Quem são os (grandes) produtores de leite do Brasil ?

Gostaria brevemente de avaliar agora a questão mais qualitativa e menos quantitativa dos produtores de leite do nosso país. Saiba mais sobre os produtores.

Publicado em: - 7 minutos de leitura

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Dando seqüência ao artigo passado desta coluna, gostaria de retomar a discussão sobre as estatísticas (a falta delas!) e análise do perfil dos produtores de leite do Brasil. Gostaria brevemente de avaliar agora a questão mais qualitativa e menos quantitativa dos produtores de leite do nosso país.

Para começar acho pertinente fazer uma análise crítica das conclusões quase que unânimes de estudiosos do setor que apontam uma concentração da produção de leite nas mãos de um número reduzido de "grandes" produtores, ou seja, com o passar do tempo, um número reduzido de produtores acumula cada vez mais uma grande parcela da produção de leite do Brasil. Para poder analisar essa questão, pesquisei alguns dados sobre distribuição da produção em função da escala de produção por fazenda. Esclareço que juntando várias estatísticas que encontrei, de diferentes fontes, utilizei um método arbitrário e não científico para gerar um quadro único "potencialmente representativo de média nacional". Embora arbitrário e sem valor oficial ou científico acredito que o quadro abaixo retrata de forma relativamente fiel uma boa parte da realidade nacional.



Esse quadro realmente mostra que um grande volume de produção está concentrado nas mãos de um reduzido número de " grandes" produtores enquanto uma legião de microprodutores responde por pequeno volume da produção nacional. Poderíamos grosseiramente dizer que metade dos produtores de leite do Brasil responde por somente cerca de 15% da produção nacional enquanto noutro extremo os 10% maiores produtores produzem 50% do leite do país.

Parece que esse cenário é irrefutável e consensual, mas, no entanto, eu gostaria de analisá-lo sob um outro prisma, questionando inicialmente quem seriam os top 5% produtores considerados "grandes" nestas estatísticas. Friamente podemos dizer apenas que eles produzem mais de 500 litros/dia. E nesse caso, eu levantaria a primeira questão: "um produtor que produz 500 litros/dia deveria ser classificado como grande produtor?" Lógico que isso depende da referência de cada um. Certamente nos EUA esse seria um microprodutor, mas em compensação na Índia ele seria um megaprodutor.



Enfim, gostaria de insistir na análise desse cidadão que poderia ter cerca de 30 vacas em lactação produzindo em média 15 litros de leite/vaca/dia. Esse é o cara que está no topo da pirâmide dos produtores de leite brasileiros e que todos nós estamos chamando de grande produtor. Esse é o perfil de produtor que aumentou no Brasil nos últimos 10 anos e que fez com que a produção se concentrasse cada vez mais nas mãos de um reduzido número de produtores. Talvez a conclusão que podemos chegar é que mesmo os produtores que estão no topo da escala de produção de leite ainda são relativamente pequenos produtores. E quando me refiro a pequenos produtores, já extrapolo por exemplo para a área de terra que esse cidadão possui, para o nível de tecnologia empregado e pela característica da propriedade agrícola. Qual a área que um produtor precisaria para produzir 500 litros/dia? Talvez 10 ha, 20 ou 30 quem sabe, para não ser muito exigente e para ser complacente com um padrão tecnológico e um índice de produtividade não muito elevado. Mas o ponto que eu gostaria de destacar nesta análise é que provavelmente grande parte desses grandes " pequenos" produtores estão calcados numa estrutura familiar de produção, não podendo ser considerados empresários capitalistas rurais ou parte do que se chama agricultura patronal, para ser mais uma vez arbitrário.

Estou levantando esta questão para que pensemos criticamente no perfil do produtor de leite brasileiro, que na minha ótica se caracteriza de cabo a rabo como sendo um produtor baseado numa estrutura familiar de produção e estabelecido numa propriedade rural de pequeno porte, sendo os produtores chamados empresariais ou patronais a exceção no grande universo dos produtores de leite. Além disso, me parece que esse modelo de estrutura familiar de produção é bastante sólido no Brasil. A minha impressão é que a produção leiteira se fortalece e se consolida justamente nas regiões típicas de agricultura familiar como no noroeste do RS, oeste de SC e oeste do PR, por exemplo.

Por outro lado, temos observado uma fragilidade maior justamente em fazendas que apresentam um modelo patronal, que são representadas tipicamente por aquele grande número de rebanhos que aparecem em leilões de liquidação de plantel diariamente na mídia e revistas especializadas, especialmente localizados no estado de SP.

O objetivo aqui definitivamente não é entrar no mérito da questão e nem defender um ou outro modelo, mas apenas refletir sobre o perfil do produtor de leite brasileiro e as suas tendências. Apenas como um exercício lúdico de estatística, se é que é possível ser lúdico com a matéria de estatística, analisei os dados do levantamento Top 100 do MilkPoint (aliás um trabalho extremamente interessante e que vale a pena dar uma olhada). Baseado nos dados tabulados pelo site, teríamos uma média de produção diária dos 100 maiores produtores de leite do Brasil de cerca de 6.500 litros/fazenda/dia, o que até me surpreendeu, pois eu imaginava que não fosse tão alta. Somada a produção de leite desses 100 produtores, nós teríamos algo em torno de 236 milhões de litros/ano, o que corresponde a 1,1% da produção nacional. Se considerarmos que o Brasil tem cerca de 1 milhão de produtores de leite, poderíamos dizer que 0,01% dos produtores produzem 1,1% da produção total do país. Definitivamente, é um fator de concentração bastante alto, mas o impacto efetivo no volume final não é muito grande como se poderia imaginar. Ao fazer esse exercício lúdico, me despertou o interesse de analisar a concentração da terra no Brasil, e indo em busca de dados no INCRA e IBGE, encontrei o seguinte quadro.



Esse quadro, em primeiro lugar, retrata a alta concentração fundiária do nosso país, em que 0,04% dos proprietários possuem mais terra do que 82% dos "pequenos" proprietários somados. O INCRA também aponta que 2% dos proprietários rurais brasileiros detêm quase 60% das terras agricultáveis do país.

Talvez esses números ajudem a explicar em parte o quadro de distribuição dos produtores de leite apresentado no início deste artigo, ou seja, existe uma leva de microprodutores que embora numericamente expressivos representam pouco no volume total produzido, justamente porque são microprodutores, fruto de uma concentração fundiária violenta que temos no nosso país, mais aguda que a grande maioria dos países do mundo. E é por essas e outras que temos que ter cuidado ao fazermos comparações da nossa pecuária leiteira com a de outros países, bem como previsões sobre o setor e sobre o perfil futuro dos nossos produtores.

Ainda explorando os dados do INCRA apresentados acima, gostaria de ressaltar que os mesmos são interessantes para facilitar a compreensão a cerca da existência de um número tão grande de produtores de leite no Brasil e de um grande número de microprodutores que insiste em não desaparecer embora sejam responsáveis cada vez mais por um menor volume da produção total do país (enquanto outros grandes "pequenos" produtores crescem). Considerando que temos cerca de 4,8 milhões de produtores rurais com área de até 10 ha, fica fácil imaginar que uma parcela significativa desses cidadãos tenha optado por " tirar leite" de pelo menos 2, 3 ou 4 vacas todo dia. É uma estratégia para gerar alguma renda, uma estratégia de sobrevivência e não capitalista. Que na cabeça desse cidadão deve ter alguma lógica embora eu não queira entrar aqui mais uma vez no mérito da questão. Apenas acho que tem alguma lógica, porque esse cidadão continua lá, resistindo e produzindo o seu leite.

A propósito dessa lógica, outro dia eu estava lendo um artigo publicado no MilkPoint pelo Prof. Sebastião Teixeira Gomes, por quem tenho grande estima. Nesse artigo, o prof. Sebastião fez uma análise minuciosa comparativa de duas fazendas leiteiras, apresentando os custos totais de produção de cada fazenda, o faturamento e as margens de lucro. Em resumo, uma das fazendas apresentava uma produção média de 247 litros/dia. No final das contas, o lucro por litro de leite produzido era de R$ 0,0335 que gerava um lucro anual para o proprietário de cerca de R$ 3.000,00. Refletindo sobre essa análise, conclui que a lógica para a existência dessa fazenda leiteira podia certamente estar no fato de que a atividade de produzir 247 litros diários gerava uma renda líquida mensal de R$ 250,00, o que se talvez não estivesse satisfazendo plenamente esse sujeito ou essa família, era pelo menos suficiente para mantê-lo produzindo.

Mas enfim, o objetivo desta discussão é apenas alimentar a nossa criatividade e provocar algumas reflexões que nos permitam entender alguns fenômenos não muito lógicos relacionados com a produção de leite no Brasil.
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Material escrito por:

Luis Fernando Laranja da Fonseca

Luis Fernando Laranja da Fonseca

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DANILO DARDANI
DANILO DARDANI

EM 30/07/2018

Na minha modesta opinião, o leite dá lucro em pequena quantidade, como diziam os antigos, poucas vacas, vacas cruzadas, que requerem pequeno trato, e o proprio produtor fazer queijo, ai anima o negocio
Marcus dos Santos Kemp
MARCUS DOS SANTOS KEMP

OUTRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 12/08/2002

Acho que deveríamos pensar em grandes, médios e pequenos tomando por principal parâmetro a renda total anual e o lucro que o produtor conseguisse auferir à sua fazenda leiteira e justifico:

Qual a sobra necessária em recursos financeiros para uma família composta por um casal e dois filhos, que possam manter um padrão de vida decente e digno em nosso país ? Seriam R$ 250,00, 500,00, 1000,00 ou mais reais por mês ?
Apartir desse cálculo é que conseguiriamos classificar em grandes, médios e pequenos produtores HERÓIS brasileiros ? Um forte abraço e até mais ......
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