A percepção sobre o tamanho e número de piquetes em propriedades leiteiras é um assunto polêmico. A nível de propriedade, há técnicos que recomendam o uso de dezenas de piquetes, com uso de dois ou mais piquetes por dia. Em contrapartida, estudos da década de 80 (e.g. Parsons et al., 1988) demonstraram que a produção de forragem é relativamente independente do método de lotação, rotativo ou contínuo. Apesar disso, em sistemas leiteiros, o uso de piqueteamento está consolidado.
Dentro deste escopo, a escolha por construir 10 ou 60 piquetes implica diferentes tempos de ocupação dos mesmos. Com 60 unidades, os animais podem entrar em uma nova área depois de cada ordenha, o que é facilitado em função da rotina diária das propriedades leiteiras (duas ordenhas por dia). O ponto mais importante: seu sistema está “rodando” bem? Você domina o manejo do pasto com o número de piquetes atual da propriedade? Excelente. Você está no topo da pirâmide de prioridades dos sistemas de produção à base de pasto. Entretanto, este é o único modelo?
Imagine um cenário com apenas 10 piquetes, uma rotação ordinária implicaria no uso de um piquete por cerca de dois ou três dias… Este tipo de sistema é muito incomum em sistemas leiteiros, mas é pior? O que a ciência mostra? Vou me restringir a trabalhos realizados em países onde a produção de leite é majoritariamente à base de pasto.
No Uruguai, dois experimentos recentes foram realizados para avaliar este tema. Menegazzi et al. (2024) avaliaram o efeito de duas frequências de alocação de novos piquetes (1 vs. 7 dias), ou seja, um grupo de cinco vacas teve acesso a 1 piquete por dia enquanto um segundo grupo, também de 5 vacas, permaneceu no mesmo piquete por 7 dias. Em ambos os casos, o ajuste do tamanho do piquete foi realizado para permitir uma oferta de forragem adequada a fim de respeitar a altura de saída dos animais do piquete, ou seja, a altura residual da forragem é a mesma no piquete com 1 dia de ocupação comparada ao piquete com ocupação por 7 dias. As espécies da área experimental eram festuca, cornichão e trevo branco (todas as espécies C3). Os resultados de produção de leite (kg/dia), tempo em pastejo (min/dia) e altura média de saída do pasto (cm) foram iguais entre os tratamentos.
Para além das condições experimentais, um resumo publicado recentemente (Sokol et al., 2025) avaliou uma estratégia semelhante em condições de fazenda. Ao todo, 540 vacas no terço inicial de lactação foram divididas em dois tratamentos, o primeiro com período de ocupação nos piquetes de 1 dia e o segundo com 3 dias. A pastagem era formada por festuca e azevém anual. As estratégias de manejo não alteraram a produção de leite, a taxa de crescimento do pasto e o escore de condição corporal (ECC) dos animais.
Os dois experimentos citados tratam de períodos de ocupação mais longos, o que é incomum na atividade leiteira, mas em relação a intervalos de tempo de utilização menores, o que esperar?
Em um experimento conduzido em pastagem de azevém perene na Irlanda, Pollock et al. (2020, 2022) avaliaram três frequências de alocação dos animais a um novo piquete, intervalos de 12, 24 ou 36 h, ou seja, 2 piquetes por dia (12 h), 1 piquete por dia (24 h) ou um dia e meio por piquete (36 h), conforme ilustrado na Figura 1. Cada grupo continha 30 animais (21 multíparas e 9 primíparas). Resultados: Os autores não verificaram diferenças na produção de leite entre as estratégias de manejo. Além disso, por se tratar de uma área maior, o manejo de alocação a cada 36 h permitiu um pequeno incremento na produção de sólidos (gordura e proteína) das vacas primíparas. Este resultado foi associado a menor competição entre os animais e possivelmente a uma seleção maior do alimento ao pastejo.
Figura 1. Esquema de uso da área por 72h (3 dias). Fonte: Pollock et al. (2020)
E resultados opostos, existem?
Sim! Em um experimento realizado na Holanda, Abrahamse et al. (2008) avaliaram o uso de 1 piquete por dia ou um piquete para 4 dias. A produção de leite foi 0,8 litros/dia menor no tratamento com 4 dias de ocupação (24,5 vs. 23,7 kg de leite/dia). Os autores atribuíram este resultado em função da alteração no comportamento de pastejo e da queda de ingestão de forragem nos últimos dias, uma vez que a “qualidade” da forragem (estrutura e composição química) piorou ao longo do período, pois havia restrição de consumo.
Ao analisar todos estes trabalhos (também poderíamos citar Farrell et al., 2024), é possível perceber um padrão de semelhança na produção de leite ou uma alteração modesta. Essa consistência pode ser associada ao fato de que se as condições de pré- e pós-pastejo são semelhantes, ou seja, com a mesma intensidade de desfolhação, o valor nutricional da forragem consumida deve ser equivalente. Nesse sentido, é válido lembrar que o manejo do pastejo é a ponta da pirâmide de prioridades dos sistemas de produção à base de pasto. Não se esperam grandes diferenças quando a base (recursos físicos e vegetais) é equivalente entre os tratamentos.
Olhando para o que não sabemos: além do padrão de resultados encontrados, que outra característica é similar entre os trabalhos discutidos nesta matéria? Todos utilizaram espécies C3 (espécies de clima frio). Logo, a pergunta é: o mesmo se aplica a pastagens de verão (C4)? Os resultados são escassos (porém ver Granzin et al., 2003 [estudo 1]) por que seria diferente? A dúvida paira.
Para finalizar, ao fazer uma reflexão sobre o sistema de produção de leite à base de pasto, penso que se o modelo pré-concebido de dezenas de piquetes em uma propriedade está funcionando, méritos à equipe (técnico, produtor, funcionário). Entretanto, se o sistema está sendo planejado, utilizar os dados que a ciência mostra (pelo menos para espécies C3), alinhado com menor custo de mão de obra e infraestrutura, pode ser uma opção mais amigável. Além disso, piquetes com área maior podem proporcionar mais flexibilidade em momentos em que a oferta de forragem é maior do que a demanda animal, pois a conservação do excedente, tende a ser operacionalmente mais viável se realizada em áreas maiores.
Referências bibliográficas
ABRAHAMSE, P. A.; DIJKSTRA, J.; VLAEMINCK, B.; TAMMINGA, S. Frequent allocation of rotationally grazed dairy cows changes grazing behavior and improves productivity. Journal of Dairy Science, v. 91, n. 5, p. 2033–2045, 2008. doi: 10.3168/jds.2007-0579.
FARRELL, L. J.; GLASSEY, C.; BURKE, C.; LOPEZ MORENO, Y.; EDWARDS, J. P. Grazing behavior of dairy cows under contrasting pasture allocation frequencies and areas. JDS Communications, v. 5, p. 436–440, 2024. doi: 10.3168/jdsc.2023-0478.
GRANZIN, B. C. The effect of frequency of pasture allocation on the milk production, pasture intake and behaviour of grazing cows in a subtropical environment. Tropical Grasslands, v. 37, p. 84–93, 2003.
MENEGAZZI, G. et al. Effect of pasture allocation frequency on the milk production of Holstein grazing dairy cows. In: Grassland Science in Europe, v. 29 — Why grasslands?, 2024. Leeuwarden, Netherlands. European Grassland Federation. p. 709–710.
PARSONS, A. J.; JOHNSON, R.; HARVEY, A. Use of a model to optimize the interaction between frequency and severity of intermittent defoliation and to provide a fundamental comparison 43 of the continuous and intermittent defoliation of grass. Grass and Forage Science, v. 43, 1988.
POLLOCK, J. G. et al. The effect of frequency of fresh pasture allocation on pasture utilisation and the performance of high yielding dairy cows. Animals, v. 10, n. 2176, 2020. DOI: 10.3390/ani10112176.
POLLOCK, J. G. et al. The effect of frequency of fresh pasture allocation on the feeding behaviour of high production dairy cows. Animals, v. 12, n. 243, 2022. DOI: 10.3390/ani12030243.
SOKOL, M. F.; PAREDES, I.; RODIO, F.; MENEGAZZI, G.; CHILIBROSTE, P. Evaluación productiva del pastoreo en franjas semi diarias vs pastoreo de 3 días de ocupación en un rodeo lechero comercial de Uruguay. Archivos Latinoamericanos de Producción Animal, v. 33, supl. 1, p. 917–918, 2025.
