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Formulação de rações para vacas leiteiras - Parte 1

Por Junio Cesar Martinez
postado em 22/10/2010

78 comentários
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Frequentemente alguns leitores me solicitam formulação de ração. Em todas as oportunidades que me deixaram mensagem relatando tão somente a produção de leite e breve descrição dos alimentos, a minha resposta foi não. Há profissionais no mercado que adotam essa política, mas não admiro nem sigo essa linha de pensamento. No meu entendimento, para uma formulação simplista não é necessário o auxílio de um especialista na área. Recentemente esse fato novamente aconteceu, e assim, resolvi compilar alguns dados da minha biblioteca pessoal durante minha pós-graduação no Departamento de Zootecnia da ESALQ. O texto a seguir é uma produção minha, com colaboração do Dr. Hugo Imaizumi (ex-colega de turma), enquanto éramos orientados do Professor Dr. Flávio A. Portela Santos.

Este texto objetiva fornecer informações técnicas, esclarecer sobre os passos e informações necessárias para formulação de rações para vacas leiteiras, assim como descrição de metodologias para tal formulação. Reafirmo que esse texto é de cunho informativo, sem pretensão de ensinar detalhadamente como formular ração para bovinos, visto que são necessários anos de estudos em nutrição de ruminantes para estar apto a desempenhar corretamente esta função.

1. Agrupamento de animais e exigências nutricionais

Com o objetivo de estabelecer um programa nutricional para vacas leiteiras, há a necessidade de se agrupar os animais em função das diferentes fases por que passam durante o período entre um parto e outro. Com base nas exigências nutricionais da vaca leiteira, são identificadas 4 fases distintas ao longo da curva de produção:

1) período seco da vaca: em geral 60 dias pré-parto
2) início de lactação: do parto aos 100 dias pós-parto
3) meio de lactação: dos 101 aos 200 dias pós-parto
4) final de lactação: dos 201 aos 305 dias pós-parto

1.1. Período seco

Durante os primeiros 40 dias do período seco, as exigências nutricionais da vaca podem ser supridas sem grandes dificuldades, pois o animal consegue ingerir quantidade adequada de alimento. Vacas que na secagem apresentarem condição corporal ao redor de 3,5 (escala de 1 a 5), podem ser alimentadas apenas com volumoso de boa qualidade e mistura mineral. Vacas com condição corporal abaixo de 3,5 podem necessitar de suplementação com concentrado.

Na fase final do período seco, nas últimas 3 semanas que antecedem o parto, a vaca entra no período de transição, que se estende até 3 semanas pós-parto. Nessa fase pré-parto, o crescimento acelerado do feto e o início da síntese de colostro aumentam significativamente a exigência nutricional da vaca. Este fato é agravado pela queda no consumo de alimento por parte da vaca nesta fase final. Estes fatos implicam na necessidade de se aumentar as densidades energéticas, protéicas e de minerais e vitaminas das rações de vacas leiteiras nas 3 semanas que antecedem o parto.

O manejo de vacas leiteiras nas 3 últimas semanas pré-parto, têm grande impacto na produção de leite, reprodução e saúde da vaca durante a futura lactação. Vacas que parem magras, com condição corporal abaixo de 3,5, não têm reservas de energia suficientes para apresentar pico de lactação alto. Vacas que parem com excesso de condição corporal, especialmente com escore acima de 4,0 são mais propensas a apresentarem distúrbios metabólicos após o parto, baixa produção de leite e perda excessiva de condição corporal após o parto.

1.2. Início de lactação (1 a 100 dias pós-parto)

Esta é a fase de maior produção de leite da vaca. A produção é crescente até aproximadamente 60 dias pós-parto, quando a vaca atinge o pico de lactação. As 3 primeiras semanas após o parto são as mais críticas para a vaca leiteira. Muitos dos problemas que acometem vacas leiteiras ocorrem durante este período e estão normalmente ligados à mudanças drásticas de metabolismo, alterações hormonais, aumento na demanda de nutrientes, depressão da imunidade, estresse do parto e início da lactação. Todos estes fatores podem ser exacerbados quando o manejo pré-parto é inadequado.

O grupo de vacas em início de lactação é o que recebe a alimentação com maior concentração de nutrientes, ou seja, com maior teor de concentrado. Em função da mudança drástica em apenas 60 dias, do final do período seco ao pico de lactação, é necessário que o aumento na dose de concentrado seja gradativo nas primeiras semanas pós-parto.

O consumo de alimento é crescente pós-parto, porém abaixo do necessário para suprir as exigências da vaca até o pico de lactação. O pico de consumo de MS só ocorre 30 a 60 dias após o pico de lactação. Isto resulta na perda de condição corporal da vaca nos primeiros 30 a 60 dias pós-parto. Os principais objetivos ao se formular rações para vacas em início de lactação são maximizar o pico de lactação e minimizar a perda de condição corporal pós-parto.

1.3. Meio de lactação (101 a 200 dias pós-parto)

Nesta fase, a vaca atinge o pico de consumo de matéria seca, a produção de leite apesar de ainda ser alta, está em declínio e tem início a reposição de condição corporal. As exigências em energia, proteína, minerais e vitaminas são menores que na fase anterior. Ajustes devem ser feitos na ração, com redução no teor de concentrado da mesma.

1.4. Final de lactação (201 a 305 dias pós-parto)

Nesta fase a ingestão de nutrientes é bem maior que a demanda, uma vez que a produção está em franco declínio. Esta é a fase de maior reposição da condição corporal da vaca. Excesso de concentrado nesta fase, além de elevar os custos de produção pode favorecer a ocorrência de vacas com condição corporal excessiva, fator predisponente para distúrbios metabólicos pós-parto.

1.5. Vacas primíparas - um grupo a parte

Vacas primíparas em início de lactação são os animais de maior exigência nutricional do rebanho. Entretanto, ocupam posição hierárquica inferior ao das vacas multíparas, que são dominantes em relação as primíparas. Seja em sistemas confinados ou em sistemas em pastagens, é importante agrupar estas vacas separadamente das demais. Em rebanhos que utilizam pastagens, apesar do problema não ser tão intenso durante o pastejo, o fornecimento do concentrado em grupo, pode ser crítico para estas vacas se mantidas juntas com as multíparas. Neste caso, certamente não conseguirão comer a quantidade necessária de concentrado.

2. Ingredientes para a formulação de rações para bovinos

Os alimentos volumosos mais utilizados nos sistemas de produção de leite no Brasil são as pastagens, as silagens de milho, sorgo ou capim e a cana-de-açúcar. Animais mantidos exclusivamente em pastagens tropicais bem manejadas, têm seu potencial de produção de leite limitado em 8 a 14 kg/vaca/dia. As vacas dificilmente conseguem ingerir quantidades de forragem suficiente para produções maiores que as citadas. Quando alimentadas exclusivamente com silagem de milho ou sorgo, o teor baixo de proteína destes alimentos limita a produção a patamares inferiores ao das pastagens tropicais. No caso da cana-de-açúcar as limitações em proteína são tão severas que não permitem sequer a manutenção do animal.

O uso de alimentos concentrados tem por objetivo suprir as deficiências nutricionais das forrageiras e permitir produções elevadas das vacas leiteiras. Os concentrados são na grande maioria compostos por suplementos energéticos, suplementos protéicos e suplementos minerais e vitamínicos.

Tanto os suplementos energéticos quanto os protéicos, contêm energia e proteína, com raras exceções. Os suplementos energéticos são assim chamados por conterem teores altos de energia e teores baixos de proteína. Por outro lado, os suplementos protéicos contêm teores elevados de proteína, podendo também ser ricos em energia.

2.1. Suplementos energéticos

No Brasil os principais suplementos energéticos utilizados nos concentrados de vacas leiteiras são os grãos de cereais como o milho, o sorgo, o milheto e diversos subprodutos como a polpa cítrica, a casca de soja, o farelo de arroz, o farelo de trigo e o farelo de mandioca, dentre outros. Estes ingredientes contêm teores altos de energia, entre 75 a 92% de NDT (%MS), mas são pobres em proteína bruta, com teores normalmente inferiores a 12% (%MS). O farelo de trigo tem 16 a 18% de proteína bruta (%MS).

2.2. Suplementos protéicos

Os principais suplementos protéicos utilizados nos concentrados de bovinos no Brasil são o farelo de soja, o farelo de algodão e a uréia, fonte de nitrogênio não protéico. O farelo de soja tem 47 a 50% de PB e 82% de NDT (%MS). O farelo de algodão tem 38 a 41% de PB e 66 a 75% de NDT (%MS). A uréia é fonte de nitrogênio não protéico e contêm 45% de nitrogênio. Como a proteína tem 16% de nitrogênio, o equivalente protéico da uréia é de 281%, ou seja, cada kg de uréia equivale a 2,81 kg de proteína bruta.

As sementes de oleaginosa como a soja grão e o caroço de algodão são boas fontes de proteína, porém ricas em energia devido ao teor alto de óleo, ao redor de 18% da MS. A soja grão tem de 36 a 40% de PB e 101% de NDT. O caroço de algodão tem ao redor de 24% de PB e 90% de NDT (%MS). O farelo de amendoim é um suplemento protéico com 50 a 52% de PB, com oferta crescente no país. Suplementos com teores médios de PB são o farelo de girassol (30% de PB), o resíduo de cervejaria (20 a 25%) e o farelo glúten de milho -21 (refinasil ou prómil) com 21 a 24% de PB.

2.3. Suplementos minerais e vitamínicos

Os concentrados para vacas leiteiras devem conter núcleo mineral na sua composição. A formulação do núcleo mineral vai depender da exigência do animal e da composição mineral dos alimentos consumidos pelo bovino.

Pastagens são ricas em vitaminas A, D e E, não havendo a necessidade de suplementar os animais. Entretanto, forragens conservadas na forma de silagem ou feno, perdem quantidades grandes dessas vitaminas, principalmente de vitamina A, sendo recomendado suprir essas vitaminas no concentrado.

3. Sistemas de formulação de rações

A maioria dos países desenvolvidos desenvolveu seus próprios modelos de exigência nutricional para bovinos e tabelas com a composição nutricional dos principais alimentos utilizados nas formulações de rações. No Brasil, o modelo mais utilizado é o modelo americano do NRC (2001).

Nos últimos 30 anos, houve evolução considerável no campo do conhecimento da nutrição de ruminantes. O número crescente de estudos na área e a informatização têm permitido o desenvolvimento de programas de formulação cada vez mais precisos.

Alguns modelos iniciais eram simples e apresentavam as exigências das vacas leiteiras em NDT, PB, e minerais e vitaminas. As formulações podiam ser feitas manualmente, com número não muito grande de cálculos a serem efetuados.

Nos modelos atuais, as exigências energéticas são apresentadas em termos de energia líquida de lactação. As exigências protéicas são determinadas para a população microbiana ruminal (proteína degradável no rúmen) e para o bovino (proteína metabolizável). Atualmente, tem havido avanço considerável do conhecimento das exigências em aminoácidos essenciais para vacas leiteiras de alta produção. Os programas atuais também têm evoluído quanto à adequação dos teores de fibra nas rações, com vistas à manutenção de pH ruminal adequado. Do conceito de fibra bruta houve evolução para a adequação das exigências em FDN. Mais importante que o teor total de FDN é a porcentagem de FDN proveniente de forragem na ração, pois esta é fração mais efetiva em estimular a ruminação. Finalmente, estudos têm sido conduzidos com o objetivo de determinar a efetividade da FDN de cada alimento. Diversos modelos já adotam valores de FDN efetiva nas tabelas de composição dos alimentos e trazem exigências dos animais neste quesito.

A utilização de programas de computação é imprescindível quando queremos utilizar estes modelos atuais na sua plenitude.

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Comentários

marcelo erthal pires

Belém - Pará - Produção de leite
postado em 22/10/2010

Felicito o Prof .Junio Martinez, pelo muito oportuno tema que abrage no artigo FORMULAÇÃO DE DIETAS PARA BOVINOS LEITEIROS - PARTE I . meus respeitos marcelo

ALMIR FRANCISCO DE LIMA

Brasília - Distrito Federal - SERVIDOR PÚBLICO
postado em 25/10/2010

Caro professor.
Estou iniciando (muito timidamente) na pecurária leiteira; gostaria de saber se "nas águas" também se utiliza a suplementeção, uma vez que os pastos estão em boas condições.

luis bernardo mendes

pilar do sul - São Paulo - Produção de gado de corte
postado em 28/10/2010

trabalho com gado de corte mas tenho umas vacas de leite para o gasto, muito bom parabens por este artigo.

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