Peguemos algumas manchetes da mídia setorial agropecuária deste mês:
- "Fome Zero aumentará o consumo da cesta básica" (Revista Gleba-CNA)
- "Indústria de alimentos espera crescer até 8% com o Fome Zero" (Valor Econômico - 16/01/2003)
- "Futuro ministro enfatizou Fome Zero e exportações (Jornal dos Criadores - ABC)
Estas manifestações evidenciam uma questão já levantada aqui nesta coluna antes mesmo da eleição do novo governo, isto é, o caráter abrangente e de multi-propósito desta política. Alertávamos nesta coluna que, caso entrasse em vigor o referido projeto, haveria um impacto positivo sobre a agropecuária, decorrente de um choque de demanda significativo.
Estas matérias que mencionei acima, se por um lado não revelam nenhum ineditismo, por outro lado têm seu valor ao tentar mensurar o impacto do Programa. A CNA elaborou um estudo para tentar quantificar o acréscimo no consumo de alimentos presentes na cesta básica. Embora julgue a metodologia utilizada um pouco frágil, vale a pena especular e iniciar uma discussão. Nesse estudo foi estimado um acréscimo potencial de consumo da ordem de 23% para o leite, 56% para o feijão e 12% para o arroz.
No caso do leite, isso representa uma demanda adicional de 5 bilhões de litros/ano em relação à disponibilidade estimada para 2002. Apenas para atender a fase inicial e mais imediata do Programa, a CNA estima uma necessidade extra de 1,1 bilhão de litros de leite. Pois bem, essas notícias a princípio são alvissareiras, pois vão ao encontro dos desejos do setor lácteo, isto é, o aumento do consumo interno. Em praticamente todas as discussões que se tem sobre as expectativas de melhoria para o setor, o baixo consumo interno sempre foi apontado com um dos fatores mais limitantes no Brasil, dando margem inclusive para grandes projetos de marketing do leite na tentativa de aumentar o consumo (embora eu particularmente julgue que essa iniciativa tem baixo impacto na sociedade brasileira). Mas discordâncias de métodos à parte, o fato é que agora estamos frente a um potencial aumento de consumo, fato consensualmente salutar, tanto sob o aspecto social quanto econômico e de mercado. Pois bem, mas vejam o dilema, se por um lado o consumo de lácteos é baixo no nosso país, por outro nós ainda somos importadores líquidos de lácteos. E pior do que isso, as importações voltaram a crescer de forma substancial neste ano. Isto significa que a produção doméstica não consegue nem mesmo atender a uma demanda altamente reprimida de lácteos, gerando a necessidade de gastos de divisas para a importação desses produtos. Prova disso é que somente no ano de 2002 nós importamos quase 1,5 bilhão de litros. Dessa forma, com o aumento de demanda, tudo leva a crer que precisaremos importar mais leite no próximo ano. A não ser que a produção interna venha a crescer de forma exponencial. Particularmente, acho que há um potencial grande de crescimento da produção de leite no Brasil, mas para que esse crescimento volte para um patamar acima de 5% ao ano, muita coisa favorável tem que ocorrer no setor. Se estas conjecturas estiverem corretas, podemos concluir que o nosso problema não é falta de consumo mas sim falta de produção. E se há falta de produção, e a falta de produção é decorrente de uma falta de estímulo à produção (entenda-se preço baixo ao produtor) isso seria fruto de um distúrbio interno da cadeia e não da falta de demanda. Não estou afirmando nada neste momento, mas acho que vale a pena refletir sobre a questão.
Veja a que dilema chegamos. E não estou falando ainda do potencial todo de demanda, que segundo a CNA poderia, repito novamente, aumentar em 5 bilhões de litros, o que exigiria um aumento de produção da ordem de 25% em relação ao volume atual. E o interessante é que esse dilema se estende para outras cadeias também, como do arroz e do feijão. Isso sem falar do trigo, que está associado com o bendito pãozinho diário.
Resumindo, atualmente nós importamos cerca de 80 mil ton de feijão, 600 mil ton de arroz e cerca de 7 milhões de ton de trigo. Todos produtos alimentícios básicos do brasileiro. Isso significa que se por alguma dádiva circunstancial, como o Fome Zero, houver um aumento sensível de consumo para matar a fome de um bocado de brasileiros, faltará alimento, que fatalmente teremos que importar. Em outras palavras, não temos produção suficiente para abastecimento interno do nosso arroz com feijão e tampouco do nosso leitinho com pão matinal, ou seja, não temos garantido nem o nosso café da manhã e nem o nosso almoço!
Mas como o agronegócio vai muito bem obrigado, como tem sido propagado aos quatro cantos, tudo tem solução, basta produzir mais soja, laranja, açúcar e carne, vender no exterior e com o saldo comprar arroz, feijão, trigo e leite. Esse é o dilema apontado pelo atual presidente Lula durante a campanha presidencial quando ele questionou a questão da validade das exportações agrícolas e foi logo criticado baseado numa descontextualização da sua análise.
Bom, mas discordâncias políticas à parte, acho que o Fome Zero traz a tona uma questão importante. E mais do que isso, um desafio para a agricultura brasileira. Como tenho fé de que temos um potencial tremendo de produção agropecuária, confio que podemos ser capazes de produzir todo o arroz, o feijão e o leite que precisamos (acho que o trigo já seria um desafio maior!) e, além disso, continuar abastecendo a nossa balança comercial com dólares proveniente da venda de soja, laranja, açúcar e carnes. Esta seria uma situação ideal, pois teríamos geração de emprego e renda no campo e crescimento econômico, além da barriga mais cheia de uma porção de brasileiros. Dentro dessa concepção, fiquei muito satisfeito com uma declaração recente do atual Ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que compreende a importância tanto do abastecimento de alimentos para a população carente quanto a necessidade de geração de divisas com a exportação de produtos agropecuários. Em evento na Associação Brasileira dos Criadores, o ministro afirmou: "A agropecuária terá uma participação primordial no Projeto Fome Zero. Mas o setor terá um desafio ainda maior pela frente: o de ajudar a diminuir o fosso social do Brasil por meio das divisas geradas pelas exportações".
E o melhor disso tudo, é que há um efeito em cascata do aumento da demanda por alimentos gerada pelo Fome Zero, que é o impacto sobre a indústria alimentícia, como reforça a matéria que mencionei acima do jornal Valor Econômico. A ABIA (Associação Brasileira das Indústria de Alimentos) estima preliminarmente um aumento da demanda da ordem de 7 a 8% para o setor. Ou seja, o impacto da incorporação de uma leva de brasileiros no rol de "consumidores sistemáticos de alimentos" gera um impacto inicial no campo, que se estende para a indústria processadora, até o varejo, gerando mais empregos e renda. Essa amplitude foi muito bem captada e explicitada pelo Ministro Roberto Rodrigues quando afirmou que "O Fome Zero implica maior demanda por alimento e isso representa o crescimento da agropecuária e da cadeia do agribusiness. O subsídio do governo para compra de alimentos aumentará a demanda de produtos agrícolas e pecuários, que, por sua vez, irá incrementar a procura por sementes, fertilizantes, máquinas agrícolas, rações, armazéns, caminhões para transporte, embalagens e assim por diante".
Um dado interessante mencionado na matéria do Valor Econômico é o estudo feito por uma empresa de consultoria de mercado que aponta os seguintes produtos alimentícios como sendo aqueles com maior potencial de aumento de demanda nas regiões Norte-Nordeste (justamente aquelas em que vai haver um maior impacto do Fome Zero em virtude dos seus índices de pobreza). Vejamos a lista: iogurte, queijo, achocolatado em pó e leite condensado. Acho que não poderia haver notícia mais auspiciosa para o setor.
Em resumo, veja o impacto positivo que uma política encabeçada e proposta pelo Estado pode ter sobre a Economia. Às vezes as soluções precisam sem mais criativas e menos tecnocráticas, e, além disso, parece que algumas propostas do ideário de John Maynard Keynes começam a ressuscitar...