Essas partículas podem originar-se primariamente, quando produzidas intencionalmente em tamanhos microscópicos, ou secundariamente, pela fragmentação progressiva de resíduos plásticos descartados no ambiente. Já foram identificados no ar, na água e em alimentos variados, além de detectados em tecidos humanos, como placenta e leite materno. Estudos indicam que sua exposição pode desencadear processos inflamatórios, estresse oxidativo, disbiose intestinal, apoptose celular e possíveis efeitos carcinogênicos, tornando sua presença na cadeia alimentar um motivo de crescente preocupação.
A principal rota de formação desses contaminantes está associada ao descarte inadequado de resíduos plásticos, que se fragmentam progressivamente em micro e nanoplásticos. No contexto alimentar, essas partículas podem ingressar desde a produção primária, por meio da água, da ração utilizada na alimentação animal, do ambiente, até etapas de processamento, higienização, armazenamento e distribuição dos produtos. Nesta senda, o leite e seus derivados, amplamente consumidos e processado em múltiplas etapas, tornam-se especialmente suscetíveis, podendo atuar como importante veículo de exposição humana.
Apesar da relevância do tema para a segurança dos alimentos, ainda há poucos estudos dedicados especificamente a esses produtos, e não existem métodos analíticos oficialmente padronizados para detecção de microplásticos nesta matriz. A ausência de protocolos oficiais dificulta comparações entre resultados e limita avanços regulatórios.
As fontes de contaminação ao longo da cadeia produtiva são diversas. Na fase primária, a água de dessedentação, a ração e o ambiente podem conter partículas plásticas previamente dispersas no ecossistema. Durante o processamento industrial, o desgaste natural de mangueiras, tubulações, anéis de vedação, filtros e componentes plásticos de equipamentos pode liberar microplásticos para o produto. Fibras sintéticas provenientes de vestimentas e EPIs, bem como a água utilizada em procedimentos de higienização, também representam pontos críticos.
Após o envase, embalagens plásticas podem liberar partículas por abrasão, aquecimento, radiação UV ou tempos prolongados de armazenamento. Entre os polímeros mais encontrados nesse tipo de produto estão polietileno (PE), polipropileno (PP), PET, PVC, poliestireno (PS), poliéster (PES), poliuretano (PU) e PTFE.
A identificação de microplásticos em leite e derivados depende de processos analíticos cuidadosamente controlados. Geralmente, inicia-se pela digestão da matéria orgânica utilizando soluções como KOH 5M a 50 °C por 48 horas, preservando a integridade dos polímeros. O material é então filtrado, seco e analisado. Salienta-se que digestões excessivamente agressivas podem danificar os polímeros, inviabilizando sua identificação, o que reforça a necessidade de padronização internacional.
Entre as técnicas mais utilizadas estão o Micro-FTIR, que identifica polímeros pela sua assinatura de absorção infravermelha; a pirólise acoplada à cromatografia gasosa e espectrometria de massas (Py-GC/MS), que detecta a composição dos polímeros a partir de seus fragmentos térmicos; e a microscopia óptica ou fluorescente, empregada para caracterizar forma, cor e tamanho das partículas.
A presença de micro e nanoplásticos no leite configura um desafio multidimensional que abrange desde a contaminação ambiental até as etapas de processamento, contato com materiais e embalagens, além de implicações diretas para a saúde pública e para a definição de marcos regulatórios. Nesse cenário, o monitoramento preventivo torna-se indispensável.
Investimentos em tecnologias analíticas mais sensíveis, capacitação técnica, revisão contínua de processos industriais, aprimoramento dos materiais utilizados na cadeia produtiva e desenvolvimento de embalagens mais estáveis são estratégias centrais para mitigar fontes evitáveis de contaminação. Paralelamente, é urgente avançar na padronização metodológica e na construção de instrumentos regulatórios, permitindo resultados comparáveis entre estudos e ações mais assertivas por parte das autoridades sanitárias e do setor produtivo.
Assim, garantir a segurança do leite frente aos desafios impostos pelos micro e nanoplásticos exige uma abordagem integrada, baseada em vigilância contínua, inovação tecnológica e fortalecimento da capacidade técnica ao longo de toda a cadeia láctea. Esse movimento é essencial tanto para a proteção do consumidor quanto para a manutenção da qualidade e da competitividade dos produtos lácteos no cenário atual.
Fontes consultadas
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