O leite e as eleições

Às vésperas de uma ampla eleição no país, talvez esta seja a oportunidade para mostrarmos claramente aos políticos e aos candidatos os gargalos do setor.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Inicio este meu artigo transcrevendo pontualmente o trecho de uma matéria publicada no jornal Valor Econômico desta terça feira (10/set): "Os laticínios foram os únicos, entre os 20 principais produtos de importação, a ter aumento nas vendas, em relação ao mesmo período de 2001".

No mesmo dia a Folha de São Paulo publicou uma grande matéria sobre leite, abrindo o texto com a seguinte sentença: "O agronegócio deverá liderar, mais uma vez, o saldo da balança comercial neste ano. Um setor, no entanto, não vai bem: o leiteiro. As receitas com as exportações de lácteos deverão somar US$ 50 milhões, e as despesas com importações, US$ 200 milhões. Nos oito primeiros meses deste ano, as importações de leite em pó cresceram 110% em volume e 62% em dólares".

Já a Gazeta Mercantil, no editorial desse mesmo dia 10/set, apontava:" São os produtos agropecuários e agroindustriais que estão permitindo um desempenho bastante razoável das exportações neste ano".

Estas manchetes mostram que a fase de euforia pela qual vem passando o agronegócio brasileiro, puxado pelos bons preços de várias commodities agrícolas, não se estende ao leite.

Enquanto o agronegócio vai ser o grande responsável pelo histórico superávit da balança comercial na era do Plano Real que deve superar os US$ 7 bilhões, a nossa indústria láctea puxa ao contrário, com um déficit comercial que deve chegar aos US$ 150 milhões, representando o patinho feio do momento. De acordo com as análises que têm sido quase consensuais e com o que foi o objeto de análise nesta coluna em particular, tudo leva a crer que o recrudecimento das importações deva-se a falta de matéria-prima no mercado decorrente da estagnação da produção, fato este que resultou do desincentivo à produção ocorrido por conta dos baixos preços recebidos pelos produtores nos últimos dois anos.

Aliás, talvez mais importante do que os baixos preços recebidos pelo leite tenham sido as oscilações violentas e súbitas do preço ao produtor nos períodos de transição entressafra / safra nos anos 2000 e 2001.

Pois bem, mas o ponto a que quero chegar é que a cadeia Láctea é um setor muito importante da economia brasileira como gerador de renda e empregos, e que envolve direta ou indiretamente pelo menos 4 milhões de pessoas e não pode permanecer cronicamente em crise ou na berlinda, e é aqui que entra a questão que justifica o título deste artigo.

Como estamos às vésperas de uma ampla eleição no país, talvez esta seja a oportunidade para mostrarmos claramente aos políticos e aos candidatos, os problemas que afetam uma cadeia importante do agronegócio, que é a cadeia láctea. Talvez o momento seja fértil para tal iniciativa pois parece que finalmente os candidatos estão sensibilizados com a questão da agricultura. Pelo menos é o que tem parecido através de uma breve observação da mídia. O salto espetacular da balança comercial brasileira, alavancado pelo agronegócio, parece ter despertado a importância deste setor para a sociedade urbana brasileira e por conseqüência para os políticos. Prova recente desta foi a ampla divulgação pela imprensa do debate ocorrido e promovido pela CNA entre os candidatos à presidência da república.

Fazendo um parêntese na nossa discussão, fica claro que nenhum dos 4 candidatos principais à presidência da república tem uma forte ligação com a agricultura, embora eu não julgue esse um fato limitante para governar o país. Apenas leva a fatos inusitados como o que ocorreu com o senador José Serra, recentemente em Barretos, quando o candidato se debulhou em elogios a um determinado "boi" de raça, até ser sutilmente alertado por um assessor de que na verdade tratava-se de uma vaca...

Mas deixando a parte lúdica de lado, julgo que é cabível a tentativa de sensibilizar candidatos para a questão da cadeia do leite justamente neste momento pré-eleitoral, pertinente para o encaminhamento de demandas e para o atrelamento nos programas e promessa de governo. Isto porque entendo que o setor lácteo envolve uma série de particularidades, inclusive quando comparado com outras cadeias do agronegócio, que envolvem a necessidade de uma ação do Estado para que a atividade tenha um curso normal aceitável e que seja sustentável. E é importante destacar que esta minha concepção não tem nada de inédita, afinal em todos os grandes países produtores de leite do mundo o governo tem uma participação ativa na cadeia do leite, mais incisivo ou menos incisivo mas sempre direta, dependendo do país.

E isto vale tanto para os EUA quanto para a Índia, Canadá, França, Japão e assim por diante. Apenas para dar um único exemplo, podemos apontar a questão da distribuição de leite em programas sociais e na merenda escolar. Entendo que este é um programa extremamente inteligente e importante para ser adotado por qualquer candidato. Além dos benefícios óbvios, uma vez organizado de forma adequada, um programa desta natureza poderia minimizar as fortes oscilações de preços aos produtores em períodos críticos do ano, o que por si só amenizaria um dos problemas mais críticos vividos pelo setor e que foi responsável, em parte, pelo desaquecimento da produção de leite neste ano, o que proporcionou novo aumento das importações de lácteos justamente num momento em que o país precisa ampliar o saldo comercial de forma a aliviar a balança de pagamentos, para manter minimamente estável a economia.
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Material escrito por:

Luis Fernando Laranja da Fonseca

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