Qualificação e retenção de mão de obra representam desafio no trabalho rural atual

Mesmo com recorde de ocupação e avanço tecnológico, o agronegócio brasileiro enfrenta dificuldades crescentes para contratar e reter trabalhadores no campo. A escassez de mão de obra, marcada pela alta rotatividade e pelo déficit de qualificação técnica, pressiona custos, reduz a produtividade e acende um alerta para a oferta de alimentos no médio prazo.

Publicado por: MilkPoint

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O agro brasileiro está vivendo uma contradição: por um lado, temos tecnologia, mercado e demanda; por outro, a pergunta é sempre a mesma: “vocês também estão tendo dificuldade em encontrar mão de obra?”. O fato é que está faltando gente no campo.

Mas onde estão as pessoas? São duas situações principais. Primeiro, alguns trabalhadores resistem à carteira assinada por medo de perder benefícios sociais, o que gera um impasse: o produtor quer contratar, oferece estrutura, salário e oportunidade, mas enfrenta dificuldades para formalizar o vínculo.

No fim, todo mundo perde. O trabalhador abre mão de direitos e da estabilidade no longo prazo; o produtor sofre com a alta rotatividade, a dificuldade de manter uma equipe fixa e a consequente queda na produtividade.

A escassez de qualificação técnica

Além disso, existe um apagão de mão de obra qualificada. Faltam operadores, auxiliares administrativos, técnicos e gestores. Como resultado, os salários no setor elevam-se acima da média nacional. Ou seja: não é apenas falta de pessoas, é falta de gente preparada e disponível.

A situação é parte de um quadro mais amplo de escassez de profissionais no Brasil, observada em muitos setores da economia, refletindo um mercado de trabalho com menos candidatos disponíveis. E isso não fica restrito ao ambiente “da porteira para dentro”.

Menos produtividade significa custo maior. O custo elevado no campo, inevitavelmente, pressiona o preço dos alimentos, impactando toda a cadeia, inclusive o consumidor final.

Tecnologia e a necessidade de novos perfis

Esse cenário pressiona custos, reduz a eficiência e pode comprometer a oferta de alimentos no médio prazo. O setor do agronegócio avançou amplamente no uso de tecnologia, o que resulta na necessidade urgente de investimento na formação destes profissionais.

Atualmente, existe uma constante necessidade de supervisão e retrabalho para correção de erros. Esta gestão intensiva reduz a autonomia, a produtividade e a rentabilidade do negócio.

Recordes de ocupação e mudanças demográficas

Segundo o Boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro, publicação trimestral elaborada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a População Ocupada (PO) no agronegócio atingiu um novo recorde no terceiro trimestre de 2025, totalizando 28,58 milhões de trabalhadores.

Este volume representa 26,35% do total de empregos do país no período, participação superior à observada no terceiro trimestre de 2024 (26,15%) e no segundo trimestre de 2025 (26,04%). Este é o maior valor da série histórica iniciada em 2012. Por outro lado, 87% da população brasileira vive em áreas urbanas, o que diminui a disponibilidade de pessoas para o trabalho rural.

O novo perfil do trabalhador rural

Dados do Cepea indicam o crescimento da participação de trabalhadores com ensino médio e superior no setor, enquanto diminui a presença de pessoas com menor escolaridade. Isso demonstra que o perfil profissional do campo está mudando drasticamente.

De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), é necessária uma ação ampla que resulte na melhora da infraestrutura, conectividade, organização dos processos produtivos e das jornadas de trabalho.

O agro é feito por pessoas, e a solução passa por três frentes: qualificação contínua, modernização das relações de trabalho no campo e alinhamento estratégico entre programas sociais e o estímulo ao emprego formal.

*Artigo de Helen Jacintho, engenheira de alimentos e produtora rural com mais de 25 anos de atuação no agronegócio brasileiro. Integra o Grupo Continental, empresa familiar com operações em cana-de-açúcar, seringueira, soja, milho e pecuária a pasto, confinamento e semiconfinamento. Diretora de Melhoria Contínua, lidera a implementação da filosofia Lean de gestão no campo. Estudou Business for Entrepreneurs na Universidade do Colorado e marketing e carreira no agronegócio. É juíza de morfologia pela ABCZ, fundadora do Grupo Forbes Mulher Agro, conselheira do COSAG/FIESP e reconhecida entre os 100 Mais Influentes do Agronegócio em 2025.

As informações são da Forbes, adaptadas pela equipe Milkpoint. 

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