Um sinal desse movimento aparece no Google Trends. O interesse pelo termo “doce de leite zero açúcar” vem crescendo de forma consistente nos últimos anos e, especialmente a partir de 2024, passou a operar em um patamar bem mais elevado. Em 2025 e 2026, os picos de interesse se tornaram ainda mais frequentes, chegando ao maior nível observado no período analisado.
O movimento conversa diretamente com uma transformação mais ampla na indústria de alimentos: a saudabilidade está deixando de significar apenas abrir mão do prazer. Para categorias tradicionalmente associadas à indulgência, como o doce de leite, a oportunidade está justamente em combinar atributos que antes pareciam distantes: sabor, textura e memória afetiva de um lado; redução ou ausência de açúcar do outro.
Gráfico 1: Evolução do interesse por “doce de leite zero açúcar” nos últimos 5 anos. Índice relativo de buscas no Google Trends no período apresentado. O valor 100 representa o pico de interesse observado na série.
A escala do Google Trends é relativa: 100 representa o pico de interesse pelo termo no período analisado, e não o número absoluto de buscas. Fonte: Google Trends, adaptado pela Equipe MilkPoint.
E o mercado já está respondendo...
Em 2026, o Laticínios Viçosa lançou uma versão de doce de leite zero açúcar e zero lactose, apresentada como uma alternativa para consumidores que querem reduzir a ingestão de açúcares sem abandonar características como sabor e cremosidade. A Tirol também entrou no movimento com o pré-lançamento de um doce de leite zero açúcar e zero lactose, ampliando seu portfólio voltado à saudabilidade.
Já o Laticínios Sérvulo, responsável pelo Doce de Leite Senador, trabalha com uma linha que inclui a versão duplo zero, ao lado de sabores que ampliam as possibilidades de consumo da marca.
O interessante é que não se trata simplesmente de retirar o açúcar de uma receita. Em uma categoria tão ligada ao prazer, o desafio tecnológico e mercadológico é preservar aquilo que faz o consumidor querer comer doce de leite em primeiro lugar: a cremosidade, o sabor caramelizado, a textura e a sensação de indulgência.
Por isso, talvez o dado mais interessante do Google Trends não esteja em um único pico, mas na mudança de comportamento da curva. O que antes aparecia como um interesse praticamente residual passou a ganhar espaço e, mais recentemente, a alcançar patamares muito superiores.
Para a indústria láctea, vale ficar de olho: o próximo espaço de crescimento pode estar justamente em produtos que não pedem ao consumidor que escolha entre prazer e novos hábitos de alimentação — mas tentam entregar os dois na mesma colher.
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