Esta análise encerra a série de retrospectivas de 2025, consolidando e contextualizando os principais pontos discutidos nas análises anteriores sobre oferta, demanda e conjuntura internacional do mercado lácteo.
Em síntese, após um ano de forte crescimento da produção, o mercado lácteo brasileiro encerrou 2025 marcado por um expressivo desequilíbrio entre oferta e demanda.
A expansão produtiva, estimulada pelos preços atrativos do primeiro semestre, superou o ritmo de crescimento da demanda, que avançou de forma mais contida, mesmo diante de um ambiente macroeconômico relativamente favorável no âmbito de consumo. Como resultado, houve acúmulo de estoques, pressão sobre os preços dos derivados e quedas significativas no preço ao produtor, sobretudo ao longo do segundo semestre.
No cenário internacional, a ampla oferta global e a demanda mais contida intensificaram a competição entre exportadores e reforçaram o movimento de queda dos preços, enquanto as importações seguiram em patamar elevado, ainda que com leve recuo.
É a partir desse contexto que se coloca a questão central para essa análise: O que esperar do mercado em 2026 depois do mergulho de preços no segundo semestre de 2025?
Perspectivas para a oferta em 2026
O final de 2025 foi marcado por uma queda na rentabilidade do produtor de leite, influenciada principalmente pelo recuo dos preços do leite pagos ao produtor, especialmente no último trimestre do ano, enquanto os preços dos grãos permaneceram relativamente estáveis.
RMCA - Receita menos custo da alimentação (R$/vaca/dia)
Considerando-se a produção de 20 litros/vaca/dia e consumo de 7,2 kg de matéria seca de concentrado/vaca/dia e 10,2 kg de matéria seca de volumoso/vaca/dia.
Gráfico 1. Receita menos custo da alimentação (R$/vaca/dia). Dados deflacionados pelo IGP-DI.
Fonte: MilkPoint Mercado, a partir de dados do CEPEA e da SEAB/PR
Essa compressão da rentabilidade em 2025 tende a resultar em um menor crescimento da produção em 2026, especialmente porque a base produtiva brasileira é majoritariamente composta por pequenos e médios produtores, que sentem esse impacto de forma mais intensa.
Segundo o levantamento Quem Produz o Leite Brasileiro 2025, dentro da amostra analisada, 93% dos produtores estavam enquadrados em estratos de até 1.000 litros por dia, respondendo por cerca de 44,9% da produção nacional.
Gráfico 2. Participação do número de produtores e volume produzido em função da faixa de produção diária - 2025 (85 empresas).
Fonte: Quem Produz o Leite Brasileiro 2025.
Mesmo assim, 2026 deve seguir apresentando oferta em patamares elevados, impulsionada principalmente pelo crescimento dos sistemas de confinamento nos estratos de maior escala. Esse movimento tende a manter a produtividade em níveis altos, uma vez que esses produtores precisam sustentar volumes elevados de produção para diluir investimentos já realizados, mesmo em um cenário de compressão da rentabilidade.
Assim, nesse contexto em que cerca de metade da base produtiva brasileira está concentrada nos estratos mais sensíveis à redução das margens, 2026 tende a apresentar um ritmo de crescimento da captação inferior ao observado em 2025.
Perspectivas para a demanda em 2026
Ao contrário do cenário que marcou o início de 2025, 2026 começa com os preços dos derivados lácteos em patamares mais baixos, inclusive no varejo, segmento que tradicionalmente reage de forma mais lenta aos ajustes. Como referência, o ano se inicia com deflação aproximada de 9,9% no leite UHT e 9,5% na muçarela, segundo os preços da Fipe.
Gráfico 3. Preços nominais no varejo de São Paulo para UHT e Muçarela.
Fonte: Dados Fipe, elaborado pela equipe MIlkPoint Mercad
Essa conjuntura, marcada por preços em patamares mais baixos e por um ano eleitoral, no qual historicamente há estímulos à atividade e à renda, seja por meio da ampliação de programas de transferência de renda ou de outras medidas econômicas, tende a sustentar uma demanda ao menos em níveis semelhantes aos de 2025, ou até superiores.
Esse movimento pode contribuir para um melhor equilíbrio entre oferta e demanda em 2026, especialmente em um cenário no qual a oferta não cresça em ritmo tão expressivo quanto o observado em 2025.
Perspectiva Internacional
No cenário internacional, a conjuntura de preços também aponta para um momento semelhante, marcado por redução da rentabilidade dos produtores. Como evidência dessa tendência, o compilado dos preços do leite pagos ao produtor, em dólar por litro, mostra que, no segundo semestre de 2025, os valores passaram a recuar.
Gráfico 4. Preços internacionais pagos ao produtor (US$/litro).
Fonte: LTO Nederland; Infortambo; CLAL; CEPEA/ESALQ
A ação dessa compressão da rentabilidade também aparece nas perspectivas de outros relatórios internacionais. A divulgação mais recente do Quarterly Dairy Q4, do Rabobank, referente ao último trimestre de 2025, indica um cenário global no qual a queda dos preços internacionais tende a se refletir nos preços pagos ao produtor nos principais mercados exportadores, reduzindo o ritmo de crescimento da produção também no mercado internacional.
Gráfico 5. Crescimento de produção – Quarterly Dairy Q4 (Rabobank).
Fonte: Rabobank
Completando a perspectiva do cenário internacional, assim como no Brasil, o mercado global também registrou redução nos preços dos principais derivados lácteos. Conforme apresentado na retrospectiva sobre demanda, a análise do índice de preços médios de lácteos da FAO indica uma expectativa de entrada em 2026 com preços em patamares mais baixos, o que tende a favorecer uma retomada gradual do consumo ao longo do ano.
Uma primeira resposta a esse movimento já pode ser observada nos contratos futuros negociados na SGX, que, entre o final de 2025 e a divulgação após o primeiro leilão do GDT deste ano, passaram a sinalizar uma reversão da tendência de queda do LPI, com o mercado projetando um viés mais altista para 2026.
Gráfico 6. Preços futuros do LPI na SGX (US$/ton).
Fonte: SGX, adaptado MilkPoint Mercado Plus
Conclusão e perspectivas de 2026
Após o expressivo ajuste de preços na reta final de 2025, o mercado lácteo tende a iniciar 2026 em busca de maior equilíbrio entre oferta e demanda. A forte redução da rentabilidade ao longo do segundo semestre sustenta a expectativa de um crescimento mais moderado da oferta em 2026.
Aliado a isso, a demanda deve se manter estável ou levemente estimulada pelos preços mais baixos dos derivados, favorecendo a construção de um cenário mais equilibrado ao longo do ano.
Essa perspectiva, contudo, não elimina as incertezas e os desafios estratégicos do setor. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades relevantes ligadas à consolidação da indústria, à rentabilidade, ao financiamento da cadeia, ao potencial exportador do Brasil e ao crescimento do consumo em segmentos como proteínas lácteas e queijos.
Nesse ambiente, marcado por desafios de curto prazo e decisões estruturais de longo prazo, a discussão qualificada sobre mercado, eficiência e estratégia torna-se fundamental. É nesse contexto que chega o 20º Fórum MilkPoint Mercado. Afinal, a virada do ano não muda o mercado da noite para o dia, mas redefine o ponto de partida das decisões.
E 2026 começa oficialmente onde o mercado lácteo sempre começa: no Fórum MilkPoint.