Tenho a nítida impressão de que, de forma pouco ruidosa, vem emergindo e ganhando força um novo modelo de produção, até certo ponto muito estereotipado, que se consolida nas regiões mais a oeste do País. Este modelo envolve geralmente um sistema familiar de produção, em grande parte formado por descendentes europeus de alemães, italianos, poloneses, dentre outros. De forma genérica trata-se de pequenas propriedades rurais, com médias de produção intermediárias, exploração direta das pastagens e uma característica forte de associativismo, que faz com que geralmente haja um elemento aglutinador forte na forma de uma cooperativa ou associação de produtores.
Este fenômeno se reproduz na região oeste tanto do Rio Grande do Sul quanto de Santa Catarina e Paraná especialmente, com características muito semelhantes, desde suas variáveis ambientais até sociológicas.
Chama atenção esse modelo pela sua pujança e sustentabilidade. Quando analisamos as estatísticas recentes, podemos observar que nessas regiões cresce tanto o volume de leite produzido quanto o número de produtores. Ou seja, muitos novos produtores passam a se envolver com a produção de leite e, além disso, a produção média cresce em cada fazenda com a adoção paulatina de novas técnicas de manejo, alimentação e com o melhoramento continuado do rebanho.
Eu gostaria de destacar aqui justamente essa questão do interesse e da avidez desse tipo de produtor por novas informações. Falo isso baseado nas experiências pessoais que tenho tido em viagens até essas regiões. Posso destacar, por exemplo, a minha última viagem da semana passada, quando fui proferir uma palestra na Cooperativa Tritícola de Erechim (COTREL). Erechim é uma cidade com cerca de 70 mil habitantes, localizada na região noroeste do Rio Grande do Sul, perto da fronteira com Santa Catarina. Município com grande vocação agrícola, especialmente na produção de grãos.
Pois bem, convidado pela Cooperativa para proferir uma palestra sobre "Qualidade do Leite" para os cooperados, para lá me desloquei em longa jornada e com muita expectativa. Chegando à cidade, nas conversas iniciais fui informado de que havia uma expectativa de público de cerca de 1.000 pessoas, mas, em decorrência das chuvas, poderia haver uma quebra nesse número. Para minha surpresa, ao chegar no auditório (aliás, um imenso centro de convenções extremamente moderno, digno de um grande centro empresarial) me deparo com uma platéia de cerca de 850 pessoas. Fato este muito animador para quem vai proferir uma palestra, pois demonstra interesse no assunto e garante que as informações que serão veiculadas terão repercussão. Bom, mas se você acha que reunir 850 pessoas para uma palestra que trata da produção de leite é algo de grande impacto, imagina se dentre esse público tivéssemos 800 mulheres. E é exatamente isso que ocorreu naquela ocasião! Não quero aqui discutir a questão de gênero, mas definitivamente eu nunca tinha proferido uma palestra para um público feminino dessa magnitude.
Que conclusões podemos tirar dessa experiência. Em primeiro lugar, a importância e o nível de envolvimento das mulheres na atividade de produção de leite, o que indica uma forte conotação familiar da produção de leite, com participação ativa da mulher nas atividades da fazenda, talvez participação mais efetiva do que dos homens, nesse caso. Prova disso é que a Cooperativa concentra os esforços na educação e repasse de informações para as mulheres e não para os homens, como nesse caso. Em segundo lugar, surpreende o nível de resposta dessas produtoras de leite ao chamamento da cooperativa. Durante a palestra pude observar um grande número de crianças presentes, muitas de colo e inclusive muitas em fase de amamentação. Ou seja, estas nobres senhoras (e isto não é uma ironia mas sim uma deferência muito especial) deixaram as suas casas com filhos no colo, com todo o esforço que isso demanda (falo isso com convicção e baseado numa experiência própria de um "pai fresco" de dois moleques de colo), para assistir a uma palestra sobre qualidade do leite. Na minha concepção isso é fantástico. Veja que não estamos falando de 80 mulheres, mas de 800 mulheres de um determinado município médio do Rio Grande do Sul.
Pois bem, mas nestas alturas do campeonato algum leitor desta coluna poderia estar concluindo que se trata de um fenômeno isolado. Mas é justamente aí que a minha surpresa aumenta. Não se trata de um fenômeno isolado. Somente neste ano de 2002 já tive a oportunidade de ministrar pelo menos mais três palestras nessa microrregião do Rio Grande do Sul, nos municípios de Passo Fundo, Sarandi, Não-Me-Toque, e, em todas as ocasiões, os auditórios estavam lotados. Nas cooperativas de Sarandi e Não-Me-Toque tivemos públicos superiores a 400 pessoas, sempre com uma grande participação feminina, o que reforça o fenômeno descrito acima.
Mas esse tipo de experiência não se restringe ao Rio Grande do Sul. No Paraná, por exemplo, nos últimos tempos tive a oportunidade de proferir palestra em duas cidades localizadas no extremo oeste do Estado, Medianeira e Mal. Cândido Rondon, e, em ambas ocasiões, o público não ficou abaixo de 800 pessoas. Exatamente isso, sem exagero, 800 pessoas para assistir palestras sobre produção de leite. Eu encaro isso como um fenômeno marcante.
Mas para ampliar a magnitude desse fenômeno, posso ainda relatar o episódio de uma palestra que proferi também neste ano de 2002, no mês de abril, em Patos de Minas, município localizado na região do Alto Paranaíba, a oeste também do Estado de Minas Gerais. Nessa ocasião, um evento organizado pela Cooperativa local (COOPATOS) reuniu também cerca de 700 pessoas para assistir uma série de palestras sobre produção de leite.
O que me chama atenção nesta análise, é o contraste entre o impacto que gera um ciclo de palestras ou mesmo uma palestra isolada nessas regiões "emergentes" na produção de leite, quando comparado com o que ocorre em bacias leiteiras tradicionais, como o Vale do Paraíba e Sul de Minas, para citar apenas dois exemplos. Neste ano também tive a oportunidade de ministrar palestras nessas regiões, mas muitas vezes o resultado foi até certo ponto frustrante. Num município do Vale do Paraíba, em São Paulo, numa palestra em que ministrei e que foi organizada por uma cooperativa local, não conseguimos reunir mais de 20 pessoas. Isso mesmo, menos de 20 pessoas. O mesmo ocorreu em ocasião recente na região do Sul de Minas, quando ministrei palestra para um público de cerca de 30 pessoas.
A minha análise pode ser até muito simplista, mas creio que esses fatos pontuais indicam um certo esgotamento ou desestímulo dos produtores de bacias leiteiras tradicionais, enquanto novas bacias leiteiras emergem sem muito alarde e se consolidam. E, curiosamente, as novas bacias se estabelecem sempre num processo migratório para o oeste, seja dentro de cada Estado, destacando-se aqui o RS, SC, PR, MG e mesmo SP, seja dentre os estados da Federação, já que poderíamos mencionar o tradicional fenômeno da explosão do leite em Goiás e agora em Rondônia e Mato Grosso (justamente os dois Estados com maiores taxas de crescimento da produção de leite no Brasil).

Fonte: Beto Hachmann/COTREL