Enquanto o agronegócio brasileiro é celebrado como motor da economia — moderno, rentável, estratégico — o setor do leite ainda carrega, muitas vezes, a imagem de um negócio difícil, atrasado e condenado a dar errado.
Desde 2018 atuo no mercado lácteo. E algo sempre me chamou atenção: se o fato de atuar no agronegócio é visto como uma enorme oportunidade, e um bom início para um caminho próspero, atuar no leite é visto como “hum... você não está tão bem assim”.
Sou de Juiz de Fora, Zona da Mata mineira, com alguns conhecidos próximos que se aventuraram na produção de leite – sempre com a mesma percepção: negócio difícil e de resultados ruins.
Imerso no setor há 7 anos, entretanto, considero que tenho alguma propriedade para ser enfático: o negócio passa longe, muito longe, de ser ruim. Como qualquer outro, exige eficiência e escala, e definitivamente não basta colocar algumas vaquinhas no pasto, com 2 funcionários, para “entregar” 150 litros de leite/dia para a cooperativa mais próxima e obter bons resultados...
Tenho uma teoria: o que nasceu como uma virtude — o leite como atividade familiar, presente em todos os municípios — acabou nos afastando da construção de um ambiente profissional, competitivo e escalável.
Aliás, corrigindo: os quartis superiores da atividade já operam com excelência: produtividade altíssima, inovação constante e, muitas vezes, lucro por hectare superior ao dos grãos. Mas a média do setor ainda carrega o peso de uma visão limitada — e ultrapassada.
Autoestima
Autoestima, em sua essência, é a percepção — consciente ou não — que uma pessoa, grupo ou setor tem sobre seu próprio valor.
Quando aplicada a um setor como o leite, trata-se da forma como nos enxergamos, como acreditamos que somos vistos pelos outros e como reagimos a isso: com orgulho... ou com vergonha.
Os exemplos em outros setores do agro
É bem fácil, a partir de exemplos, mostrar o quanto temos a autoestima baixa. Estive recentemente no IFAMA, onde ouvi uma discussão otimista sobre algo que, para nós, costuma ser pauta de medo: o impacto das drogas GLP-1 (Ozempic, Mounjaro) no consumo de alimentos.
A conclusão foi clara: alimentos nutritivos e funcionais tendem a ganhar espaço. E o que são os derivados lácteos, senão exatamente isso?
Outros aspectos me chamam muito a atenção: quando as pessoas se referem ao “agro” brasileiro, temos uma imagem de sucesso, correto?! Mas por que não temos em mente um produtor de leite neste contexto? Pensamos nos produtores de grãos, nos pecuaristas de corte... mas não no produtor de leite.
Campanhas como “Agro, a indústria riqueza do Brasil”, ou “Agro é tech. Agro é pop. Agro é tudo” estão aí há anos, certamente contribuíram para a visão dos produtores destas outras cadeias, mas não mudaram em nada a forma como o leite é visto. Nós não nos conectamos ao sucesso de algo que ajudamos a construir. O leite faz parte – e bastante! – do “PIB Agro”, que carrega o Brasil.
Se formos para aspectos mais “culturais” ainda, a reflexão é a mesma: a Agrishow é a maior feira do agronegócio da América Latina, uma das maiores do mundo, movimenta bilhões de reais em negócios, conta com a presença de bancos, fintechs, startups, governo, mídia... quando falamos em Agrishow, pensamos no leite?
Pantanal provavelmente foi a novela da TV Aberta mais falada nos últimos anos. Números estrondosos de audiência, o campo romantizado, o estilo de vida do pecuarista... de corte!
Na música, a mesma coisa... fenômenos como a Ana Castela atraindo multidões pelo Brasil, diversas letras exaltando o estilo de vida do agricultor e do pecuarista. Vocês se lembram de alguma destas músicas que levante a bola do produtor de leite?
A culpa é nossa
A grande verdade é que a culpa é nossa. De quem está no setor do leite e “deu certo”. Nunca buscamos este lugar. Sempre permitimos sermos vistos enquanto “coitados”, e subestimamos o impacto disso em nossos negócios. Talvez até tenhamos acreditado que era bom que fosse desta forma...
Na prática, o impacto é direto: seja por campanhas que fazem sucesso por parte das indústrias responsáveis pelas bebidas vegetais, criticando o setor e o leite enquanto alimento, seja pelo fato de precisarmos de uma quantia enorme de dinheiro para executarmos as transformações necessárias no setor, e praticamente só termos acesso ao capital subsidiado pelo governo, que certamente será insuficiente para tudo o que queremos e precisamos fazer (veja mais: O Leite Brasileiro deve demandar R$58 bilhões em Investimentos nos próximos anos - de onde sairão os recursos? | MilkPoint).
Enquanto MilkPoint, queremos mudar. O nosso propósito passa por fazer do setor lácteo brasileiro o mais bem sucedido do mundo. Seja a partir de eventos como o Milk Pro Summit, que nasceu justamente para “falar com o leite que dá certo”, seja a partir de inciativas como o MilkPoint Capital, que quer mostrar para o setor financeiro que existem projetos de leite que podem valer o investimento. Mas e o restante do setor, estará conosco nessa?!
