Ao longo de mais de 15 anos atuando diretamente na cadeia produtiva do leite, acompanhei de perto
produtores, cooperativas e indústrias na jornada da qualidade, desde o início da regulamentação da
Instrução Normativa nº 51 (IN 51) até a atual Instrução Normativa nº 77 (IN 77). Apesar das mudanças ao longo do tempo, alguns pontos seguem muito claros.
Um deles é que assistência técnica, sozinha, não sustenta programas de qualidade do leite. Ela é
fundamental, mas precisa caminhar junto com incentivos financeiros bem estruturados para que o produtor realmente responda às exigências do mercado. Participei de diversos programas de qualidade que começaram com boas intenções, mas não avançaram.
Em uma dessas experiências, durante uma conversa com o presidente de uma cooperativa onde trabalhei, discutíamos ajustes nas bonificações por qualidade e volume. Ele foi direto: “Precisamos saber quais faixas de produção realmente respondem ao estímulo e quais não respondem”. Essa frase ficou marcada.
O mesmo raciocínio vale para a qualidade do leite. Faixas de bonificação por CPP (Contagem Padrão em
Placas) e CCS (Contagem de Células Somáticas) só geram resposta positiva quando o incentivo financeiro é relevante. Quando o prêmio é baixo, o produtor não consegue justificar o investimento em manejo, nutrição, rotina de ordenha e infraestrutura. Por outro lado, penalizações claras para leite fora de padrão também têm efeito, desde que sejam previsíveis e bem comunicadas.
O mercado lácteo está cada vez mais exigente, e programas de qualidade precisam ser claros, mensuráveis e acompanhados de perto. O monitoramento contínuo dos resultados, aliado a uma assistência técnica focada em solução prática no campo, tende a gerar avanços consistentes. Além disso, laticínios que adotam uma política de qualidade clara e bem definida evitam desperdício de
recursos. Quando as regras são objetivas, com faixas de bonificação e penalização bem ajustadas, o
investimento feito retorna em forma de melhoria real do leite captado, e não apenas como custo adicional.
Esse alinhamento permite direcionar melhor os esforços da indústria, reduzir retrabalhos e construir um
posicionamento estratégico mais sólido no mercado lácteo. Em um mercado volátil como o do leite, política leiteira bem definida, planejada e com estímulos corretos faz diferença. Produtor responde a sinal econômico. Ignorar isso é repetir erros que a cadeia já conhece há décadas.
No próximo artigo, vamos aprofundar como estruturar faixas de bonificação que realmente funcionam na
prática e evitam desperdício de recursos pelas indústrias e cooperativas.