Pois bem, essa notícia de que o preço do leite pago ao produtor está se mantendo estável até o momento, o que deve ser prorrogar por pelo menos mais 1 mês, a princípio é muito boa para os produtores. Digo a princípio, porque, se por um lado o preço se mantém atipicamente estável, por outro lado, na parte de custos, existem pressões de alta que compensam negativamente o preço estável do momento. Estas pressões nos custos se devem em grande parte à questão cambial. Com a desvalorização recente do Real, todos os insumos importados sofreram alta de preços, bem como os insumos cotados em dólar, como as commodities de exportação brasileiras, tais como milho e soja. Isso mais uma vez demonstra a sina do nosso produtor de leite.
Mas para ampliar essa análise e mostrar os desafios que tiveram que ser superados pelos produtores de leite nos últimos anos, fiz um levantamento informal do preço de uma série de itens que compõem os custos de produção de leite e a sua respectiva variação desde o início do Plano Real, em Julho de 94. Enfatizo que para fazer este levantamento utilizei diversas fontes, sem um critério rígido necessário para configurar um trabalho técnico oficial ou um trabalho acadêmico. O intuito foi elaborar rapidamente um guia de referência de preços para observar a variação no valor dos insumos, da inflação e do leite pago ao produtor.

Apenas como um exercício lúdico, se um produtor tivesse uma lista de compras que constasse de:
- 500 litros de diesel
- 500 litros de gasolina
- 10 ton de adubo
- 100 doses de vacina
- 10 salários mínimos
- 10 sacas de milho
- 10 sacas de soja
Esse produtor precisaria vender em julho de 94, 10.664 litros de leite para pagar a conta. Já em julho de 2002, para pagar essa mesma compra, o produtor precisaria vender 18.489 litros de leite, ou seja, cerca de 75% a mais.
Esses números mostram coisas interessantes. Se analisarmos cada item da tabela acima, veremos que nenhum deles teve aumento de preço inferior a inflação nesse período de 8 anos, exceto o leite. Isso nos leva a crer que a era FHC (como está sendo chamado esse período da história brasileira) foi penosa para os produtores de leite.
Lógico que essa metodologia não é a melhor para avaliar o impacto sobre os custos de produção, mas pelo menos é bem palpável para os produtores. De uma forma bastante simplista, podemos dizer que é ou foi preciso um aumento de eficiência de produção por parte dos produtores para poder compensar essa variação assimétrica entre o preço recebido pelo leite e o preço pago pelos principais insumos, o que, sem dúvida, aconteceu nesse período. Mas o fato é que esse processo tem limite, sob pena de inviabilizar a produção ou pelo menos desestimulá-la significativamente, que é o que vem ocorrendo pelo menos desde o ano passado, culminando com uma certa escassez de leite nesta entressafra, fato este que gerou uma maior estabilidade dos preços pagos aos produtores neste momento, mas que, mesmo assim, não tem compensado o aumento dos custos de produção, mais uma vez pressionados por nova desvalorização cambial.