Agrindus: 80 anos de história e inovação no leite

Da fundação em 1945 à atual liderança no leite A2, a trajetória da família Jank revela como tradição, resiliência e modernização podem andar juntas, atravessando gerações e construindo um modelo de produção sustentável e atento ao consumidor

Publicado por: MilkPoint

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Autora: Adriana Vieira Ferreira

Roberto Hugo Jank Júnior nunca está sozinho. Ao seu nome, somam-se o da esposa, Tita, e o das três filhas, Taís, Diana e Isabela, assim como o nome dos que compõem a sua família de origem – presenças que se entrelaçam à sua trajetória. Também o acompanham as marcas Agrindus e Letti A2, empreendimentos dos quais é sócio-proprietário e que carregam o legado de oito décadas de trabalho ininterrupto. Conhecer essa história por meio do seu relato é acessar uma daquelas raridades: empresas que atravessaram crises, transformações de mercado e mudanças de gerações, mas que seguem vivas, crescendo com saúde e preparando-se para os próximos 80 anos.

A história da Fazenda Agrindus

Cavalo puxando carroça com pessoas
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Credito da foto: Kevyn Pereira. Gerações em um mesmo passo: o patriarca, Roberto Jank, ao lado de Roberto e Jorge Jank – dois dos quatro filhos

A trajetória da Agrindus se confunde com a vida da família Jank. Em 1945, ainda menino, Roberto Jank, o patriarca da família, veio morar na recém-fundada Fazenda Santa Rita, em Descalvado/SP. O contexto não poderia ser mais desafiador: sem fertilizantes disponíveis, a região era chamada de “terra velha” de São Paulo – área que já havia sustentado lavouras de café e que muitos produtores abandonavam em busca de terras mais férteis. Foi nesse cenário de escassez que nasceu a resiliência da Agrindus, virtude que atravessaria gerações.

Desde a década de 1950, o leite já fazia parte da rotina da fazenda, não apenas como alimento in natura. A primeira agroindústria instalada produzia caseinato de cálcio, matéria-prima usada pela indústria farmacêutica; e melado de cana, que servia à fabricação de biotônico. Mais tarde, na década de 1960, veio a fábrica de queijos, com destaque para o queijo prato, que levava o nome da empresa e circulava regionalmente.

A década de 1970 marcou outro momento pioneiro: a produção do leite tipo B, primeiro produto lácteo brasileiro com preço livre, sem tabelamento do governo. A inovação abriu espaço para negociações diretas entre produtor e indústria, garantindo mais autonomia ao setor. A Agrindus foi uma das primeiras a apostar nesse mercado, sustentando a atividade até meados dos anos 1990, quando a pressão de outros estados e a consolidação do leite longa vida levaram à extinção do tipo B.

Vieram, então, anos duros. A hiperinflação dos anos 1980 e a abertura das importações de leite em pó no governo Collor trouxeram forte desequilíbrio à cadeia produtiva. Diante disso, a família decidiu ousar mais uma vez: em 1994, com a estabilidade do Plano Real, unificou os estábulos e direcionou investimentos para o leite tipo A – modelo mais rigoroso, com produção exclusiva dentro da fazenda e industrialização própria. Em 1998, a Agrindus começou a fornecer esse leite em parceria com uma marca, até que a família, em 2007, lançou a própria: a Letti A2.

“O leite sempre esteve no centro da nossa história, mas o que nos move é a vontade de fazer diferente. Cada geração encontrou um jeito novo de continuar inovando. E o leite foi o elo entre todas elas”, diz Roberto, que atua, ao lado do irmão Jorge, na gestão da Agrindus.

O movimento mais transformador, contudo, viria em 2018, quando a Agrindus tornou-se pioneira no Brasil ao lançar o leite A2. O processo começou dois anos antes, com a identificação genética de vacas A2A2 dentro do rebanho e a replicação dessa característica por meio de biotecnologia. Mesmo enfrentando insegurança regulatória, a família persistiu e conquistou, em 2020, a primeira autorização da Anvisa para rotular o leite A2 com alegação de funcionalidade. Uma vitória de todo o setor.

O resultado é que, aos 80 anos, a fazenda carrega uma narrativa rara: cada geração encontrou o próprio caminho de inovação, mantendo o leite como centro, mas nunca se limitando a ele.

A sucessão e a modernização

“Sucessão, pra nós, nunca foi uma meta desenhada no papel. Veio de forma natural, no tempo certo de cada um”, conta Roberto, lembrando que a Agrindus sempre foi, antes de tudo, um espaço de aprendizado.

Quando ele se casou com Tita, em 1989, iniciou-se uma nova etapa da vida familiar e a possibilidade concreta de continuidade na fazenda. Vieram as três filhas – Taís, Diana e Isabela –, todas criadas em meio ao cotidiano do leite, mas sem pressão para seguir carreira dentro do negócio. Ao contrário, os pais insistiram que buscassem formações diversas, fora da porteira.

Taís escolheu o Direito e construiu experiência na área comercial; Diana se graduou em Publicidade e trabalhou em agências de comunicação em São Paulo; e Isabela, a caçula, seguiu outros rumos. A estratégia era clara: ampliar horizontes e evitar que o peso do legado familiar se transformasse em limitação. A construção da vida, porém, tratou de trazer duas delas de volta.

Em 2016, quando a Agrindus iniciou o processo de transição genética para o leite A2, Diana percebeu que sua formação em branding e posicionamento de mercado poderia se somar ao projeto. Em 2018, ela retornou à fazenda, tornando-se peça-chave na comunicação da marca. Taís, por sua vez, encontrou no setor comercial da Letti A2 o espaço para aplicar seus conhecimentos e fortalecer a relação com clientes e consumidores.  Ambas retornaram por vontade própria, com o entusiasmo de quem escolhe. “É bonito ver isso acontecer não por obrigação, mas por afinidade. Cada uma encontrou um jeito de pertencer, de contribuir com a sua história dentro da nossa”, reflete Roberto.

Essa volta transformou a Agrindus em um verdadeiro laboratório de convivência entre gerações. Hoje, três estão ativamente presentes: o patriarca, Roberto Jank, aos 87 anos, segue à frente da produção de alimentos da fazenda; Roberto e o irmão Jorge cuidam da gestão societária; e as filhas já imprimem uma nova linguagem à marca. Muito além da continuidade, o que se constrói é integração: cada geração trouxe sua marca em soma.

Grupo de pessoas posando para foto com cachorro
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Credito da foto: Willy Biondani. Os irmãos Roberto e Jorge Jank e respectivas famílias: na varanda da casa-sede, tradição e futuro se encontram em uma história que já atravessa três gerações

 

Modernização e diálogo com o consumidor

Se a primeira geração da Agrindus se destacou pela resiliência e a segunda pela capacidade de inovação, a terceira trouxe um ingrediente essencial: a comunicação. 

Um dos marcos dessa virada foi a mudança da embalagem da Letti A2. A antiga garrafa branca deu lugar a um design transparente, que traduz em imagem o que a família quer transmitir: clareza, proximidade e confiança. “Não se tratava mais de vender apenas cálcio e sorrisos de famílias perfeitas, típicas dos comerciais de derivados de leite, mas de dialogar com consumidores jovens, urbanos e atentos à origem do que consomem”, explica Roberto.

Essa transformação de linguagem se consolidou também por meio das certificações. Inspirados por feiras internacionais, a família percebeu que os selos de terceira parte eram o passaporte para conquistar credibilidade diretamente na gôndola do supermercado, no instante decisivo da compra. Hoje, a Letti A2 ostenta sete certificações distintas, cada uma funcionando como um elo de confiança entre a fazenda e o consumidor.

Diana assumiu o protagonismo nesse movimento. Comunicadora nata, reposicionou a marca e levou o debate para fora dos limites da empresa. Atualmente, integra o programa internacional Nuffield, onde pesquisa justamente como “furar a bolha” da comunicação entre campo e cidade, aproximando o produtor do consumidor. Sua atuação é um reflexo do novo espírito da Agrindus: moderna, atenta e disposta a dialogar com a sociedade de forma transparente.

Animal com a boca aberta
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Credito da foto: Kevyn Pereira. No brinco, a certificação que confirma a escolha genética: rebanho 100% A2A2

Mão segurando lata de bebida em cima da grama
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Credito da foto: Kevyn Pereira. As garrafas transparentes da Letti A² traduzem o conceito da marca: clareza, autenticidade e proximidade com o consumidor

 

Produção, bem-estar e sustentabilidade

Na Agrindus, a produção de leite é resultado de um tripé sólido: nutrição, genética e sanidade animal. Esses pilares são tratados como indissociáveis, sustentados por uma visão moderna de sustentabilidade que integra agricultura, pecuária e meio ambiente em um mesmo ciclo.

Nutrição de excelência é o ponto de partida. Roberto acredita que uma fazenda de leite é 90% agricultura, porque tudo depende da qualidade da forragem produzida. A colheita da planta inteira para silagem, embora essencial para alimentar o rebanho, retira do solo a cobertura que mantém sua vitalidade. Para equilibrar essa equação, a Agrindus adota práticas de plantio direto, cultivo de coberturas vegetais e uso intensivo da compostagem dos dejetos animais, fechando um círculo virtuoso: o que sai do solo retorna como fertilidade. Assim, garante-se alimento de alto valor nutritivo às vacas e manutenção da saúde biológica dos campos.

Ponte sobre a grama
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Credito da foto: Kevyn Pereira. Sistema de irrigação por pivô central em área destinada à produção de forragem, essencial para manter a regularidade e a qualidade da alimentação do rebanho

Genética de ponta é outro alicerce. Todas as bezerras são testadas por DNA logo ao nascer, permitindo selecionar o terço superior como futuras doadoras de embriões. Esse processo garante a evolução contínua do plantel e assegura a produção de leite A2A2, resultado da escolha estratégica feita em 2016, quando a família decidiu investir na diferenciação genética como forma de agregar valor.

O terceiro pilar é composto por sanidade, que envolve questões como conforto e bem-estar animal. O rebanho, formado por vacas holandesas puras, vive em confinamento desde a década de 1990, em sistema Free Stall.  Essa escolha trouxe vantagens ambientais e sanitárias: possibilita coletar 100% dos efluentes e devolvê-los ao solo como adubo natural – substituindo fertilizantes importados e reduzindo a pegada de carbono – ao mesmo tempo que assegura condições controladas de conforto térmico, manejo e saúde.

Edifício de tijolos
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Credito da foto: Kevyn Pereira. Vacas holandesas em confinamento: bem-estar e produtividade caminham juntos na rotina da Agrindus

Bovino na frente de uma vaca
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Credito da foto: Kevyn Pereira. Conforto térmico, descanso adequado e manejo individualizado são parte da rotina de bem-estar que contribui para o aumento da produtividade na Agrindus

Entretanto, à medida que a produtividade da Agrindus aumentava, cresciam também os desafios ligados à saúde do úbere e ao manejo de secagem, um dos momentos mais críticos do ciclo produtivo. Em vacas de alta produção, o final da lactação exige do produtor atenção redobrada: é quando o úbere ainda produz volumes significativos de leite e, ao mesmo tempo, precisa se preparar para o repouso e a regeneração do tecido mamário.

O início de um novo ciclo produtivo é uma fase crítica  e, para Roberto, é também o momento em que a fazenda reafirma o compromisso com o bem-estar animal e a longevidade do rebanho. “Uma vaca que termina bem a lactação começa melhor a seguinte”, resume.

Foi com essa visão que a Agrindus incorporou o Velactis®, produto da Ceva Saúde Animal, ao protocolo de manejo de todas as vacas ao final da lactação.  “O Velactis® nos dá a oportunidade de levar a vaca até o final da lactação, aplicar o produto e, no momento seguinte, ela já estar no lote de vacas secas. Além de permitir o aproveitamento de todo o leite até o fim, esse processo assegura conforto e evita que a vaca perca peso nesse período", explica Roberto.

A fazenda adota o protocolo de forma integral e padronizada, com resultados consistentes em todas as categorias de vacas. “A gente não trabalha com exceção. Quando encontramos uma tecnologia que entrega resultado e aumenta o bem-estar do animal, ela passa a fazer parte da rotina”, destaca Roberto.

De acordo com Rogério Rossi, gerente de Serviços Técnicos da Ceva Saúde Animal, essa adoção integral reflete o propósito do produto: “O Velactis® veio para transformar a secagem em uma etapa fisiológica do ciclo produtivo. A vaca não sente dor, não há vazamento de leite e o úbere mantém sua integridade, o que se traduz em mais saúde, menor incidência de mastite e maior produção na lactação seguinte. O que a gente quer é equilíbrio: vacas saudáveis, bem-alimentadas e que produzam sem sofrimento. O Velactis® ajuda exatamente nisso. Ele dá tranquilidade para o produtor e bem-estar para o animal”, conclui.

Uma vaca preta
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Credito da foto: Kevyn Pereira. Os animais, quando terminam o ciclo de lactação, recebem Velactis®, medicamento que inibe a prolactina e promove a secagem inteligente, reduzindo dor, vazamentos e riscos de infecção no úbere

Se liga!

O Velactis® foi o primeiro produto do mundo a permitir uma secagem fisiológica, segura e sem estresse, resultado de um processo de pesquisa e inovação que completa 10 anos. Sua ação inibe, de forma seletiva, a prolactina – hormônio responsável pela produção de leite –, interrompendo naturalmente a lactação, sem cortes bruscos de alimentação ou manejos agressivos.

Secagem fisiológica e produtiva com Velactis®

  • Reduz o estresse e a dor durante a secagem, promovendo transição natural.
  • Evita vazamento de leite e novas infecções intramamárias.
  • Permite períodos secos mais curtos: 45 dias para vacas; 55 dias para novilhas.
  • Mantém o colostro com a mesma qualidade e imunidade.
  • Aumenta a produção de leite na lactação subsequente.
  • Melhora o conforto, a fertilidade e a longevidade produtiva.

Tecnologia e precisão

O cuidado com a saúde das vacas se estende ao momento mais sensível da rotina: a ordenha. A Agrindus opera com uma estrutura side by side, duplo 30, totalizando 60 postos. Um sistema inovador substitui o liner tradicional por cartuchos de encaixe rápido. Essa tecnologia reduz o tempo de ordenha, melhora o fluxo de leite e protege o tecido do úbere, garantindo mais higiene e suavidade ao processo.

Cada vaca é identificada individualmente e seus dados de produção e sanidade são registrados em tempo real – informações que alimentam a gestão e reforçam a rastreabilidade do leite A2.

Uma imagem contendo no interior, edifício, réptil, em pé
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Credito da foto: Kevyn Pereira. Rotina de ordenha na Agrindus: três vezes ao dia, em rebanho fechado e totalmente rastreável, assegurando qualidade, sanidade e produção exclusiva do leite A2

Olhar para o futuro

Se os 80 anos da Agrindus são marcados pela resiliência e pela capacidade de se reinventar, os próximos já estão em construção. Para Roberto, a sucessão não é um peso transmitido às gerações seguintes, mas uma oportunidade aberta. “Nunca incentivamos nossas filhas a ficarem aqui. Queríamos que tivessem horizontes mais amplos, outras carreiras, outras experiências. Só depois, por vontade própria, é que elas decidiram voltar”, afirma. Essa filosofia revela uma convicção: a continuidade depende menos da imposição e mais do entusiasmo genuíno de cada nova geração.

No campo dos negócios, a tendência é clara: o leite A2, que já desponta no mercado global, deve se tornar predominante no Brasil. Hoje, mais de 95% dos touros holandeses provados são A2A2. Roberto acredita que, em poucos anos, a maior parte do leite produzido no país carregará essa característica. O impacto vai muito além da genética: trata-se de oferecer ao consumidor um produto mais digestível e funcional, capaz de recuperar até parte do público que havia migrado para bebidas vegetais.

A visão de futuro também está ligada ao meio ambiente. A intensificação produtiva, com o uso eficiente da terra e da água, é vista como o caminho inevitável para alimentar uma população crescente sem ampliar a pressão sobre florestas e biomas. A lógica é simples e poderosa: produzir mais, em menos espaço, devolvendo ao solo tudo o que dele é retirado.

Olhando para o mercado, Roberto identifica uma inflexão global. Os “unicórnios” das bebidas vegetais perderam força, enquanto proteínas animais voltam a ganhar espaço. A pandemia, segundo ele, reforçou a busca por alimentos básicos, frescos e naturais. “O leite é um produto essencial, quase um retorno às origens. Cabe a nós acertarmos o diálogo com o consumidor para preservar essa oportunidade que o mercado nos dá” , resume.

Assim, a Agrindus se prepara para atravessar o próximo ciclo com a mesma vitalidade que marcou suas primeiras oito décadas: uma empresa de base familiar, mas com visão global; profundamente enraizada na terra, mas atenta às mudanças de comportamento; capaz de preservar sua história enquanto constrói, todos os dias, novos caminhos para o futuro.

Pessoas em estação de trem
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Credito da foto: Kevyn Pereira. Roberto e Jorge Jank percorrem o Free Stall da Agrindus: propósito comum de produzir leite com eficiência, responsabilidade e bem-estar animal

 

Agrindus em números

Produção total -   70 mil litros

Número de vacas em produção - 1.850

Gordura - 3,8%

Proteína - 3,4%

 

Fonte: artigo publicado na revista Leite Integral.

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