ENTRAR COM FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO

Qual é o melhor método para secagem de vacas leiteiras?

POR MARCOS VEIGA SANTOS

E TIAGO TOMAZI

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 23/05/2017

8
1
Tiago Tomazi*
Marcos Veiga dos Santos


O período seco (PS) é uma fase importante para o ciclo produtivo de vacas leiteiras, pois é considerado um período de “descanso” e renovação para o tecido mamário. Durante o PS as vacas renovam as células secretoras de leite para dar início a uma nova lactação. Além disso, este período proporciona uma oportunidade para a eliminação de casos existentes de mastite subclínica.

Pelo fato do PS ser uma fase não produtiva, a terapia de vaca seca permite o uso de uma maior concentração de antibiótico, sem a necessidade de descarte de leite com resíduos. No entanto, além do uso de antibióticos na secagem, outros fatores podem influenciar o risco da vaca ter mastite durante o período seco e início de lactação. Por exemplo, o tipo de antibiótico, o estado imunitário das vacas, e as condições de higiene do ambiente. Estudos relataram que mais de 60% dos casos de novas infecções intramamárias (IIM) identificados no início da lactação foram contraídos durante o PS.

O uso de antimicrobianos em animais de produção, especialmente para fins profiláticos, vêm sendo criticado devido à crescente preocupação com o desenvolvimento de resistência antimicrobiana e seus efeitos sobre a saúde humana. Com isso, a identificação de outras práticas de manejo que reduzam o risco de mastite na secagem, e que permitam a manutenção de bons índices produtivos na lactação seguinte, poderia trazer benefícios para toda cadeia produtiva do leite.

Um dos fatores que influencia a sanidade do úbere na lactação subsequente é o manejo de secagem. Dois métodos são comumente usados para secagem de vacas leiteiras: o abrupto e o intermitente (ou gradual). O método abrupto é feito pela interrupção das ordenhas em um dia específico, com base na data prevista de parto e no total de dias desejado para o período seco (normalmente de 45-60 dias). Já a secagem intermitente, ocorre pela redução da frequência diária de ordenha durante um período determinado, ou até quando a vaca reduzir a produção de leite a um volume desejado. 

Vacas submetidas ao método de secagem intermitente são ordenhadas uma única vez ao dia, por um período inferior a uma semana. Alguns estudos indicam que o uso do método intermitente de secagem permite a redução gradativa da produção de leite da vaca antes da completa interrupção do período de lactação, o que traz benefícios à sanidade da glândula mamária. Vacas submetidas ao método de secagem intermitente apresentaram redução na incidência de IIM durante o período seco e no estágio inicial de lactação quando comparadas com vacas de alta produção submetidas ao método abrupto de secagem. Esse resultado pode estar associado ao fato de que vacas com alta persistência de produção de leite submetidas a secagem abrupta estão mais sujeitas a falhas no fechamento do canal do teto nos estágios iniciais do PS.

A maioria dos estudos que avaliaram o efeito do método de secagem sobre a produção e qualidade do leite foram realizados antes da década de 1950, quando os índices de produtividade eram menores que os atuais. Recentemente, um estudo comparou os dois métodos de secagem (abrupta e intermitente) sobre a produção de leite e CCS de 428 vacas distribuídas em oito rebanhos do estado de Ohio, EUA.

As vacas submetidas à secagem abrupta foram mantidas no regime regular de ordenha da fazenda (2 ou 3 vezes ao dia) até o último dia de lactação; enquanto as vacas do grupo de secagem intermitente foram ordenhadas uma vez ao dia durante a última semana de lactação. Os dados de CCS e produção de leite foram baseados em resultados mensais de controle leiteiro, considerando ao menos um resultado antes da secagem, e com monitoramento das vacas até 120 dias da lactação subsequente. Além disso, amostras de leite foram coletadas para cultura microbiológica no momento da secagem, e até uma semana após o parto. Vacas com período seco <25 ou ≥80 dias foram excluídas do estudo.

Não houve diferença significativa entre os métodos de secagem sobre a frequência de mastite na na secagem e pós-parto. Um total de 39% (76 de 197) das vacas submetidas ao método de secagem intermitente, e 35% (81 de 231) das vacas submetidas ao método abrupto, tiveram ao menos um quarto mamário infectado na secagem. Em relação à avaliação realizada após o parto, 22% (n=43) das vacas do grupo de secagem intermitente, e 23% (n=53) das vacas do grupo de secagem abrupta apresentaram IIM (Figura 1).

Figura 1 – Distribuição da frequência de infecção intramamária (IIM) entre os métodos de secagem (abrupto e intermitente), considerando as culturas microbiológicas realizadas na secagem e logo após o parto. Fonte: Adaptado de Gott et al. (2016).



De forma geral, não houve associação do método de secagem com a produção de leite na lactação subsequente. No entanto, houve um efeito de interação entre o rebanho e o método de secagem, o que sugere que os resultados do método de secagem podem variar de rebanho para rebanho. Além disso, períodos secos mais curtos foram associados com redução da produção de leite na lactação subsequente: vacas com período seco inferior a 45 dias produziram 3,8 Kg/dia de leite a menos que vacas que passaram por um período seco ≥65 dias, e 1,3 Kg a menos que vacas que permaneceram secas por um período de 55-64 dias.

Vacas que foram secadas pelo método abrupto e que passaram por períodos secos mais curtos (<45 dias) também produziram menos leite nos primeiros 120 dias de lactação que vacas submetidas ao mesmo método de secagem, porém com >55 dias de período seco. Da mesma forma, vacas secadas abruptamente e com <45 dias de período seco produziram menos leite que vacas do grupo de secagem intermitente e que tiveram a mesma duração de período seco (Figura 2).

Figura 2 – Produção de leite nos primeiros 120 dias de lactação de vacas previamente submetidas à secagem pelos métodos intermitente (linha sólida) e abrupto (linha tracejada), considerando diferentes categorias de duração de período seco. Fonte: Adaptado de Gott et al. (2016).

secagem das vacas de leite

Da mesma forma que para a produção de leite, não houve diferença entre os métodos de secagem quanto à CCS nos primeiros 120 dias de lactação. No entanto, a produção de leite na secagem foi positivamente associada com o aumento da CCS na lactação subsequente. Ou seja, vacas que apresentaram maior produção de leite na secagem tiveram maior CCS na lactação futura do que vacas com menor produção de leite. Da mesma forma, as vacas que apresentaram alta CCS na secagem também apresentaram maior CCS na lactação seguinte.

Atualmente, o método de secagem abrupta ainda é o mais utilizado em rebanhos leiteiros de alta produção. Nos Estados Unidos, dados recentes demonstraram que 90% dos rebanhos utilizam o método abrupto de secagem, enquanto que apenas 10% utilizam o método intermitente.

A incerteza sobre os efeitos do uso de novas práticas de manejo pode dissuadir os produtores de leite de tentar métodos diferentes de secagem, como por exemplo, o uso do método intermitente. Vacas leiteiras modernas, bem manejadas e de alto valor genético, normalmente apresentam altos índices de produtividade até o final da lactação, o que pode ser um fator de risco para IIM durante o PS e estágios iniciais da lactação futura. Da mesma forma, vacas de alta persistência de lactação têm maior chance de apresentar desconforto após a secagem devido ao aumento da pressão interna na glândula mamária após a interrupção abrupta da ordenha. Portanto, a redução da frequência de ordenha na última semana de lactação por meio do método intermitente de secagem pode reduzir a produção diária de leite das vacas antes da secagem, e consequentemente, melhorar a qualidade do leite na lactação seguinte, bem como o bem-estar das vacas na fase inicial do PS.

Fonte: Gott, et al. J. Dairy Sci. 100:2080–2089. 2016.
*Tiago Tomazi é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Produção Animal da FMVZ/USP e pesquisador do Laboratório Qualileite-FMVZ/USP.

 

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

TIAGO TOMAZI

Médico Veterinário e Doutor em Nutrição e Produção Animal
Pesquisador do Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP

8

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

GABRIEL EDUARDO NIELSEN

EM 03/04/2018

Olá, o método de nao secagem de animais ou secagem com 30dias, (animais direto no pré-parto) pode ser recomendado para a diminuição de ccs de vacas pós parto ?
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/07/2017

Prezada Marina, existem estudos em andamento aqui no Brasil e outros ja concluídos em outros países que indicam que quando a vaca tem CCS <200.000 cel/ml nos últimos 3 meses de lactação (antes da secagem) e não teve histórico de mastite clínica durante este período, seria possível secar a vaca somente com selante (sem o uso de antibiótico de vaca seca). Além disso, é recomendável que seja feita uma cultura dos quartos mamários (individual) para saber se existe ou não infecção intramamária. Quando o resultado for negativo (baixa CCS, sem histórico de mastite clínica e cultura negativa), poderia ser usado somente o selante.

Estes não temos experiência com grande número de vacas come este sistema de secagem, mas na minha opinião, assim que tivermos mais resultados de pesquisa, este poderia ser um sistema para um grupo de fazendas com baixa CCS. Atenciosamente, Marcos Veiga
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/07/2017

Prezada Mariana, não sei se entendi bem a sua dúvida. Uma das opções para reduzir a produção de leite seria por meio da retirada do concentrado da dieta da vaca. Outra opção seria reduzir o número de ordenhas/dia (para o mínimo de uma ordenha/dia), pois com uma menor frequência de ordenha, reduz-se o estímulo para produção de leite. O acúmulo máximo de leite (maior pressão intramamária) ocorrer cerca de 2 dias após a secagem total da vaca, ou seja, com pelo menos uma ordenha ao dia, a pressão intramamária não é máxima.

Atenciosamente, Marcos Veiga
MARINA DE FREITAS HORTA

SETE LAGOAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/07/2017

Minha dúvida se encontra no uso ou não de antibioticoterapia. É possível não usar o intramamário vaca seca?
MARIANA BRANT DRUMOND MAGALHÃES

ITABIRA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 03/07/2017

Parabéns pelo artigo, prof. Marcos.
Uma dúvida, mesmo se a vaca estiver com produção acima de 15 litros na semana da secagem, ainda assim reduzir a frequência de ordenha seria viável? Não seria um risco não ordenhar duas vezes sem a presença de antibiótico?
RAFAEL.

PARANÁ

EM 28/05/2017

Parabéns, excelente artigo.
ELISIO ANTONIO DE OLIVEIRA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/05/2017

Muito bom. Parabéns pelo belíssimo esclarecimento quanto a secagem de vacas.
MARTINHO MELLO DE OLIVEIRA

PARANAÍBA - MATO GROSSO DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/05/2017

Parabéns pela explanaçao Marcos! A vantagem de ter bezerro ao pé favorece a desmama, pois pode fazer de forma intercalada, deixando o bezerro mamar conforme vai diminuindo a produção de leite, quer seja dois dias, cinco dias, vai espaçando até reduzir sobremaneira a produção.