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Avaliação de capins tropicais para produção de leite com vacas de duplo propósito - Parte I

POR JOSÉ ROBERTO PERES

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/06/2000

5 MIN DE LEITURA

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José Roberto Peres

Nos textos recentemente apresentados nesta seção sobre a nova versão do NRC para gado leiteiro, foi comentado que as novas recomendações para balanceamento de dietas deverão ser feitas na forma de um modelo matemático que, através da definição do animal, dos alimentos, tipo de manejo adotado e condições ambientais prevê, de forma dinâmica, os requerimentos e o desempenho animal, para uma determinada dieta.

O modelo a ser proposto pelo NRC certamente será derivado daquele que há algum tempo vem sendo desenvolvido pela Universidade de Cornell. Este modelo tem sido testado em condições tropicais em vários países, incluindo o Brasil. As avaliações realizadas até o momento parecem levar a crer que o sistema é bastante eficaz na previsão do desempenho das mais diversas categorias animais.

Por permitir a simulação de dietas sob as mais variadas condições, o modelo possibilita a identificação dos possíveis fatores limitantes à produção. Neste sentido foram realizados dois experimentos no México, com o objetivo de avaliar o potencial de 15 espécies forrageiras tropicais para a produção de leite com vacas de duplo propósito. O primeiro experimento será aqui relatado e o segundo no próximo artigo. É importante que se entenda que os resultados foram obtidos através da caracterização das forragens cultivadas nas condições tropicais mas os animais e o ambiente foram simulados. No entanto, as conclusões obtidas são dignas de atenção.

As condições de crescimento das forragens no experimento são muito próximas às aqui encontradas na maioria das regiões, bem como os animais e condições de manejo simulados. Os animais eram vacas 3/4 Holandesas x 1/4 Zebú. A temperatura média e umidade relativa foram respectivamente 25oC e 81%. A pluviosidade média da região é de 1728 mm por ano. Nestas condições, 15 diferentes espécies forrageiras tropicais foram cultivadas em áreas separadas. Elas foram cortadas inicialmente a uma altura de 5 cm para igualamento e depois novamente aos 35 e 42 dias de crescimento, a uma altura de 10 cm. Estas amostras foram utilizadas para caracterizar a composição bromatológica das espécies, para posterior simulação de dietas. A composição e taxas de digestão de 7 destas espécies podem ser vistos na tabela abaixo.

Tabela 1


Definidas as composições das forragens os pesquisadores simularam várias dietas, onde o alimento exclusivo era a pastagem, com consumo de matéria seca mantido constante em 12,7 kg/vaca/dia. Foram variados nas simulações, o teor de fibra detergente neutro (FDN - 60, 70 e 80%), o teor de lignina (4, 6 e 8%), de proteína bruta (4, 8 e 12%) e proteína solúvel (20, 35 e 50%), além das taxas de digestão dos carboidratos não estruturais (6, 16 e 26%/h) e do NDF (3, 6 e 9%/h).

Na simulação, o aumento do NDF de 60 para 80% diminuiu a energia disponível para produção de leite em 35% (a produção cairia da 11,3 para 7,4 kg de leite) enquanto a proteína disponível para produção caiu 51% (queda de produção de 7,7 para 3,8 kg de leite). Isto foi devido à menor quantidade de carboidratos não estruturais, o que limita a fermentação e resulta em menor produção de proteína microbiana no rúmen. De forma semelhante, o aumento do teor de lignina de 4 para 8% (mantido o NDF constante em 70%), reduziu a energia prevista para produção de leite em 22% (produção caindo de 10,5 para 8,2 kg de leite), enquanto a proteína disponível para produção foi reduzida em 32% (produção caindo de 6,8 para 4,6 kg de leite). O motivo destas quedas seria principalmente a menor quantidade de fibra disponível.

Observe que mesmo na melhor das hipóteses, o potencial de produção de leite não ultrapassou 12 kg (no caso da energia disponível) e que a proteína sempre foi o fator mais limitante, sendo o potencial de produção mantido em 8,6 kg/dia, na melhor condição (60% de NDF e 4% de lignina). É de conhecimento geral que o teor de fibra das forragens (especialmente as tropicais) aumenta rapidamente com o envelhecimento da planta, enquanto o teor de proteína cai drasticamente. Sabendo isto, através destas simulações podemos afirmar que o "simples" manejo da pastagem para que os animais recebam alimento da melhor qualidade possível pode significar incrementos de até 50% na produção de leite e que as forragens tropicais, quando utilizadas como único alimento, proporcionam um potencial de produção de leite da ordem de 10 a 12 kg/dia.

Em relação à variação nos teores de proteína bruta (de 4 a 12%) e de proteína solúvel (de 20 a 50%), o que se concluiu foi que com o aumento do teor de PB, o potencial de produção aumentava em 50%, enquanto que o acréscimo nos teores de proteína solúvel diminuíam o potencial de produção, sendo este efeito mais pronunciado nas forragens com maior teor de PB (12%). Pelos resultados obtidos com este modelo, outra boa inferência que pode ser feita é que a suplementação protéica de pastagens tropicais é necessária e deve ser feita através de alimentos com baixa solubilidade protéica (não deve ser feita com uréia, por exemplo), pois as próprias forragens já contém proteína solúvel suficiente.

A taxa de digestão dos carboidratos não estruturais não influenciou a produção prevista em função da energia disponível mas na medida que esta taxa aumentou de 6 para 26% a produção prevista em função da proteína disponível aumentou em mais de 50%. Isto se explica pela maior fermentação ruminal e conseqüente aumento na quantidade de proteína microbiana. O modelo se apresentou bastante sensível a alterações na taxa de degradação no NDF, com aumentos na produção potencial de mais de 50% no que se refere à energia disponível e de mais de 100% no que se refere à proteína disponível. Estes aumentos são resultado da maior degradação de carboidratos estruturais no rúmen. Novamente este último dado denota a importância da qualidade da fibra das forragens, que está intimamente ligada a sua fase de desenvolvimento, devendo ser colocado todo esforço possível no sentido de se fornecer aos animais forragem de qualidade.

No próximo texto serão apresentados os resultados da simulação com forragens com e sem adubação.

Comentário do autor: As condições deste experimento são similares às aqui encontradas e portanto os resultados podem ser admitidos como verdadeiros nas nossas condições. Algumas observações que podem ser feitas são que cada espécie possui um ciclo fisiológico próprio e portanto seu corte deve ser feito em idades cronológicas diferentes para que apresentem a melhor composição bromatológica possível. Neste experimento o corte foi realizado em idade fixa para todas as espécies. Da mesma forma a altura ideal de corte é diferente para cada espécie; o capim colonião, por exemplo, por possuir mais talos, certamente possui maior teor de fibra que uma brachiária, numa altura de corte fixa em 10 cm. O manejo diferenciado de cada espécie poderia portanto alterar estes resultados. Por último, numa condição de pastagem, há sempre a possibilidade de seleção, o que permite eventualmente um desempenho um pouco superior aos simulados. Todavia, embora obtidos através de simulação os dados coincidem com o que se observa na prática, o que indica precisão na simulação e nos leva a considerar possíveis soluções para os problemas sugeridos pelo modelo.

fonte: Lagunes, F.I.J e colaboradores, 1999. JDS 82(10):2136-2145.

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