Desde o fim de fevereiro, ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã intensificaram a tensão no Oriente Médio, levando autoridades, inclusive em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, a orientarem a população a permanecer em ambientes fechados diante de ataques aéreos e interceptação de mísseis.
Ao menos uma morte em área residencial foi registrada nos Emirados, enquanto no Irã as vítimas ultrapassaram 780 e há registro de seis baixas militares dos EUA. O Aeroporto Internacional de Dubai suspendeu voos por tempo indeterminado e, em 2 de março, a alta do petróleo e a volatilidade nos mercados acionários ampliaram preocupações sobre possíveis impactos econômicos globais.
Apesar disso, autoridades dos Emirados continuaram a afirmar que o estoque local de alimentos permanece estável, pedindo à população que evite pânico ou compras excessivas de mantimentos.
“Em meio ao tumulto geopolítico na região, o ministério da economia e turismo confirma que as commodities alimentares essenciais no país estão disponíveis em quantidades suficientes nos mercados e que as cadeias de abastecimento continuam ininterruptas”, disse o Ministério em comunicado oficial. O país também afirmou que suas reservas estratégicas de bens essenciais são amplas e diversificadas, garantindo suprimento por períodos prolongados.
No entanto, dúvidas permanecem sobre por quanto tempo essa estabilidade pode ser mantida, não apenas nos Emirados, mas em toda a região, especialmente considerando que muitos países do Oriente Médio importam entre 80% e 90% de sua alimentação.
Embora muitos governos regionais tenham trabalhado para aumentar a autossuficiência alimentar, essa estratégia leva tempo para amadurecer, e atualmente as importações continuam sendo cruciais para a segurança alimentar, o que torna as cadeias globais de abastecimento fundamentais.
Com o conflito intensificando-se e sem sinais de recuo por parte do Presidente dos EUA, Donald Trump, e do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o Irã tem retaliado com ataques em outros países do Oriente Médio onde há presença militar dos EUA, incluindo Kuwait, Arábia Saudita, Emirados, Omã, Qatar e Bahrein, desorganizando rotas aéreas e marítimas na região.
Riscos para o leite
Por importar grande parte dos produtos lácteos, a queda de demanda no Oriente Médio em decorrência dos conflitos pode impactar a indústria da Nova Zelândia.
O país exporta 90% de sua produção de lácteos e, segundo o ministério de assuntos exteriores e comércios do país, as exportações de lácteos na Nova Zelândia movimentam cerca de 1,07 bilhão de dólares anualmente.
A Fonterra, um dos mais importantes exportadores de lácteos para o Oriente Médio, divulgou um pronunciamento onde afirma que ainda é muito cedo para determinar potenciais impactos do conflito na companhia: “somos habituados a navegarmos em cenários de volatilidade geopolítica e comercial com disrupções na cadeia de distribuição” e que “a situação ainda é muito imprevisível e vários cenários ainda podem se concretizar com o tempo.”
Arroz, carne e chá também estão expostos a riscos
Cerca de 25% do arroz basmati exportado pela Índia, equivalente a US$1,2 bilhão, tinha como destino o Irã, e outros 20% o Iraque, com embarques praticamente interrompidos e riscos logísticos concentrados no Estreito de Hormuz.
No mercado de carnes, as exportações de cordeiro da Austrália e da Nova Zelândia foram suspensas ou redirecionadas, diante da dependência da mesma rota marítima. A New Zealand Meat Industry Association também afirmou que quase todas as exportações de carne neozelandesa para o Oriente Médio passam pelo Estreito de Hormuz, deixando milhões de dólares em produtos em risco.
Mercados no Oriente Médio têm uma forte cultura de consumo de chá, e países como Emirados, Iraque, Irã e Arábia Saudita estão entre os maiores importadores dessa bebida da Índia, Sri Lanka, China e Quênia. Isso tem gerado preocupação entre os exportadores, que temem quedas de demanda e excesso de oferta se o conflito persistir.
Panorama futuro
Além de todas essas questões, existe a possibilidade real de que o abastecimento de petróleo seja afetado, pois cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto dependem do Estreito de Hormuz para o trânsito. Interrupções nessa rota podem rapidamente influenciar preços não apenas no setor de energia, mas em toda a cadeia logística, incluindo alimentos e bebidas.
Analistas esperam que o conflito seja limitado e se resolva rapidamente. Um economista chefe do AMP Bank estimou em cerca de 60% a probabilidade desse cenário ocorrer. Segundo ele, isso significaria que a guerra se manteria restrita e terminaria em pouco tempo, possivelmente com uma declaração de vitória dos EUA.
Por outro lado, há cerca de 40% de chance de que o conflito se prolongue, causando disrupções substanciais nas cadeias de abastecimento globais, exigindo maior envolvimento militar e repercutindo negativamente nos mercados de petróleo e alimentos.
Ainda é cedo para saber qual cenário prevalecerá, e a situação continua altamente imprevisível, mas, como a própria Fonterra afirmou, maiores preços de petróleo e combustíveis provavelmente afetariam o setor global de alimentos e bebidas de forma negativa.
As informações são do Dairy Reporter, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.
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