Por que a qualidade do leite brasileiro ainda está longe dos líderes globais?

A pesquisa Quem Produz o Leite Brasileiro 2025 mostra que o país começa a evoluir na composição do leite, mas ainda está distante dos padrões de qualidade dos principais países produtores. O desafio agora é transformar qualidade em vantagem competitiva.

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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O leite brasileiro, historicamente avaliado por volume, enfrenta desafios em qualidade. Embora haja programas para pagamento por qualidade, sua eficácia é limitada. A pesquisa "Quem Produz o Leite Brasileiro 2025" revela que a contagem bacteriana média está abaixo do limite legal, mas a contagem de células somáticas tende a aumentar. Comparado a países como EUA e Argentina, o Brasil ainda apresenta índices de qualidade inferiores. A falta de incentivos financeiros compromete investimentos em melhorias, destacando a necessidade de uma mudança de mentalidade que priorize qualidade e valor.

Durante décadas, o leite brasileiro foi medido em litros. A prioridade era encher o tanque e não necessariamente produzir um leite de alta qualidade, de maneira que o modelo de precificação vigente sempre privilegiou o volume, não o valor. Embora programas de pagamento por qualidade tenham surgido, sua abrangência ainda é limitada, marcada por forte variação regional e baixa previsibilidade. Assim, enquanto a produção nacional cresceu de forma consistente, os avanços em qualidade foram lentos e desiguais. Hoje, esse modelo se mostra insuficiente: com o aumento da concentração da produção, o setor precisa evoluir para um sistema que reconheça e estimule a melhoria dos indicadores de qualidade. 

A pesquisa Quem Produz o Leite Brasileiro 2025, que reúne dados de 85 laticínios e cooperativas responsáveis por 36% da captação formal do país, mostra que essa transformação começou, mas o ponto de partida ainda está longe dos padrões dos principais países produtores. 

Gráfico 1. Evolução dos parâmetros de qualidade (CBT, CCS, gordura e proteína) das empresas recorrentes desde 2023 no Quem Produz o Leite Brasileiro? 

 Gráfico 1, Elemento de gráfico
Fonte: Quem Produz o Leite Brasileiro 2025 

 

Nos resultados da pesquisa deste ano, observa-se que a contagem bacteriana total (CBT) média permaneceu abaixo do limite estabelecido pela legislação vigente (300 mil UFC/mL), mas apresentou variações ao longo das edições, uma vez que esse indicador sofre forte influência de fatores externos, como clima e manejo de ordenha. Já a contagem de células somáticas (CCS), embora ainda dentro do limite máximo permitido (500 mil células/mL), segue uma tendência de alta e se aproxima do valor máximo aceito, sinalizando a necessidade de maior atenção à saúde do úbere e ao controle de mastite.

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Quanto à composição, os teores médios de gordura e proteína mostraram leve avanço em relação ao ano anterior, porém sem um padrão consistente de crescimento. Apesar da melhora gradual, esses índices permanecem abaixo dos níveis observados em outros países líderes: 

Gráfico 2. Comparativo dos indicadores de qualidade e composição do leite entre Brasil, EUA e Argentina – de 2023 a 2025 

CCS e sólidos: BR, EUA e ARG
Fonte: Brasil – Quem Produz o Leite Brasileiro 2025; EUA – USDA; Argentina – OCLA 
*Dados parciais de 2025 

 

Ao comparar o desempenho brasileiro com o de outros grandes produtores, nota-se que a CCS média é um dos fatores de maior atenção (439 mil células/mL) ainda está acima dos níveis observados nos Estados Unidos (187 mil) e Argentina (365 mil). Essa diferença reflete não apenas o estágio de desenvolvimento do setor, mas também as exigências distintas de cada legislação: enquanto o Brasil adota limite máximo de 500 mil células/mL, nos Estados Unidos e Argentina esse valor é de 400 mil. Ou seja, os países que hoje apresentam indicadores mais favoráveis também trabalham sob normas mais rigorosas, fato que estimula avanços em manejo, genética e controle sanitário. 

Na composição, o leite brasileiro apresentou teor médio de sólidos (%gordura + %proteína) de 7,10% em 2025, praticamente estável em relação ao ano anterior, mas ainda abaixo dos níveis observados em países como Estados Unidos (7,57%) e Argentina (7,34%). Essa diferença reflete fatores como genética do rebanho, dieta e sistema de produção, e mostra que, apesar de avanços graduais, ainda há um espaço relevante para melhoria na qualidade e no valor industrial do leite nacional

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A ausência de estímulos consistentes explica boa parte do atraso brasileiro nos indicadores de qualidade. Muitos produtores ainda não percebem um retorno financeiro que justifique os investimentos necessários em manejo sanitário, conforto e nutrição — práticas fundamentais para reduzir a CCS e elevar os sólidos. Essa desigualdade tem impactos profundos. Leite com altos níveis de CCS e CBT compromete a conservação, reduz o rendimento industrial e eleva os custos na fabricação de queijos e outros derivados. Da mesma forma, teores mais baixos de gordura e proteína limitam o potencial de valorização do produto. Em outras palavras, um leite de menor qualidade não apenas vale menos — ele rende menos. 

Melhorar a qualidade do leite, portanto, não é apenas uma questão sanitária, mas um investimento estratégico. A elevação dos padrões de qualidade amplia o rendimento industrial, reduz perdas e agrega valor aos derivados. O Brasil já demonstrou sua capacidade de crescer em volume e eficiência; agora, o desafio é elevar a qualidade média nacional a um novo patamar, capaz de competir globalmente e fortalecer a indústria local. 

Isso exige uma mudança de mentalidade: 

  • Da quantidade para a qualidade; 
  • Do incentivo pontual para um sistema permanente de remuneração por qualidade; 
  • Do custo para o investimento. 

 

Para quem deseja acompanhar a evolução da qualidade do leite nas principais regiões produtoras do país — incluindo teores de gordura, proteína, CCS e CBT — o MAPLeite oferece dados detalhados e atualizados, permitindo comparar realidades regionais e identificar oportunidades de melhoria. Garanta o seu acesso aqui! 

Referências bibliográficas

Ministerio de Agricultura, Ganadería y Pesca. Código Alimentario Argentino, Capítulo VIII – Leche y productos lácteos. Disponível em: https://alimentosargentinos.magyp.gob.ar/contenido/marco/CAA/Capitulo_08.htm

U.S. Department of Agriculture. Determining U.S. Milk Quality Using Bulk-Tank Somatic Cell Counts. USDA-APHIS/AMS, 2018. Disponível em: https://www.aphis.usda.gov/sites/default/files/btscc_2017infosheet.pdf 

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Material escrito por:

Julia Nunes Ribeiro

Julia Nunes Ribeiro

Médica Veterinária pela FMVZ-USP e Analista de Mercado Jr. na MilkPoint Ventures.

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