A falta de estatísticas e, mais do que isso, estatísticas confiáveis, é um problema crônico no Brasil. E logicamente que o setor lácteo não é exceção à regra. Trabalhamos sempre com carência de informações básicas. Não sabemos, por exemplo, quantos produtores de leite existem no país. Para falar a verdade julgo que não temos nem idéia a respeito de quantos produtores de leite existem no Brasil. As estimativas, dependendo da fonte, oscilam entre 1,2 milhão a 800 mil produtores, ou seja, uma margem de erro superior a 30%. E para tornar a situação ainda mais complicada, temos a questão do leite informal, a respeito do qual as informações são ainda mais limitadas, sendo que estima-se que este mercado informal seja responsável por algo em torno de 30 a 40% da produção nacional.
Considerando essa absoluta falta de informações, me parece quase impossível elaborar um planejamento estratégico de médio e longo prazo para o setor de produção de leite que tenha alguma validade ou chance de êxito. Peguemos por exemplo a tarefa de elaborar um plano nacional de qualidade do leite. Um plano desses exigiria o monitoramento individual da qualidade do leite de todos os produtores brasileiros, com a coleta, transporte e análise de tais amostras. Dessa forma, o questionamento básico que surge é a respeito de quantos produtores existem e onde eles se localizam. Tais informações são básicas e preliminares para a elaboração de um projeto de rede de laboratórios de apoio ao programa, laboratórios centrais esses que realizariam as análises do leite em determinadas regiões. Portanto, seria essencial deter a informação a respeito de quantos e aonde se encontram os produtores de forma a planejar a capacidade operacional de cada laboratório e, mais importante que isso, a operação de logística para transporte dessas amostras.
Enfim, este é apenas um breve exemplo das limitações que nos são impostas para o planejamento do setor produtivo em decorrência da falta de informações básicas. Talvez isso aponte que o primeiro passo para o desenvolvimento de qualquer projeto estratégico de longo prazo seja a elaboração de um censo criterioso dos produtores de leite. Este censo também poderia nos ajudar a conhecer o setor de produção de leite de forma um pouco mais fiel. Além de saber quantos produtores temos e onde eles estão localizados, poderíamos ter informações a respeito de quanto produzem, como produzem, como se relacionam com o mercado, as suas limitações viárias e de infra-estrutura (luz, telefone, etc...). Estas informações nos permitiriam ter uma visão mais fidedigna do setor, criar impressões reais e eventualmente desfazer alguns mitos.
Por exemplo, é corrente a divulgação de informações que apontam um declínio no número de produtores de leite no país. E mais do que isso, vários analistas e técnicos se arriscam a fazer projeções de que a redução no número de produtores de leite vai ser extremamente acelerada. Pois bem, eu me arriscaria mais uma vez a questionar esse suposto consenso e apostaria na hipótese de que o número de produtores de leite no país não está caindo. Lógico que esta minha suposição é baseada apenas numa impressão pessoal criada pelas minhas andanças constantes pelo Brasil bem como pela leitura e estudo de assuntos da cadeia do leite. Alguns poderiam chamar isto de "achismo" ou "chutômetro", com o que eu particularmente concordo. Mas na verdade este meu "palpite" é baseado em informações tão frágeis quanto aqueles defendidos por outros analistas e técnicos que têm uma hipótese diferente. Afinal de contas todos nós não dispomos de estatísticas confiáveis, ou seja, é "chutão" contra "chutão". Alguns poderiam dizer que dispomos de alguns dados oficiais do IBGE, mas dada à fragilidade dessas informações eu julgo que não alivia muito.
E para justificar o meu "chutão" eu apontaria alguns elementos. Em primeiro lugar, acho que após o processo de granelização acelerada do leite que ocorreu no Brasil nos últimos 5 anos, houve uma profunda distorção de estatísticas sobre o número de produtores de leite do país. Isso ocorreu devido à proliferação de tanques coletivos, que passaram a ser computados como a "unidade de produção", ou o equivalente a 01produtor. No entanto, na verdade um único tanque resfriador às vezes representa 5, 10 ou até mais produtores, gerando desta forma uma redução artificial no número de produtores. Tal situação ocorre muito especialmente nas estatísticas dos grandes laticínios nacionais.
Além desse argumento, eu ainda apontaria a questão relativa aos produtores informais, a cerca dos quais eu tenho certeza de que as nossas estatísticas são falhas, e acredito que na verdade possamos ter um número bem maior de produtores nessa condição, especialmente nas regiões mais interioranas do país. Além do mais, julgo que pode ter havido um aumento recente no número de produtores informais devido ao fechamento de várias "linhas de leite" em decorrência do processo de granelização acelerada que mencionei há pouco. E por fim, gostaria de destacar a possibilidade de aumento no número de novos produtores de leite que ingressaram recentemente na atividade nas novas regiões de fronteira agrícola, representada principalmente pelos estado de MT, RO, GO, TO, PA e MA. É bastante evidente a proliferação de fazendas leiteiras nessas novas áreas de fronteira, independentemente das novas culturas predominantes, seja soja, milho, algodão ou pecuária de corte. O leite sempre acompanha essas fronteiras, seja para auto-abastecimento, para abastecimento informal local ou seja pelo surgimento de novas bacias leiteiras. Tal fato fica evidente nas escassas estatísticas que temos sobre produção de leite, cujos 3 estados com maior taxa de crescimento da produção são exatamente RO, MT e GO.
Enfim, estas são breves considerações sobre uma questão básica que limita o planejamento da cadeia de produção de leite e que precisamos ter claro. No próximo artigo desta coluna, continuaremos com este tema, mas enfocando a questão da característica dos produtores de leite no Brasil.
Quem e quantos produzem leite no Brasil ?
A falta de estatísticas e, mais do que isso, estatísticas confiáveis, é um problema crônico no Brasil. E logicamente que o setor lácteo não é exceção à regra.
Publicado por: Luis Fernando Laranja da Fonseca
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CELSO IVAN FERREIRA
LAGOA DA PRATA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 23/07/2002
Você não precisa considerar sua opinião como um chute, pois temos exemplos de tanque coletivo até com 70 produtores.
Além do mais, pelo modelo de pagamento feito hoje no Brasil (por quantidade), é comum juntar (mesmo em tanque separados), 3, 4 produtores e fornecer em nome de um só.
Além do mais, pelo modelo de pagamento feito hoje no Brasil (por quantidade), é comum juntar (mesmo em tanque separados), 3, 4 produtores e fornecer em nome de um só.

CARLOS ALBERTO D. F. MACHADO
PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO
EM 08/07/2002
Parabéns, muito bom e oportuna a matéria.

DECIO JOSÉ SCHNACK
OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/07/2002
A ausencia de dados relativos à produção de leite no país é uma realidade, assim como nos demais setores da área rural. Acontece que não há um banco de dados que reúna as informações a respeito do assunto. No eu entendimento, esta questão seria solucionável através de um banco de dados administrado e tabulado por entidade isenta e não vinculada às indústrias, onde as informações estão disponíveis. Acredito que nestas circunstâncias seria possível que as informações a respeito da produção de leite seriam disponibilizadas. Arrisco uma sugestão: Milkpoint como instituição neutra toma a iniciativa de organizar um banco de dados e tabular os números, disponibilizando-os aos participantes do banco de dados. Desta forma, poderemos fazer projeções mais confiáveis e o setor terá em mãos munição para as reivindicações para o seu desenvolvimento. Atualmente, fica difícil argumentar e justificar melhor atenção por parte do governo visando o desenvolvimento do setor. Sem informação, não podemos projetar e muito menos exigir mais atenção por parte das autoridades constituídas.