O Japão é um país diferente, com suas particularidades culturais, geográficas e históricas muito próprias e isso se reflete nas características do setor lácteo desse país.
Se você fosse produtor de leite, gostaria de receber US$ 0,90 (R$ 2,28) pelo litro de leite? Pois bem, no Japão isso é possível hoje.
Após a II guerra mundial o país passou por tremendas modificações econômicas e culturais e, no bojo dessas mudanças, houve um impressionante incremento na demanda por produtos agropecuários, à medida em que a dieta básica dos japoneses se diversificava e se ocidentalizava. Isso implicou, por exemplo, num aumento significativo do consumo de produtos lácteos no pós-guerra e transformou a arcaica estrutura da indústria láctea japonesa num importante setor da agricultura daquele país.
Nos 50 anos que se seguiram ao término da II Guerra Mundial, a dieta do cidadão japonês mudou drasticamente daquela tradicional, baseada em arroz, batata, batata-doce, vegetais e peixe e passou a incorporar vários alimentos tradicionais da dieta ocidental, tais como lácteos e diversas carnes.
O período compreendido entre 1945 e 1950 se caracterizou como um tempo de crise, com alto desemprego, baixo poder aquisitivo, deterioração do ambiente urbano e devastação do setor agropecuário. Neste período, batata, vegetais e alguns escassos cereais compunham a dieta básica da nação. A desnutrição crônica e a falta de oferta de produtos de origem animal levaram a população japonesa a uma situação de carência energética e protéica. Nos cinco anos seguintes (1950-1955) apesar da continuidade da escassez de alimentos já se vislumbrava uma maior disponibilidade de alimentos de origem animal, tais como leite, lácteos, ovos e carne, bem como feijão. Esta maior variedade de alimentos já proporcionou um alívio da subnutrição e praticamente proporcionou uma satisfação calórica e protéica mínima. Um fato absolutamente importante nesta época foi o lançamento de um programa nacional de alimentação escolar. A merenda escolar consistia basicamente de leite, pão, margarina e um ou dois pratos diversos. Este programa de larga escala desencadeou uma mudança radical nos hábitos alimentares e incutiu nas crianças o hábito de uma dieta mais ocidentalizada. Já no período de 1955 a 1970, com o crescimento vertiginoso da economia, os lares japoneses passaram a contar com todas as conveniências típicas da prosperidade da sociedade ocidental, tais como os eletrodomésticos, incluindo televisão, máquinas de lavar, refrigerador, freezer e torradeiras. Isto colaborou para a consolidação dos novos hábitos alimentares, com o crescimento acelerado do consumo de ovos, queijos, manteiga, leite e carne, o que resultou num aumento de importações de alimentos por parte do Japão, bem como numa diversificação e internacionalização na estrutura de varejo do país, especialmente dos supermercados.
Aliás, até 1965 a maior parte do leite consumido no Japão era adquirida através da entrega a domicílio. A partir de meados da década de 60 o volume de leite distribuído por mercados e padarias começou a crescer de forma expressiva. Para se ter uma idéia dessa mudança, em 1983 os supermercados e lojas de conveniência já respondiam por 52% das vendas totais de leite no país e apenas 13% ainda era distribuído a domicílio. Somente seis anos mais tarde, em 1989, as cadeias de supermercados e lojas de conveniência passaram a responder por 70% das vendas de lácteos e a entrega a domicílio minguou para apenas 7% do total vendido (Figura 1).
Figura 1: Esquema de distribuição do leite e derivados no Japão (1990)

Os números entre parêntese referem-se às estatísticas do ano 1983, para efeito de comparação com os dados de 1990.
Retomada a análise histórica, a partir de 1970 o Japão empreendeu um grande esforço para diminuir a dependência das importações de produtos alimentares e até mesmo para se tornar auto-suficiente em alguns produtos. Neste período, também um outro fato marcante ajudou a consolidar os novos hábitos de consumo, que foi a proliferação das lojas de fast-food de grandes cadeias internacionais. E, desta forma, os japoneses passaram a desenvolver o hábito de fazer refeições fora de casa no estilo ocidental.
Todas estas mudanças na cadeia agro-alimentar japonesa podem ser vistas com clareza na tabela 1.
Tabela 1: Evolução do consumo (gramas/hab/dia) dos principais alimentos que compõem a dieta japonesa nas últimas décadas

Especificamente no que diz respeito ao leite e seus derivados, o consumo cresceu de forma muito acelerada nesse período. No entanto o pico de crescimento de consumo deu-se entre 1965 e 1975, quando a taxa de crescimento anual foi de impressionantes 9,4%. Após 1975, a taxa de crescimento começou a declinar chegando a um ritmo modesto de 0,5% ao ano na década de 90 em decorrência do esgotamento da ocidentalização nos hábitos de consumo, da queda da taxa de natalidade e da competição com outras bebidas tais como refrigerantes, bebidas isotônicas e energéticas (tabela 2).
Tabela 2: Evolução do consumo per capita de leite e derivados no Japão (kg/hab/ano)

Atualmente o consumo per capita atinge cerca de 95 litros de leite/hab/ano (equivalente leite fluído considerando todos os produtos lácteos), valor esse pequeno quando comparado com outros vários países industrializados e desenvolvidos do ocidente, como pode ser visto na tabela 3, mas muito além daquele encontrado no Japão em 1960, que era de 22 l/hab/ano (tabela 1).
Tabela 3: Consumo anual per capta de leite e outros produtos lácteos (1995)

O impacto dessas mudanças drásticas nos hábitos de consumo dos japoneses repercutiu prontamente na dinâmica do setor agrícola. Mesmo com todo o esforço feito para dinamizar a produção doméstica, o Japão não tem conseguido reduzir a sua dependência da importação de alimentos e hoje se caracteriza com um grande importador no mercado internacional. Para exemplificar essa situação pode-se apontar que a auto-suficiência alimentar, expressa em termos de consumo calórico, declinou de 73% em 1965 para 35% em 1995. Exceto para o arroz e vegetais, a dependência da compra de alimentos de outros países é extremamente grande como pode ser observado na tabela 4. Atualmente 28% do leite consumido no Japão é proveniente das importações, o que representa cerca de 2,5 bilhões de litros/ano, uma vez que o Japão produz 8,5 bilhões de litros/ano enquanto o consumo chega na casa de 11 bilhões. Para se ter uma idéia, hoje o Brasil consome cerca de 22 bilhões de litros e produz 20 bilhões. Dessa forma, o volume de leite importado pelo Japão é muito semelhante ao do Brasil atualmente.
Tabela 4: Taxa de auto suficiência doméstica(%)

Um outro fato ilustrativo da grande dependência externa japonesa no setor de produtos alimentícios é que hoje cerca de 65% do consumo de carne bovina do Japão é proveniente do exterior, o que caracteriza este país como um dos maiores importadores do mundo. A diferença é que, neste caso, o Brasil acaba sendo exportador de carnes para o Japão, aliás, um mercado extremamente promissor. Vale a pena reparar que há cerca de 15 anos as importações de carne respondiam por apenas 28% do consumo doméstico total.
No Japão existem basicamente quatro classificações de leite no mercado: leite integral, leite processado, bebidas lácteas e leite semidesnatado. O leite integral consiste do leite pasteurizado e homogeneizado, que deve conter um mínimo de 3% de gordura e 8% de sólidos não-gordurosos. Já o produto classificado como "leite processado" deve conter pelo menos 70% de leite integral e pode se caracterizar como leite em pó desnatado, leite condensado ou leite concentrado. As "bebidas lácteas" devem conter entre 20 e 30% de leite integral e podem ser flavorizadas com café ou frutas, podendo ser enriquecidas com vitaminas e minerais. Por fim o leite semidesnatado deve obrigatoriamente ser composto por leite integral cuja gordura é retirada e padronizada para 1% (leite com baixa gordura/low fat milk) ou 0,1% (leite desnatado/non-fat milk).
Em 1995, cerca de 87% do leite era envasado em embalagens cartonadas de 1 litro, 500 e 250 ml. Garrafas de vidro reutilizáveis ainda eram usadas especialmente pelos serviços de entrega a domicílio e recentemente foram introduzidas embalagens plásticas contendo 900 e 300 ml.
Já a estrutura de processamento contava com um parque industrial composto por 877 plantas processadoras distribuídas pelo país. Do total de leite processado, 59% é transformado em leite fluído pasteurizado, enquanto o restante é destinado à produção de queijos, iogurtes, manteigas e outros derivados.
Atualmente, o preço pago pelo litro de leite nos supermercados japoneses chega a US$ 2,00 (R$ 3,80) e equivale ao preço de um litro de água mineral. Um fato interessante é que esse preço se mantém estável já há 10 anos, mesmo com uma inflação anual na casa de 2-3%, e o leite é considerado pelos japoneses como um produto barato. Uma pesquisa realizada na década de 90 mostrou que 35% dos japoneses achavam o preço do leite "comparativamente baixo", enquanto que 60% julgavam o preço "adequado", perfazendo um total de 95% dos consumidores satisfeitos com o preço do leite. Para efeito de referência, a mesma pesquisa apontou que apenas 63% dos entrevistados estavam satisfeitos com o preço do suco de fruta, por exemplo.
O perfil do setor de produção de leite
O Japão possui atualmente 35.400 fazendas leiteiras, com uma população de 1.816.000 vacas que produzem anualmente cerca de 8,5 bilhões de litros de leite. Isto aponta que o número médio de vacas/fazenda é de 51 e destas 26 em lactação, sendo que em média a produção anual por vaca em lactação gira ao redor de 8.500 kg.
A principal região produtora do país é a província de Hokkaido, localizada na ilha de mesmo nome, no extremo norte do país. Essa região é considerada o celeiro de produção agrícola do Japão. Em Hokkaido, o sistema de produção predominante é a utilização de pastagens temperadas nas épocas do verão e primavera, sendo que no inverno o gado fica confinando em virtude das baixas temperaturas e dos campos estarem cobertos por neve por um longo período. Já nas demais regiões as fazendas leiteiras estão dispersas em estreitos vales localizados entre as imensas cadeias de montanhas. Tais fazendas geralmente apresentam uma área bastante pequena, entre 10 e 15 ha e o gado fica confinado em sistema de Free-Stall ou Tie-Stall. Grande parte do alimento é comprada de fora da fazenda, o sistema de alimentação geralmente é automático e baseado em um sistema de TMR.
Se analisarmos historicamente a produção de leite no Japão veremos que a produção comercial de leite iniciou-se há cerca de 100 anos, no final da era Meiji, que sempre é a referência temporal e histórica no Japão. No entanto, até 1950, após o término da II Guerra Mundial, a estrutura de produção de leite era extremamente rudimentar e arcaica.
A modernização da pecuária leiteira japonesa iniciou-se juntamente com a recuperação econômica e reconstrução do país no pós-guerra e coincidiu exatamente com a introdução do programa de merenda escolar em larga escala no país. Por isso, a grande importância de se analisar o setor lácteo japonês tendo sempre como referência os hábitos alimentares da população.
Uma outra ressalva importante a ser feita é que qualquer análise do setor agropecuário no Japão necessariamente passa por uma avaliação comparativa com a cultura do arroz. Os japoneses têm sempre o arroz como referência, como se fosse um processo automático para quem trabalha com agricultura. Desta forma, argumenta-se que a grande expansão da pecuária leiteira no pós-guerra deveu-se ao interesse que essa atividade despertou nos produtores japoneses, em função de que a pecuária leiteira proporcionava uma receita contínua durante o ano, ao contrário do arroz, cuja renda era gerada uma vez por ano. Além disso, a produção de leite não sofria ação direta das intempéries do clima. Assim sendo, a produção de leite atraiu o interesse de um grande número de produtores no pós-guerra e o número de fazendas chegou a um pico de 410.000 em 1962. No entanto, nesse período, grande parte das fazendas contava com apenas 2 a 3 vacas leiteiras em produção e a pecuária leiteira era apenas uma atividade complementar geradora de renda constante para fazendas produtoras de arroz ou outras culturas de área seca. Isso resultava numa produção limitada de leite que atingia apenas cerca de 2,5 bilhões de litros ou 35% da produção atual.
Cabe aqui um esclarecimento de que no Japão divide-se a produção agrícola em basicamente duas atividades: arroz ou culturas de áreas secas (dry field farming). Isto porque o arroz é a cultura predominante e explorada nas áreas de várzea e com sistema de irrigação por inundação.
No entanto, a partir de meados da década de 60, a pecuária leiteira no Japão começou a sofrer grandes transformações em virtude do florescimento exponencial da economia japonesa, que incentivou tremendamente a migração, especialmente dos jovens, das áreas rurais para os centros urbanos. Dessa forma, a maioria das fazendas, que era calcada numa estrutura familiar, ficou sem mão-de-obra para dar continuidade às atividades e grande parte delas acabou fechando, sendo incorporada por outras fazendas, formando unidades maiores e mais eficientes. Isso fez com que em 1975 já houvesse apenas 160.000 fazendas leiteiras, número que declinou para 82.000 em 1985 e que seguindo uma taxa de decréscimo anual de 7-8% resultou em apenas 35.400 fazendas atualmente. Nesse período o número de vacas leiteiras aumentou de forma significativa até meados da década de 90, quando o rebanho se estabilizou na faixa de 1,8 a 2 milhões de vacas e até mesmo vem sofrendo uma pequena redução gradativa (tabela 5).
Tabela 5: Estrutura da produção de leite no Japão

Os japoneses sempre se orgulham em afirmar que com uma pecuária leiteira estruturada em apenas 50 anos, hoje eles já superam em tamanho e eficiência de produção a pecuária leiteira de países europeus e americanos tradicionais com um setor de produção estabelecido há mais de 200 anos. Para exemplificar, eles apontam que entre 1975 e 1990 o número de vacas/fazenda cresceu cerca de 160% no Japão, sendo que em países tradicionais como França, Itália e Inglaterra essa taxa ficou entre 60 e 80%, segundo eles, e isso representa um indicador de eficiência. Enquanto no Japão o número de vacas/fazenda atingia uma cifra de 48 animais em 1998, esse valor mal chegava a 30 animais na França e Alemanha (tabela 6). Nesse mesmo período o consumo de leite cresceu 48% no Japão, enquanto que o número de fazendas declinou em 42%.
Tabela 6: Estrutura de produção de leite e produtividade em diferentes países

Além disso, dizem os japoneses, deve-se analisar essa situação à luz das dificuldades comparativas para produção de leite no Japão, destacando-se a carência de terras e a topografia extremamente acidentada do país. Dessa forma, a única maneira de atender minimamente ao grande incremento da demanda interna foi investir no aumento da produção de leite/vaca. Assim, a produção média de leite por vaca/ano no Japão em 1975 era de apenas 2,800 kg/vaca em lactação. Passados apenas 24 anos, em 1999, essa média de produção já alcançava cerca de 8.500 kg/vaca em lactação/ano, superando quase todos os países de pecuária leiteira desenvolvida e praticamente encostando na média de produção americana (tab. 6). Assim, o Japão desfruta hoje da posição de um dos países com maior média de produção do mundo.
Apesar de todo esse progresso e incremento na produtividade, a produção de leite no Japão está lastreada na típica pequena propriedade familiar. Mais de 90% das propriedades leiteiras japonesas são de caráter independente e administração familiar sendo que 97% das fazendas empregam até 4 pessoas (tabela 7). Nesse cenário, o grande desafio que deverá ser encarado pelo setor agrícola japonês é a carência de mão-de-obra devido à falta de interesse dos jovens em permanecer no campo. Uma pesquisa recente apontou uma expectativa de que apenas 7,2% de todas as fazendas japonesas irão passar para as mãos dos herdeiros e serão mantidas pela mesma família. Isto sugere que cerca de 90% das fazendas correm o risco de fechar na próxima geração, o que poderá afetar de forma significativa o setor leiteiro.
Tabela 7: Perfil das fazendas leiteiras japonesas (número de funcionários/fazenda)

A apresentação de toda esta problemática é fundamental para que se possa compreender a impressionante política de proteção ao setor agrícola imposto pelo governo japonês. Chega a ser estarrecedor observar a quantidade de subsídios empregada para preservar a sua agricultura pujante, ativa e protegida da competição internacional. Isso tudo tem uma lógica, que se baseia no receio da nação japonesa de depender ainda mais de outros países para proporcionar alimento a sua população, sem esquecer que as feridas abertas pela guerra ainda não cicatrizaram completamente e deixaram suas marcas no povo japonês. Além desse caro conceito de seguridade alimentar (food security) pesa também a necessidade de manter uma população rural ativa e ocupada, para evitar mais migrações para os centros urbanos e para preservar o ambiente rural. Considerando que o potencial de competição da agricultura japonesa é irreversivelmente baixo em decorrência das limitações de área, de topografia acidentada e do alto custo de mão-de-obra, a única forma de sobrevivência é um controle rígido e oferta de grandes valores na forma de subsídios aos produtores, bem como uma política protecionista das mais severas do mundo, com a imposição de todo tipo de barreiras alfandegárias e não-alfandegárias.
Dessa forma, o setor leiteiro não foge à regra e sofre uma severa interferência do governo. Compreender o intrincado mecanismo de comercialização de leite no Japão não é uma tarefa fácil. Inicialmente é preciso saber que o mercado de leite é regulado oficialmente por um órgão do governo chamado Livestock Industry Promotion Corporation, sempre baseado em dados de oferta e demanda aferidos no mercado. Desde 1965 vigora um sistema de subsídio direto aos produtores, além de um programa oficial do governo que estabelece "tetos de produção" para o país. Através desses mecanismos o governo previne a ocorrência de instabilidade na oferta ou na demanda que poderiam gerar instabilidade de preços. Além disso, a partir de 1979 os produtores de leite do Japão se organizaram voluntariamente com a fundação do Japan Dairy Council (JDC) e formularam um sistema de produção planejada em todo o país, que auxilia ainda mais na manutenção da estabilidade de preços. Considerando que a agregação a esse sistema de produção planejado não é obrigatória por lei, qualquer produtor a princípio poderia optar por não participar desse programa e operar de forma independente. No entanto, apenas 5% dos produtores assim o fazem, o que mostra a força e desejo de agregação coletiva por parte dos produtores japoneses.
Na prática, todo ano o Ministério da Agricultura determina o teto de produção e a quantidade de subsídios diretos oferecidos. Baseado nestas estimativas o JDC estabelece uma projeção alvo de produção para cada município. Por seu turno, cada associação municipal estabelece um valor a ser produzido para cada cooperativa e/ou produtores individuais independentes do município. Ao final de cada ano fiscal o JDC analisa os dados obtidos e então estabelece um tipo de punição (US$ 0,04/litro) para aqueles casos em que houve excesso ou falta de produção.
Mas para compreender agora como se chega ao preço pago ao produtor é necessário se familiarizar com alguns conceitos. Basicamente o governo estabelece todo ano um preço mínimo oficial a ser pago aos produtores. Além disso, o governo também amarra a outra ponta da cadeia ao determinar um "preço indicativo de estabilização", que nada mais é do que um valor de referência máximo para o leite no atacado e que deve cobrir os custos da indústria com a compra da matéria-prima, processamento e marketing. Dessa forma, a indústria, trabalhando com esse limite de preço de estabilização fixado pelo governo, avalia os seus custos de processamento, marketing e uma margem de lucro razoável e finalmente fixa um valor de mercado a ser pago aos produtores (Standard Transaction Price). Considerando que o Standard Transaction Price invariavelmente é menor do que o preço mínimo oficial, o governo cobre a diferença na forma de subsídio direto que é chamado de "deficiency payment".
Para exemplificar o funcionamento desse sistema, pode-se apontar os valores vigentes no ano de 99. Naquele ano o preço mínimo oficial a ser pago aos produtores foi de US$ 0,74/litro. Baseado no limite estabelecido pelo preço indicativo de estabilização (preço máximo no atacado) fixado pelo governo, as empresas de laticínios puderam ou se dispuseram a pagar US$ 0,63/l aos produtores. Consequentemente o governo arcou com a diferença de US$ 0,11/l aos produtores na forma de subsídios diretos (ver tabela 8)
Tabela 8: Preço mínimo ao produtor, standard transaction price e subsídio governamental direto pago aos produtores de leite do Japão (US$/100 litros de leite)

Isso mostra claramente a proposta do governo em defender e proteger a agricultura doméstica custe o que custar. Não é à toa que o Japão se caracteriza como um dos países que mais gasta com subsídios à agricultura no mundo, chegando, por exemplo, a gastar US$71,4 bilhões em 1999, valor este muito superior a todas as exportações brasileiras neste último ano, incluindo aqui produtos agrícolas e não-agrícolas.
As fazendas de leite no Japão
Com todo esse suporte do governo, o que se observa é que os produtores japoneses, a princípio, sentem-se confortáveis para produzir leite e se dizem satisfeitos com a atividade. Nos últimos meses o preço pago tem girado em torno de US$ 0,90/l, e não há dúvida de que isso explica grande parte da satisfação dos produtores, afinal esse é um dos maiores preços pagos pelo litro de leite no mundo. No entanto, cabe aqui uma ressalva, que não se deve analisar esse número meramente sob uma ótica monetária e cambial simplista, pois afinal todos os custos também são mais elevados no Japão. Além disso, as condições de exploração agrícola no Japão são altamente limitantes em função da falta de escala (pequenas propriedades) e das condições geográficas. Para se ter uma idéia, na maioria das fazendas japonesas, cerca de 80 a 90% da alimentação do rebanho é comprada de fontes externas à fazenda. E essa situação é tão drástica que inclui até mesmo o alimento volumoso, na grande maioria das vezes importado. Não é incomum encontrar-se fardos de feno de alfafa ensacados em grandes "bags" nas fazendas japonesas. Esse feno é importado basicamente do Canadá e Austrália e chega ao produtor japonês a um custo médio de US$ 400,00/ton. Além disso, a mão-de-obra é um item que também onera de sobremaneira a produção. Um estudo do Ministério da Agricultura aponta que 2/3 do custo de produção estão associados apenas com mão-de-obra e alimentação comprada de fora da fazenda, conforme mostra a tabela 9. Isso explica, por exemplo, a grande preocupação com a otimização de mão-de-obra nas fazendas japonesas.
Tabela 9: Custo de produção de leite no Japão

Em todas as fazendas que visitamos, a operação de alimentação era altamente automatizada. Quase todas as fazendas utilizam o sistema de TMR composto por uma ração comercial peletizada de alta qualidade, contendo milho floculado, farelo de soja e outros diversos ingredientes. Na maioria das vezes também era ofertado feno, que pode ser de alfafa (importado geralmente) ou de gramíneas tais como azevém ou pasto italiano. Em algumas fazendas também havia disponibilidade de alfafa em cubos (importada). A operação de fornecimento de alimentos é completamente mecanizada, com a utilização de vagões de TMR ou mesmo de alimentadores automáticos no formato de um carrinho, que corre por toda a extensão do estábulo guiado por trilhos, tudo computadorizado. Já na ordenha, surpreendentemente não havia grande sofisticação e o sistema usado variava de salas tipo espinha de peixe tradicional até a ordenha direta no estábulo com sistema de leite canalizado. Lógico que tais operações contavam com as tecnologias básicas como extrator de teteiras e medição eletrônica do leite. O manejo de ordenha era simples e padronizado, envolvia a limpeza dos tetos, pré-dipping, secagem com papel toalha ou paninho, colocação das teteiras e pós-dipping efetivo com desinfetante tradicional. Todas as fazendas contavam com tanque resfriador, geralmente com lavagem automática e a entrega do leite era feita principalmente a cada 48h. A maioria das fazendas executava 2 ordenhas por dia.
Em termos de genética, a grande maioria das vacas criada no Japão é da raça holandesa. O padrão genético do gado é bastante bom e a origem principal da genética japonesa é os Estados Unidos, sendo que a maioria dos produtores utiliza I.A. amplamente, o que possibilitou uma melhoria acelerada do padrão genético do rebanho num curto espaço de tempo e viabilizou o incremento da média de produção para um padrão bastante elevado (ver resumo na tabela 10).
Tabela 10: Características das fazendas leiteiras japonesas

Analisando-se criticamente a situação pode-se dizer que não há nada de surpreendente em termos de manejo de ordenha e de alimentação nas fazendas japonesas. O nível de higiene empregado assemelha-se àquele utilizado nas boas fazendas brasileiras. A alimentação é aparentemente bem balanceada, com alimentos de alta qualidade (e caros!) e altamente automatizada, talvez sendo este o fato que mais chama a atenção de um visitante. A impressão que se tem ao chegar em uma fazenda japonesa é que a organização geral não segue conceitos de excelência. Verificam-se muitas anotações feitas a mão, nas tradicionais cadernetas de campo, o escritório da fazenda geralmente fica na própria sala do leite ou anexo ao estábulo e o gerenciamento da fazenda é muito baseado em anotações manuais e tabelas fixadas na parede. Surpreendentemente parece que os recursos de informática não são muito utilizados na administração da fazenda. Além disso, ao se conversar com os produtores fica-se com uma impressão de que os mesmos não detêm um profundo conhecimento técnico da atividade e mesmo não sabem das informações precisas sobre o manejo adotado ou números precisos sobre a fazenda.
No entanto, um aspecto que chama a atenção é o cuidado que se dá ao manejo de esterco. Percebe-se que esta é uma preocupação muito particular dos produtores japoneses. Em quase todas as fazendas há sistemas automáticos de raspagem e coleta de esterco, e o material recolhido é acondicionado em containers ou caminhões, que levam os dejetos para compostagem ou para distribuição nas áreas de agricultura. Em primeiro lugar há uma preocupação muito grande com o meio ambiente e, além disso, como as áreas rurais ficam muito próximas e miscigenadas com os aglomerados urbanos, há uma pressão muito forte da comunidade para com a questão de controle de odores exalados pelos dejetos das fazendas. Por isso, o governo incentiva projetos de usinas de compostagem para sanar o problema. Tivemos a oportunidade de visitar uma dessas usinas. Aliás, uma organização fantástica e que parece muito mais organizada do que as próprias fazendas. Nessa unidade visitada, havia uma série de galpões cobertos como se fosse uma estufa de plantas com maquinários instalados para revolvimento e secagem do esterco. Essa unidade à parte, foi resultado de um empreendimento societário feito por 4 fazendeiros, que alocavam todo o esterco produzido por suas fazendas leiteiras localizadas nas redondezas, para essa estação de tratamento, onde o esterco era misturado com maravalha, fermentado, seco e ensacado na forma de húmus, que então era vendido para proprietários de estufas de plantas e mesmo em supermercados, para uso como insumo para jardinagem, aliás, esse um hobby nacional. Todo o empreendimento foi financiado pelo governo, quase que a fundo perdido, ficando para os proprietários a tarefa da mão-de-obra e administração do negócio. Cada saca de 15 Kg de húmus era vendida a US$ 50,00 e isso resultava num empreendimento tão ou mais lucrativo do que as próprias fazendas daqueles produtores.
Ficou para todos os visitantes a real mensagem de como é possível transformar desafios em oportunidades e talvez isso sirva como exemplo da filosofia japonesa de viver e encarar as dificuldades ou desafios.
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ALGUNS FATOS SOBRE O JAPÃO
O Japão é um país milenar localizado no extremo leste da Ásia, separado do continente asiático pelo mar do Japão, defronte a China e a Coréia. Basicamente o Japão é constituído por 4 grandes ilhas principais - Honshu, Hokkaido, Shikoku e Kyushu - ao redor das quais se agrupam cerca de 3.000 outras ilhotas, muitas delas até inabitadas. O país tem um formato de arco no sentido Norte-Sul com um comprimento estimado de 1.800 km, sendo que a máxima distância no sentido Leste-Oeste (largura) atinge não mais de 250 km. Pelo seu formato, o Japão apresenta uma incrível diversidade climática, variando de um clima sub-ártico no norte de Hokkaido até um clima subtropical ao sul de Kyushu. Dessa forma a variação na temperatura, flora, fauna e cenário natural é bastante grande, o que torna o Japão um país particularmente atraente por sua diversidade, além é claro, da sua cultura milenar e do seu desenvolvimento tecnológico. Cabe destacar aqui que cerca de 75% do território japonês é composto por montanhas, grande parte delas de origem vulcânica, sendo que existem 265 vulcões no Japão e destes 30 ainda considerados ativos. Um dos mais famosos é o Monte Fuji, o pico mais alto do país e atualmente um vulcão dormente. Devido às suas características físicas e geológicas (o Japão apresenta mais de 2.000 falhas rochosas) este país é tradicionalmente conhecido pela propensão à ocorrência de terremotos, com o ocorrido em Kobe em 1995 que matou 5.000 pessoas e deixou 300.000 desabrigadas. Em decorrência de todas essas limitações o Japão surpreende por ter superado os desafios e se caracteriza hoje como uma das nações mais prósperas e desenvolvidas do planeta. O crescimento econômico do Japão no pós-guerra foi espantoso e acabou criando um país com um dos maiores e melhores parques industriais e tecnológicos do mundo. No entanto, desde 1992 o Japão vem passando por um desaquecimento e enfraquecimento econômico que culminou com uma taxa de desemprego recorde de quase 5% em 1999, e atualmente, apesar da expectativa de retomada do crescimento, a economia anda a passos lentos, muito aquém do que se espera de uma potência mundial como o país do sol nascente. |