais. 

 

Estresse térmico e seus efeitos

O estresse térmico, em particular, emerge como um dos principais fatores limitantes, impactando diretamente o bem-estar animal, a ingestão de alimentos, a reprodução e, consequentemente, a produção e a qualidade do leite e por isso compreender a dimensão desses impactos e as estratégias de adaptação é crucial para a sustentabilidade e resiliência da cadeia produtiva do leite.

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O estresse térmico ocorre quando a vaca não consegue dissipar o calor produzido pelo seu metabolismo e absorvido do ambiente de forma eficiente, elevando sua temperatura corporal. As vacas leiteiras são particularmente sensíveis a variações climáticas, uma vez que o processo de produção de leite gera calor metabólico adicional. 

Em condições de alta temperatura e umidade, os animais buscam mecanismos de resfriamento, como o aumento da frequência respiratória, a redução da ingestão de matéria seca e o aumento do consumo de água. Essas respostas fisiológicas, contudo, desviam energia que seria utilizada para a produção de leite e afetam a eficiência alimentar, resultando em quedas significativas na produtividade.

Os efeitos do estresse térmico vão além da mera redução na quantidade de leite; a qualidade do leite também pode ser comprometida, com alterações na composição de gordura e proteína, o que impacta o rendimento industrial para a produção de queijos e outros derivados. A saúde reprodutiva das vacas é severamente afetada, com diminuição das taxas de concepção, aumento das perdas embrionárias e prolongamento do intervalo entre partos. Esse cenário resulta em menos bezerros por ano, prejudicando a renovação do rebanho e a rentabilidade da fazenda a longo prazo. O sistema imunológico dos animais também pode ser enfraquecido, tornando-os mais suscetíveis a doenças infecciosas.

 

Como produtores podem mitigar os efeitos do calor

Diante desse panorama desafiador, produtores de leite em diversas partes do mundo, e especialmente no Brasil, estão implementando adaptações simples, mas eficazes, para mitigar os impactos do clima e uma das estratégias mais diretas e difundidas é o sombreamento. A criação de áreas sombreadas, seja por meio de árvores estrategicamente plantadas (sistemas silvipastoris) ou estruturas artificiais como telhados e telas, oferece um refúgio térmico essencial para os animais. A sombra reduz a radiação solar direta sobre as vacas, diminuindo a carga de calor e permitindo que elas permaneçam mais confortáveis e produtivas mesmo em dias quentes.

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A disponibilidade e qualidade da água são fatores críticos na adaptação ao clima, em períodos de calor, o consumo de água pelas vacas pode aumentar drasticamente, sendo fundamental garantir acesso irrestrito a água fresca, limpa e em abundância. Isso envolve a instalação de bebedouros em número adequado e em locais de fácil acesso, a limpeza regular desses bebedouros para evitar a contaminação e a garantia de um fluxo contínuo de água. A água atua como um regulador térmico natural, e sua oferta adequada é uma das primeiras linhas de defesa contra o estresse por calor.

Outra adaptação importante refere-se ao ajuste dos horários de manejo pois em dias de temperaturas elevadas, atividades que exigem maior movimentação dos animais, como a ordenha e a alimentação, podem ser realocadas para os períodos mais frescos do dia, geralmente no início da manhã ou no final da tarde/noite. Essa simples mudança minimiza o estresse físico das vacas durante os picos de calor, otimizando o consumo de alimentos e reduzindo o gasto energético com a termorregulação. O fornecimento da dieta também pode ser fracionado, oferecendo porções menores mais vezes ao dia, especialmente nos horários mais amenos.

A modificação da dieta é uma estratégia nutricional relevante, a formulação da dieta pode ser ajustada para incluir ingredientes mais palatáveis e de maior densidade energética, compensando a redução na ingestão de matéria seca. Aditivos como tamponantes e probióticos também podem ser utilizados para manter a saúde ruminal e a eficiência digestiva, que são frequentemente comprometidas pelo calor. O objetivo é fornecer os nutrientes necessários para manter a produção e a saúde, mesmo com a diminuição do apetite.

Além das adaptações individuais, a seleção genética de animais mais resistentes ao calor tem ganhado destaque, raças com maior tolerância ao estresse térmico ou o uso de cruzamentos estratégicos podem resultar em rebanhos mais adaptados às condições climáticas adversas. A pesquisa genética tem buscado identificar marcadores que permitam selecionar animais mais eficientes na dissipação de calor, construindo um futuro rebanho mais robusto e menos dependente de intervenções externas para o manejo do calor.

A implementação de sistemas de aspersão e ventilação em instalações como o curral de espera e o galpão de ordenha é uma tecnologia de resfriamento eficaz. Os aspersores umedecem a pelagem dos animais, e os ventiladores promovem a evaporação da água, removendo o calor do corpo da vaca. Esses sistemas, embora demandem um investimento inicial, demonstram excelente custo-benefício em regiões de alta incidência de estresse térmico, proporcionando um ambiente mais confortável e produtivo para as vacas.

Em suma, o impacto do clima na produção de leite é um desafio crescente que exige uma abordagem multifacetada; os produtores estão respondendo com uma combinação de adaptações simples e tecnologias inovadoras, focadas em garantir o bem-estar animal e a continuidade da produção. 

Desde o fornecimento adequado de sombreamento e água até ajustes na dieta e nos horários de manejo, passando pela seleção genética e o uso de sistemas de resfriamento, cada ação contribui para a resiliência da pecuária leiteira frente às intempéries climáticas.

Agradecimentos:

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processo n. 303505/2023-0), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) Chamada Pública FAPEG n. 21/2024 - Programa de Auxílio à Pesquisa Científica e Tecnológica - Edição 2024, Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e IF Goiano - Campus Rio Verde pelo apoio financeiro a realização da pesquisa.

Referências bibliográficas

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Material escrito por:

Stefany Cristiny  Ferreira da Silva Gadêlha

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Doutor em Ciência Animal pela Universidade Federal de Goiás, Professor do IF Goiano - Campus Rio Verde, GO

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