Em pesquisa conduzida pela Embrapa Gado de Leite na região Sudeste do Brasil na década de 1990, avaliou-se o desempenho de vacas Holandesas a pasto de gramíneas de alta qualidade (Cynodon - Coast-cross), comparado com sistema em confinamento (free-stall).
O pasto foi viável economicamente, apresentando margem de lucro próxima de 50% maior do que o confinado, mesmo produzindo próximo de 20% menos leite. Ainda nessa década, outra pesquisa comparou o desempenho de vacas Holandesas a pasto de alfafa como alimento exclusivo e em confinamento. A produção de leite, média de lactação, caiu 12% a pasto (18,6 x 21,2 kg/vaca/dia), contudo, essa diferença não se traduziu em vantagem econômica pelo custo mais elevado com alimentação.
À semelhança das pesquisas na Embrapa, na Flórida, Estados Unidos, pesquisadores compararam sistemas de produção de leite com vacas Holandesas em confinamento e a pasto misto de Cynodon e azevém. Eles concluíram que a produção de leite a pasto foi 17% menor (24 x 29 kg/vaca/dia) e a margem bruta 10% maior (U$5,85/vaca a pasto e U$5,32/vaca em confinamento). O custo mais alto da alimentação foi o principal responsável pela menor lucratividade do confinamento.
Essas pesquisas demonstram duas realidades: que a escolha correta da forrageira a ser pastejada pode definir a competitividade do sistema e que os sistemas confinados são modelos que normalmente expressam maior produtividade por vaca.
Desde os anos de 1990, mais de 35% dos produtores de leite deixaram a atividade no Brasil. Hoje são menos produtores, porém maiores, visto que 53 mil fazendas respondem por 60% da produção de leite inspecionado. Essa dura realidade modificou o perfil da pecuária de leite no Brasil. Na última década, a grande maioria dos produtores (principalmente os médios e grandes) foram a procura de tecnologias de ponta e migraram para sistemas de produção de leite em confinamento, mesmo com os altos investimentos em instalações e maior risco financeiro.
Os que defendem o sistema confinado destacam a qualidade, o conforto animal e o manejo mais fácil para um grande número de vacas ordenhadas, além de gerar um subproduto valioso (composto orgânico).
Para testar a hipótese de que o leite a pasto pode ser solução para uma pecuária em crise, analisou-se a eficiência econômica da produção de leite em cinco sistemas produtivos, quatro a pasto e um em confinamento (Tabela 1), usando softwares para simulação de sistemas de produção de leite desenvolvidos pela Embrapa Gado de Leite (Tupy, O.).
Tabela 1 – Informações técnicas dos cinco sistemas de produção de leite para avaliar a viabilidade econômica.
Os 5 sistemas de produção de leite simulados foram:
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o sistema 1 - pasto de gramínea (Megathyrsus maximus cv. Tobiatã) fertilizado, sem irrigação, suplementado com concentrado (milho grão moído, farelo de soja) o ano todo e silagem de milho no inverno, fornecidos a vacas com produção média de leite de 20 kg/dia;
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o sistema 2 - pasto de alfafa (Medicago sativa) irrigado e adubado, sendo oferecido como alimento exclusivo para vacas com produção média de leite de 20 kg/dia;
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o sistema 3 - pasto de alfafa irrigado e adubado, com pastejo por 12 horas, com 2 horas após a ordenha da manhã e acesso livre após a ordenha da tarde e à noite, suplementado com concentrado energético (milho grão moído), fornecido para vacas com produção média de leite de 25 kg/dia;
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o sistema 4 - pasto de alfafa irrigado e adubado, com pastejo de 8 horas (4 horas após a ordenha da manhã + 4 horas após a ordenha da tarde), suplementado com concentrado proteico (1 kg de farelo de soja) e energético (5 kg de milho grão moído), mais silagem de milho durante o inverno, fornecidos para vacas com produção média de leite de 30 kg/dia;
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o sistema 5 - confinamento (compost barn) para vacas com produção média de leite de 34 kg/dia, alimentadas com dieta completa a base silagem de milho (12kg MS/vaca/dia) mais concentrado balanceado (8kg/vaca/dia).
Em todos os sistemas, as vacas receberam núcleo mineral e bicarbonato de sódio. O consumo de alimentos (pasto, silagem e concentrados) e o manejo das pastagens, foram tomados das pesquisas conduzidas ou acompanhadas pela Embrapa, considerando-se os requerimentos nutricionais das vacas conforme a produção de leite.
O número de vacas em lactação foi dimensionado utilizando uma área fixa de 68 hectares. Em todos os sistemas simulados, considerou-se como sendo vacas da raça Holandesa com potencial produtivo igual ou superior a seis mil kg por lactação. O pastejo na alfafa era rotacionado em faixas.
Não foram computados nos cálculos econômicos o valor dos animais, das terras, das máquinas, dos equipamentos nem das benfeitorias, levando-se em conta que o foco da simulação foi avaliar se o sistema de produção de leite a pasto seria ou não uma alternativa economicamente viável para o período de crise na remuneração da atividade.
Assim, baseou-se principalmente no custo operacional efetivo (COE), que representa a soma de gastos de custeio com mão de obra contratada, alimentos comprados (concentrados e minerais), medicamentos, qualidade do leite, inseminação artificial e outros dessa natureza.
Numa análise econômica mais complexa, o indicador taxa de remuneração do capital investido e lucro operacional é o mais completo, porque inclui todos os fatores de produção. Assim, os sistemas mais intensivos são normalmente os mais atrativos, uma hipótese que deve ser testada em função das condições regionais onde se localiza a propriedade.
A tabela 2 mostra os resultados das análises de viabilidade econômica para cada sistema de produção simulado.
Tabela 2 - Análise econômica em função dos sistemas de produção de leite simulados.
Embora seja uma solução para baixar custos, o sistema a pasto exige também tecnologias de ponta e manejo eficiente. Há situações em que utilizar suplementação estratégica é necessária, por exemplo, o suplemento energético, dependendo da qualidade proteica do pasto. Em vacas leiteiras com produtividade acima de 20kg/dia sob pastejo de alfafa, normalmente ocorre desequilíbrio na relação energia-proteína da dieta consumida, sendo fundamental corrigir esse desequilíbrio. Em outras situações, além da suplementação energética é preciso também o suplemento proteico, como no caso do sistema 4 com vacas produzindo 30kg/dia.
Ao comparar o pasto de gramínea (sistema 1) com o pasto de alfafa (sistema 2), este se sobressai pelo menor custo operacional (COE) e maior margem bruta e lucro (tabela 2), consequência do menor gasto com alimentação (tabela 1), evidência clara que a qualidade do pasto tem um grande peso na lucratividade do sistema produtivo.
Fica evidente ainda o impacto das dietas com silagem de milho (sistemas 1, 4 e 5) e sem silagem (sistemas 2 e 3) no custo dos sistemas. A silagem onera o sistema produtivo, reduzindo a margem e o lucro operacional, independentemente se a pasto ou confinado.
Os sistemas a pasto de alfafa (sistemas 2, 3 e 4) apresentaram menor COE e maior lucro operacional (tabela 2) do que os sistemas a pasto de gramínea (sistema 1) e confinado (sistema 5).
Pode-se então afirmar que os sistemas à base de pasto de alfafa, foram bastante resilientes aos preços pagos pela indústria, uma vez que o COE foi abaixo de R$ 2,00 por litro produzido. Destaca-se o sistema 2, onde o único alimento consumido pelas vacas foi pasto de alfafa, com o COE de R$1,18 por litro.
Contudo, ao comparar os sistemas a pasto de alfafa sem e com suplemento (sistemas 2 e 3), houve maior consumo de pasto sem o suplemento (18kg MS/vaca/dia) do que com o suplemento (12kgMS/vaca/dia). Normalmente a suplementação do pasto eleva a capacidade de suporte da pastagem, levando a taxa de lotação de 2,3 vacas/ha para 3,6 vacas/ha, respectivamente. Considerando a produção de leite por área, o pasto de alfafa com suplemento concentrado produziu perto de 16 mil kg de leite a mais por hectare/ano.
Além do mais, o pasto de alfafa com suplemento (sistema 3) gerou margem de lucro próxima de 28% maior do que em confinamento (sistema 5), mesmo com produção de leite por vaca aproximadamente 26% menor (25 e 34 kg/vaca/dia). O custo para alimentar as vacas foi 20% menor (R$ 1,20 por vaca/dia no sistema a pasto de alfafa – sistema 3 - e R$1,50/vaca/dia no confinamento – sistema 5). Esses dados se assemelham aos obtidos nas pesquisas conduzidas pela Embrapa na década de 1990, assim como os obtidos na literatura internacional.
Conclui-se que a produção de leite a pasto de qualidade é considerada uma alternativa estratégica para pequenas e médias propriedades, sendo uma solução sustentável economicamente para a pecuária leiteira em tempos de crise.