É assim que começa uma grande reportagem publicada na "Folha de São Paulo" no dia 24 de março.
Pois bem, parece que muita gente no setor lácteo também discorda dos benefícios gerados pelas grandes cadeias de supermercados. Pelo menos é isso que se observa, por exemplo, nos relatórios finais das CPIs do leite que se instalaram em todo o País.
Relatórios de CPIs instaladas em diferentes estados apontam de forma clara várias acusações às grandes redes de varejo, tais como: dumping (venda de produto por valor abaixo do preço de custo), exigências de descontos expressivos por parte dos fornecedores para manutenção de fidelidade, cobrança de taxas ou pedágios para introdução dos produtos ou exposição privilegiada nas gôndolas, devolução de produtos perecíveis não vendidos sem comprovação de comprometimento da sua qualidade, exigência da manutenção de promotores de vendas nas lojas, sonegação de ICMS, maquiagem de margens de lucro via não declaração dos descontos e até o famoso "enxoval" (fornecimento gratuito de produtos para inauguração ou aniversário das lojas). Ou seja, o rol de acusação que paira sobre redes como o Carrefour, Wal Mart, Sonae, Pão-de-Açucar, dentre outras, não é nada modesto. Parte dessas denúncias e acusações é até admitida pelos próprios executivos das redes de varejo, como ocorrido recentemente na CPI do Paraná, quando um diretor do Wal Mart confirmou que a rede exige descontos de fornecedores como percentual por fidelidade, diminuição de preços para acompanhar promoção da concorrência, verbas de aniversário e inaugurações e vendas do produto abaixo do preço de custo durante as promoções.
Os deputados do Paraná concluíram que os fornecedores de laticínios chegam a dar descontos de até 22% para as grandes cadeias de varejo.
Mas qual o impacto disso tudo sobre a cadeia do leite? Basicamente esse poder de barganha dos supermercados gera uma pressão tremenda sobre toda a cadeia produtiva, distorcendo o equilíbrio de forças e deformando o mercado, com respingos que chegam até os produtores, elo final e mais frágil da cadeia. E no setor lácteo esse impacto é ainda maior devido a fragilidade inerente dessa cadeia produtiva. O poder das grandes cadeias de varejo tomou uma dimensão tal, que elas conseguem hoje pressionar grandes grupos de fornecedores como Nestlé, Parmalat, etc... E logicamente que essa pressão segue cadeia abaixo...
Analisando historicamente a questão, podemos concluir que essa pressão do varejo sobre a cadeia é um elemento relativamente novo, que só está vindo à tona recentemente. Na verdade, os supermercados iniciaram as suas atividades de forma efetiva no Brasil na década de 50, mas com uma expressão modesta até a década de 70, quando começou uma expansão significativa, que culminou com a entrada de grandes grupos multinacionais de varejo no Brasil, na década de 80, tanto através da compra de cadeias de varejo nacionais quanto através da abertura de novas lojas das suas próprias cadeias, especialmente nas capitais e grandes cidades. Não se pode esquecer, que justamente nesse período, houve uma concentração urbana no País extremamente acelerada, com grande crescimento da população das grandes cidades, isto é, uma grande concentração de consumidores justamente nos locais alvo das grandes redes de varejo.
No que se refere à questão do leite, há ainda uma particularidade que agudiza o poder de fogo das grandes redes de varejo e que contribui para inflamar certas crises do setor lácteo. Trata-se do fenômeno do leite longa vida. Este tipo de leite, como sabemos, teve sua participação no mercado de leites fluídos aumentada exponencialmente na última década, passando de um volume de vendas, em 1990, de 184 milhões de litros/ano para praticamente 3,5 bilhões de litros/ano em 2000. Um crescimento de quase 20 vezes em apenas 10 anos. Pois bem, parte desse crescimento pode estar associado à expansão do grande varejo. Aliás, particularmente acredito que o crescimento do longa vida foi desencadeado por dois fenômenos, a expansão da fronteira do leite, que exigiu uma nova forma de processamento do leite fluído nas regiões periféricas que permitisse um tempo de prateleira suficiente para atender à grande demanda de lácteos que se concentra no eixo Rio-São Paulo. Isso associado justamente com a expansão das grandes redes de varejo, que, sem sombra de dúvidas, concentrou a venda de lácteos e especialmente de leite fluído em detrimento das padarias e mercearias de bairro.
Nesse processo fica clara a preferência das grandes redes de varejo em trabalhar com o produto leite fluído na forma de longa vida, pois isso gera uma logística muito mais favorável e um custo de manutenção e exposição do produto muito mais baixo, uma vez que não há necessidade de refrigeração. Associe-se a isso a redução significativa do preço do longa vida no varejo a partir de meados da década de 90, quase que se equiparando com o leite pasteurizado, além da comodidade para o consumidor moderno que cada vez mais trabalha fora de casa e dispensa menos tempo para compras diárias no varejo de bairro. Some-se isso tudo e está explicado o fenômeno do longa vida.
Mas para ilustrar o papel do grande varejo nessa questão, basta apresentar os números de distribuição dos diferentes tipos de leite dentre os diferentes canais de distribuição. Estudos realizados no final da década de 90 apontam que a distribuição do leite fluído se dá conforme a tabela abaixo:

Estes dados mostram que:
- as cadeias de varejo são os grandes responsáveis pela distribuição do leite longa vida.
- O principal canal de escoamento do leite pasteurizado são as padarias e mercearias.
Através de um raciocínio cartesiano simples podemos concluir que: se o leite longa vida se expandiu numa taxa de quase 1.800% em dez anos, e se o grande varejo concentra majoritariamente a venda de leite longa vida, o papel do grande varejo na distribuição de Leite de Consumo logicamente cresceu exponencialmente. Além disso, podemos concluir que se o grande canal de distribuição do leite pasteurizado se concentra nas padarias e mercearias, e se estas minguaram sua participação no mercado, o leite pasteurizado minguou junto.
Portanto, se o grande varejo é o grande responsável pela distribuição de leite atualmente no País, se pairam graves acusações sobre esse setor conforme enumerado no início deste artigo, e se o poder de barganha das grandes redes é tão forte como se comenta, o circo está armado, e daí vem toda a justificativa para o bafafá que corre no setor hoje envolvendo o grande varejo e acusando as grandes redes de ter parte da culpa da crise que assolou o setor produtivo de leite, especialmente no ano passado.
Mas para ampliar a discussão desse tema, no próximo artigo desta seção iremos discutir de forma um pouco mais profunda o real impacto das grandes redes de varejo sobre o preço dos produtos ao consumidor, sobre a concorrência e sobre a geração de empregos, bem como abordaremos algumas estratégias que estão ou que podem ser usadas para minimizar os efeitos nocivos das grandes cadeias de supermercados sobre o mercado.