Recentemente referi-me ao fato de que as entidades (sindicatos, associações), que representam os interesses dos produtores leiteiros, concentram todos os seus esforços no sentido de obterem junto às indústrias compradoras, melhores preços para o leite. É óbvio que esta é uma das principais funções dessas entidades. Mas não deve ser a única. Enquanto as atenções e ações estão totalmente voltadas para a eterna luta por melhores preços, inúmeros fatos, situações ou procedimentos que se constituem em verdadeiros ralos por onde escoa a rentabilidade da atividade leiteira passam despercebidos ou literalmente ignorados por essas entidades.
É interessante observar que a consecução de resultados econômicos favoráveis depende tanto dos preços obtidos na venda do produto, como da redução dos custos para produzi-lo. Se temos duas alternativas, porque não concentrar esforços em ambas. Identificar os ralos por onde escoa a rentabilidade da atividade leiteira é o primeiro passo. Sem a pretensão de esgotar o assunto, vou relacionar alguns desses ralos, na expectativa de que os leitores possam oportunamente identificar outros e ampliar a lista de discussão.
- Preços e qualidade dos insumos necessários à produção leiteira;
- Eficiência da assistência técnica institucional (Emater, Secretarias de Agricultura, Cooperativas);
- Qualidade do ensino no meio rural;
- Qualificação de produtores;
- Relações entre os elos da cadeia agroindustrial do leite;
Naturalmente que não poderei abordar todos estes temas em um único artigo. Por enquanto vou me deter no primeiro ralo.
Qualidade e preços dos insumos
As despesas com alimentação do rebanho se constituem no item mais pesado da planilha de custos de produção de leite. E neste particular, o custo do alimento concentrado normalmente é o maior responsável.
O grande desafio do produtor leiteiro é alimentar seu rebanho de forma eficiente e pelo menor custo possível. No entanto, com extraordinária freqüência, ao comprar ração concentrada o produtor está adquirindo uma espécie de caixinha de surpresa - ninguém sabe o que tem dentro.
O rótulo da embalagem serve mais para confundir do que para esclarecer. Nele constam a composição básica do produto e os eventuais substitutos. O comprador não tem a menor chance de saber de fato quais são os ingredientes e a participação quantitativa dos mesmos na ração concentrada que está adquirindo.
Que bom seria se este fosse o único problema! Mas não é. A partir do momento em que se passou a introduzir uréia nas rações concentradas, o verdadeiro teor de proteína bruta (PB) dessas rações se constitui num enigma. Sabe-se que a flora ruminal é capaz de sintetizar proteína a partir do nitrogênio da uréia. Mas sabe-se também que esse processo somente ocorre quando a quantidade de proteína natural ou verdadeira dos alimentos que chegam ao rúmen é insuficiente para atender os requerimentos protéicos das bactérias. Caso contrário, a uréia não será mobilizada, havendo desperdício de N.
O correto seria que as rações concentradas que contém uréia, tivessem especificado no seu rótulo as quantidades de proteína verdadeira bem como a quantidade de uréia adicionada. Mas isto não acontece.
Na verdade, em muitos casos, a adição de uréia em rações concentradas se constitui num artifício safado para iludir o produtor, na medida em que apenas teoricamente aumenta o teor protéico dessa ração.
É bom esclarecer que a adição de uréia em rações concentradas não é um procedimento condenável em todos os casos. Se adicionarmos uréia a um concentrado que tenha 12% ou menos de proteína natural, ocorrerá uma elevação no teor protéico dessa ração porque o N será mobilizado para a produção de proteína bacteriana. Mas se o teor de proteína natural do concentrado for superior a 12% provavelmente a uréia não será utilizada como fonte protéica. Portanto, houve apenas uma elevação virtual dos teores de proteína bruta dessa ração. E o preço, é lógico, está vinculado ao teor virtual e não ao real.
Distorções nas análises
Na condição de assessor técnico de produtores leiteiros, com certa freqüência envio amostras de rações concentradas comerciais para análise laboratorial. Confesso que já não me surpreendo mais com os resultados. Entre as distorções mais freqüentes aparecem as seguintes:
Segundo o laudo do laboratório, o teor de proteína bruta não confere com o que está especificado no rótulo do produto;
Em outros casos há coincidência de valores entre o resultado obtido no laboratório (ainda no que se refere a PB) e o especificado no rótulo do produto, mas a presença não quantificada de uréia mascara esse resultado.
Ocorre que a técnica laboratorial utilizada para avaliar o conteúdo protéico dos alimentos, consiste em medir a quantidade de N contida nos mesmos e multiplicar o valor obtido pelo fator 6,25. Mas, conforme citado anteriormente, nem todo o nitrogênio não protéico (NNP) presente na ração será necessariamente utilizado para a síntese de proteína.
Não é raro a análise laboratorial da ração concentrada apontar um teor de fibra (FDN) muito superior aos teores médios de fibras dos ingredientes usados na composição da mesma. Estranho, não é?!
Tudo isso acontece porque a legislação do Ministério da Agricultura que regulamenta a produção e comércio de rações concentradas é arcaica e a fiscalização, se existe, é precária.
Como este mercado é muito concorrido, algumas empresas lançam mão de artifícios pouco ou não recomendáveis, com o propósito de tornar seus produtos aparentemente mais acessíveis diante da concorrência.
Se esses produtos vão levar benefícios ou atender a verdadeira demanda dos produtores, ...bem, isto é outra conversa.
Outros alimentos
A produção e comercialização de suplementos minerais , ressalvando as exceções, é uma "farra geral", onde incompetência, irresponsabilidade e desrespeito a inteligência e aos bolsos alheios dão o tom.
Diariamente estão surgindo no mercado novas marcas de suplementos minerais com propriedades "fantásticas", tais como: "capacidade de triplicar a produção leiteira, reduzir células somáticas, controlar carrapatos, diminuir a incidência de mastites" e outros milagres possíveis apenas na imaginação fértil de alguns vendedores.
Na ânsia de fazer seus produtos parecerem mais baratos do que os da concorrência, algumas empresas recomendam que o produtor misture com sal comum o concentrado mineral por elas fabricado, em proporções absurdas. Algo assim: em torno de 1 kg do concentrado em 40 kg de sal comum.
É fácil concluirmos que este sal mineralizado contém porções ínfimas dos minerais essenciais necessários ao rebanho.
Mais uma vez a legislação arcaica e a fiscalização precária criam um ambiente extremamente favorável para esse tipo de comércio, que vai minando de forma insidiosa a rentabilidade da exploração leiteira. Seja por provocar prejuízos diretos ao desempenho do rebanho leiteiro ou por drenar recursos financeiros que poderiam ser melhor utilizados.
Produtos veterinários
A área de medicamentos veterinários e vacinas também não é muito diferente. Na maioria dos países desenvolvidos a licença para comercializar novos produtos ou princípios ativos só é fornecida se a empresa fabricante apresentar laudo de algum instituto de pesquisa oficial ou credenciado que ateste a eficiência dos mesmos.
No Brasil é diferente. Usando a linguagem do futebol - "é chutar e se abraçar". Imaginem que já tínhamos vacina contra mastite circulando no mercado enquanto em países mais evoluídos tecnologicamente os testes com as vacinas J5 e aquelas produzidas com antígeno capsular de Staphylococcus aureus estavam ainda na fase inicial.
Ou o nível tecnológico das nossas empresas é muito mais alto do que suponho, ou...
Finalizando
Estou convencido de que atualizar a legislação, criar novas normas e regulamentos que disciplinem a produção e o comércio de insumos e estabelecer padrões de qualidade para os mesmos não é tarefa tão difícil como pode parecer no primeiro momento. Basta ter vontade política para isso.
O Ministério da Agricultura está dando um belo exemplo de que quando se quer efetivamente evoluir, é possível encontrar os meios adequados para fazê-lo.
Refiro-me ao Plano Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite em fase de implantação.
Foram criados três grupos de trabalho constituídos por pessoas qualificadas, a legislação foi atualizada e novas normas e regulamentos foram implantados.
Para monitorar a qualidade do leite foi criada a Redeleite - conjunto de laboratórios que receberão investimentos federais a fim de se qualificarem para essa função. Foi criada linha de crédito específica - PROLEITE - para financiar a aquisição de resfriadores de modo a facilitar o processo de adequação dos produtores às novas exigências. Muito bem! Aplausos.
Pergunta-se - porque não aproveitar o "embalo", usando essa mesma capacidade de mobilização, e implantar um Programa Nacional de Melhoria da Qualidade dos Insumos?
Com a palavra, as entidades que representam os interesses dos produtores leiteiros.
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1Médico Veterinário
Diretor da OM Consultoria e Assessoria Técnica em Pecuária de Leite, e articulista dos informativos da Scot Consultoria
Escoadores da rentabilidade da produção leiteira
Identificar os ralos por onde escoa a rentabilidade da atividade leiteira é o primeiro passo. Saiba mais sobre este assunto neste artigo, acesse!
Publicado por: Otaliz de Vargas Montardo
Publicado em: - 7 minutos de leitura
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Otaliz de Vargas Montardo
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