Precisamos de sistemas de produção de leite mais circulares

Sistemas circulares na produção de leite fecham ciclos de nutrientes e água, reduzindo impactos e fortalecendo a sustentabilidade. Saiba mais!

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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O estudo "Perspectivas para Agropecuária 2025-2034" prevê um crescimento anual de 1,8% na produção global de leite na próxima década, impulsionado pela otimização da produção e práticas sustentáveis. A transição de sistemas lineares para circulares na pecuária é essencial para mitigar impactos ambientais. O Brasil deve adotar políticas de economia circular, como a Estratégia Nacional de Economia Circular. A circularidade na produção leiteira pode promover eficiência e fechamento de ciclos de nutrientes, mas enfrenta desafios como custos e falta de conhecimento.

Segundo o estudo “Perspectivas para Agropecuária 2025-2034” (OECD/FAO, 2025) a produção mundial de leite deverá crescer 1,8% ao ano na próxima década, mais rápido do que a maioria das outras commodities agrícolas. O crescimento da produtividade será alcançado por meio da otimização dos sistemas de produção, melhoria da saúde animal, maior eficiência alimentar e melhor genética. Há tendência crescente em direção a práticas sustentáveis, como as relacionadas ao uso da água e ao manejo de dejetos.

A importância econômica, social e como fornecedora de proteína de qualidade da pecuária leiteira para a humanidade e para o Brasil é indiscutível, como demonstrado pelo índice de crescimento citado acima, mas os impactos ambientais negativos da atividade exigem repensar a relação desta com os sistemas naturais. 

Repensar esta relação por significar migrarmos de sistemas lineares para circulares.

  • Economia linear: e aquela na qual os recursos finitos são extraídos para produzir produtos que são usados, geralmente, não em seu potencial máximo, conceito do “extrair-produzir-descartar” (Hamam et al., 2021). Van der Wiel et al. (2019) sistemas de produção animal são altamente lineares o que lhes confere elevada ineficiência no uso de insumos e recursos naturais.
     
  • Sistema produtivo circular: segundo Jurgilevich et al. (2016) um sistema produtivo circular utiliza práticas e tecnologias que minimizem a entrada de recursos finitos, incentivando o uso de recursos regenerativos, prevenindo a perda de recursos naturais (por exemplo, nitrogênio, fósforo e água) e estimulando a reutilização e a reciclagem das perdas inevitáveis.

A base científica da Economia Circular (EC) ainda está no seu início, mas é importante estabelecer a definição e os objetivos antes que uma estratégia de EC possa ser avaliada. Velasco-Munoz et al. (2021) definem a EC em sistemas agropecuários como o conjunto de atividades destinadas não apenas a garantir a sustentabilidade da agricultura por meio de práticas que buscam o uso eficiente e eficaz dos recursos, mas também garantir a regeneração e a biodiversidade dos agroecossistemas e nos ecossistemas circundantes.

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O Brasil tem urgência em estabelecer o seu conjunto de políticas em economia circular. O Decreto nº 12.082, de 27 de junho de 2024 institui a Estratégia Nacional de Economia Circular. Considera-se economia circular o sistema de produção que mantém o fluxo circular de recursos, baseando-se nos princípios da não geração de resíduos, da circulação de produtos e materiais e da regeneração.

Muscat et al. (2021) destaca que a aplicação dos princípios de circularidade nas unidades de produção pecuária é uma forma de reduzir os impactos ambientais negativos da atividade. Van Hal et al. (2019) enfatizam que a produção leiteira é uma das mais promissoras na transição para um sistema circular. Stanchev et al. (2020) apontam que a pecuária leiteira tem todo potencial de circularidade, pois pode promover o fechamento dos ciclos de nutrientes e água na propriedade, mas destacam que ainda existem muitos desafios para alcançar esta circularidade.

No mundo há pouco estudos sobre a circularidade dos sistemas leiteiros e no Brasil estes são inexistentes.

Ewert (2025) identificou as dificuldades e barreiras para produtores europeus adotarem as práticas e tecnologias da economia circular. Dos entrevistados, 65% responderam que adotavam pelo menos um método de agricultura circular. A barreira mais significativa para a adoção é o alto custo inicial de implementação, seguido por conhecimento limitado e obstáculos regulatórios. Compostagem e produção de biogás foram as práticas mais amplamente adotadas, enquanto agricultura de precisão e reuso de água foram menos adotados.

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A pecuária circular enfatiza a redução dos resíduos, a eficiência de uso dos recursos e sistemas de circuito fechado. Os principais componentes incluem:

  • Eficiência do uso de insumos, recursos naturais e energia: otimizar o uso das águas de serviço e irrigação, do solo e dos nutrientes por meio de abordagens de precisão, utilizar sistemas de circuito fechado e ter uma matriz híbrida de energia (biomassa, solar e eólica);

  • Redução dos resíduos: minimização do desperdício de insumos, implementação de práticas de precisão na utilização de fertilizantes e no arraçoamento dos animais;

  • Reuso dos resíduos: uso dos subprodutos (lodos, efluentes, compostos, digestato, etc.) de processos de tratamento (lagoas, biodigestores, compostagem, etc.) como material fertilizante;

  • Conservação dos recursos naturais: utilização de práticas de conservação do solo e das fontes de água superficiais e aproveitamento de água da chuva.

Os desafios ambientais presentes e futuros à produção de leite exige que migremos de sistemas lineares para circulares. Muitas práticas de circularidade já estão acontecendo nas propriedades brasileiras como o uso dos resíduos orgânicos como fertilizante e a geração de energia a partir destes resíduos.

Mas foi-se o tempo só de fazer! 

Devemos planejar, documentar, monitorar e reavaliar todos os processos para primeiro: melhorar a gestão do sistema de produção sendo eficientes no uso de insumos e recursos naturais, reduzindo ao mínimo os passivos ambientais; segundo: mostrar para sociedade que prezamos por um sistema econômico aliado do meio ambiente, portanto, circular!

Referências bibliográficas

Hamam, M.; Chinnici, G.; Di Vita, G. et al. 2021. Circular Economy Models in Agro-Food Systems: A Review. Sustainability, 13, 3453. https://doi.org/10.3390/su13063453

Jurgilevich, A., Birge, T., Kentala-Lehtonen, J., Korhonen-Kurki, K., Pietikäinen, J., Saikku, L., & Schösler, H. 2016. Transition towards Circular Economy in the Food System. Sustainability, 8(1), 69. https://doi.org/10.3390/su8010069

MUSCAT A., DE OLDE E.M., RIPOLL-BOSCH R., VAN ZANTEN H.H.E. et al. 2021. Principles, drivers and opportunities of a circular bioeconomy. Nat Food 2(8):561–566. https:// doi.org/ 10. 1038/ s43016- 021- 00340-7

OECD/FAO. 2025, OECD-FAO Agricultural Outlook 2025-2034, OECD Publishing, Paris/FAO, Rome, https://doi.org/10.1787/601276cd-en

Stanchev, P. Vasilaki, V. Egas, D. Colon, J. Ponsá, S. Katsou E. 2020. Multilevel environmental assessment of the anaerobic treatment of dairy processing effluents in the context of circular economy. Journal of Cleaner Production, 261, 121139. https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2020.121139

VAN DER WIEL, B.Z., WEIJMA, J., VAN MIDDELAAR, C.E., KLEINKE, M., et al. 2019. Restoring nutrient circularity: a review of nutrient stock and flow analyses of local agro-food-waste systems. Resour. Conserv. Recycl. X 3, 100014. https://doi.org/10.1016/j.rcrx.2019.100014.

Velasco-Muñoz, J.F., Mendoza, J.M.F., Aznar-Sánchez, J.A. et al. 2021. Circular economy implementation in the agricultural sector: Definition, strategies and indicators. Resources, Conservation and Recycling, 170, 105618. https://doi.org/10.1016/j.resconrec.2021.105618

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Material escrito por:

Julio Cesar Pascale Palhares

Julio Cesar Pascale Palhares

Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste

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