O Repique da inflação, a posição do varejo e a cadeia do leite

O setor da alimentação foi o que mais pressionou a inflação, saiba mais.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

O repique da inflação tem sido um dos temas preferidos de debates nos últimos dias. No mês de outubro o IPC calculado pela FIPE medido na cidade de São Paulo foi de 1,28%, o índice mais alto dos últimos 2 anos. Com isto, as previsões para taxa de inflação de 2002 foram revistas para cima, devendo chegar na casa de 6,5%. A maioria dos economistas e analistas de mercado aponta que este recrudescimento da pressão inflacionária deve-se prioritariamente à desvalorização do Real, que gera uma pressão sobre os preços de produtos cotados ou atrelados ao dólar.

Mas o ponto que eu gostaria de destacar aqui é a origem mais específica da pressão inflacionária. Destrinchando qualitativamente o índice de inflação por setor, podemos observar que o setor da alimentação foi o que mais pressionou a inflação, tendo apresentado uma variação de preços no mês de outubro da ordem de 2,86% conforme mostra a tabela abaixo:

Variação da inflação por setor (Outubro/2002)
 

 


Logicamente que os itens englobados no setor alimentação estão associados com os produtos agrícolas, como pode ser observado na tabela a seguir:

Variação dos itens que mais contribuíram para a alta do IPC (Outubro/2002)

 

 



Ao analisar essa lista podemos perceber que a maioria dos produtores que apresentou grande alta no mês de outubro não é composta por produtos importados (exceto macarrão e pão francês, que estão associados ao trigo), mas sim por commodities produzidas em grande escala e eficiência no Brasil, mas que por serem produtos de exportação, apresentam seu preço atrelado ao dólar, destacando-se aqui a soja, a laranja, o açúcar e, indiretamente, o frango. Dessa forma, uma vez que há a oportunidade para a indústria exportar o produto com cotação em dólar, o que implica num bom preço em Real na atual taxa cambial, esta opta por canalizar grande parte da produção para exportação, exigindo preços similares para disponibilizar o produto para o mercado interno. Este é o caso clássico do açúcar, cujo valor passou da faixa de R$ 0,60 a 0,70 em setembro para uma faixa de R$ 1,10, a 1,30/kg atualmente. Considerando que a industrialização do açúcar está concentrada em grande parte nas mãos de 4 ou 5 grandes empresas, o poder de negociação destas empresas com o setor de varejo é grande. Como o mercado internacional deste produto está aquecido, os usineiros travam uma queda de braço pesada com os supermercadistas, tentando impor grandes reajustes. Reajustes estes que não conseguem ser repassados para os consumidores pelas razões óbvias. Pois bem, é nessa conjuntura que desponta no noticiário nacional um cenário benévolo para os supermercados, isto é, a imagem de guardiões da inflação e de defensores dos consumidores. Isto dá margem a ações agudas por parte das grandes redes de varejo, como aquela mencionada na coluna de Marcelo Carvalho (A força do varejo, 1/11/2002) em que a rede Pão-de-Açucar, de forma agressiva ameaça os fornecedores de boicote a seus produtos em caso de reajustes, isto tudo em "respeito pelo consumidor" e "respeito pelo Brasil", como prega o folheto elaborado pela rede.

Mas vamos por partes para desmistificar o santo do pau oco. Em primeiríssimo lugar, é preciso destacar que quem leva o maior prejuízo nessa história é o consumidor, que em muitas vezes não tem para onde correr, como no caso do açúcar, uma vez que não há substituto para este produto (ou quem sabe, como recomenda um dirigente da Associação de Supermercados na Folha de Londrina de 06/Nov: "a única alternativa que vejo para a dona de casa é fazer menos doces e bolos") Só faltava dizer que tinha ainda o lado positivo de prevenir a diabetes e a obesidade... E o mais perverso nesse cenário é que o consumidor que mais sofre é justamente o de menor renda, aquele que gasta a maior fatia do seu salário com itens de alimentação.

Mas voltando ao santo do pau oco, o fato é que a briga entre as indústrias e os supermercados é coisa de cachorro grande e não tem nada de sacro nessa história. A indústria (como a do açúcar) age de forma unilateral visando o lucro máximo, justamente a mesma lógica usada pelas grandes cadeias de varejo. Afinal de contas o mundo é capitalista! Como infelizmente não acredito mais em Papai Noel e em Coelhinho da Páscoa, não me surpreende a forma de ação tanto da indústria quanto dos supermercados. A única coisa que me incomoda um pouco é escutar ou ler que os supermercados são os guardiões e defensores dos consumidores, ou que agem em respeito pelo Brasil. Estamos carecas de saber que as grandes cadeias de varejo agem de forma oportunística sempre que possível. No caso do leite, basta dar uma olhada nas conclusões das diversas CPIs estaduais concluídas recentemente.

E se analisarmos um gráfico elaborado pela Scot Consultoria e mostrado na coluna de Maurício Palma Nogueira (2002, um ano marcado pelas especulações), veremos mais uma vez uma ação oportunista por parte do varejo. Isso fica claro quando se observa que, a partir do mês de julho a diferença entre os preços do atacado e do varejo para o leite longa vida sobe da faixa de 11% para uma faixa de 17%. Isto é uma tentativa de ganhar margem "na marra" por parte do varejo, aproveitando-se do bojo da subida generalizada de preços dos alimentos. E, nesse meio tempo, somos abrigados a ouvir pura e simplesmente no Jornal Nacional que o preço do leite teve uma elevação muito significativa nas gôndolas dos supermercados. O que induz o inocente consumidor urbano a associar o fato com uma fartura do setor de produção de leite, o que não é verdade. E fica difícil separar o trigo do joio, pois por um lado a inflação dos produtos alimentícios está associada com uma margem elevada dos produtores, como no caso da soja/óleo de soja, por exemplo. Mas isso se deve exclusivamente a uma questão cambial. Como o leite não é um produto de exportação com cotação atrelada ao dólar, o seu aumento de preço, que não é dos mais significativos comparado com outros alimentos, deve-se em grande parte a escassez do produto que é fruto de um longo período de desestímulo dos produtores decorrentes dos baixos preços recebidos, que só recentemente dão sinais de "normalização" com uma entrada de safra sem queda de preços e até com alguns reajustes significativos, especialmente para os grandes produtores, embora o custo de produção continue pressionado por grande parte dos insumos atrelados ao dólar.

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Luis Fernando Laranja da Fonseca

Luis Fernando Laranja da Fonseca

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?