Crença cega ou desconfiança administrada?
Como tornar realidade o estabelecimento de padrões efetivos e realistas diante de demandas complexas por parte da sociedade?
Ocorre que de vez em quando tal dinâmica nos traz algumas surpresas: há apenas 1 ano, ninguém questionaria as inocentes almôndegas vendidas nos supermercados europeus. Consumidores felizes com os ótimos preços, empresas diversificando suas linhas de produto, concorrência ferrenha pelo direito de fornecer a lasanha congelada de cada dia. Egoísmo ou concórdia, o importante é que tudo parecia funcionar. Um caso de trapaça, porém, fez com que o sonho caísse por terra, ao menos por algumas semanas. Embora os riscos do consumo da carne de cavalo sejam mínimos, certo estrago foi feito. Milhares de consumidores, sentindo-se traídos, correram para o açougue da esquina. Buscavam, em tal ato, humanizar um pouco o intercâmbio, transferindo para o açougueiro um papel que a profusão de selos e sistemas de controle havia sido incapaz de desempenhar: garantir plena previsibilidade na procedência dos alimentos.
Abandonemos a visão inocente, entretanto: o que assegura a mensuração perfeita de cada detalhe daquilo que consumimos não é o grau de amizade com quem nos vende o alimento, e sim o estabelecimento de sistemas de controle adequados. E, para isso, é preciso pagar a conta de tais processos. Antes, devemos reconhecer que consumidores e produtores não estão trabalhando para um bem comum, e sim buscando realizar objetivos específicos motivados pelo auto-interesse. Afinal, se os indivíduos querem pagar o mais barato possível e as empresas maximizarem o lucro para os seus acionistas, o surgimento de um custo extra implica uma pergunta inevitável: de que forma este é distribuído entre as partes interessadas?
Por isso, não nos enganemos: escândalos como o da 'carne de cavalo' são minúsculos perto de outros desafios como o alinhamento das práticas corporativas com as metas impostas pela agenda do 'desenvolvimento sustentável', por exemplo. Para o estabelecimento de padrões realistas e efetivos, é necessário que todas as partes interessadas sentem à mesa e discutam oportunidades e desafios. Tal tarefa, no entanto, é complexa. Em primeiro lugar, muitos dos grupos de interesse possuem um nível mínimo de organização na atualidade. Quem representa os consumidores, por exemplo? Estarão dispostos a pagar por seus desejos, ou o efeito 'carona' aqui vencerá?
Ademais, discutir parâmetros exige o estabelecimento de certa estrutura, e alguém deve pagar por isso. Perguntas relevantes incluem: o responsável por acertar a conta dos debates tem algum privilégio na hora das decisões? Ou, sendo mais direto, poderá uma mesa redonda ser usada para afirmar o discurso de apenas um grupo, oferecendo propaganda ao invés de um diagnóstico claro? Outra questão interessante diz respeito à estrutura de discussão nessas estruturas. Imagine uma situação em que ONGs, empresas, governo, academia e consumidores se reúnam para discutir padrões para uma cadeia e as responsabilidades de cada um. Pois bem, terão todos os mesmos direitos a contribuir para o resultado final?
E, finalmente, é preciso reconhecer: existe considerável probabilidade de que um acordo exija importantes concessões de ao menos uma parte. Diante de interesses conflitantes – o consumidor que quer pagar o menos possível, o produtor que busca maximizar o lucro, a ONG que defende um ecossistema ou o bem-estar animal – é muito difícil dizer quem tem a razão. Ainda por cima, há a concorrência do mecanismo de mercado, capaz de oferecer soluções rápidas para uma série de questões econômicas. Entre uma solução mais efetiva, porém mais cara e demorada, e uma rápida e barata, porém capaz de empurrar os problemas para frente, não raramente optamos pela segunda opção.
Iniciativas envolvendo uma variedade de agentes - chamadas 'multi stakeholder initiatives' - já são realidade em muitas cadeias. A academia está começando a traduzir o pioneirismo dos agentes em teorias coerentes que demonstrem o seu funcionamento. Pretendemos voltar ao tema inúmeras vezes, descrevendo exemplos e debatendo os principais desafios encontrados. No momento, a principal conclusão que queremos deixar para os leitores é a de que a construção de padrões efetivos exige o diálogo entre agentes com interesses conflitantes. Tal requisito, por sua vez, lança desafios sobre a forma como as conversas devem ser organizadas, quem as patrocinará e como as decisões se materializarão em um plano de ação. Complicado, não? Talvez por isso, milhões de indivíduos, mais do que informação, busquem 'tranquilizar a consciência' ao encontrar selo X ou certificado Y nas embalagens dos produtos.
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Material escrito por:
Bruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)
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DIVINÓPOLIS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 11/04/2013
Sensacional !
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 04/04/2013
Muito obrigado pelo comentário. O importante é encontrar formas de canalizar essa busca pelo auto-interesse econômico para atividades que não sejam destrutivas do ponto de vista social. Afinal, a vida em sociedade implica um complexo contrato, do qual todos fazemos parte: encontrar a sintonia fina para essa interação não é fácil e é por isso que, não raramente, nos deparamos com esse choque entre os interesses de uns e o bem-estar de outros.
Aproveitamos para deixar o convite: sempre que quiser participar, o espaço é seu.
Atenciosamente
Bruno Miranda
RIO BONITO - RIO DE JANEIRO
EM 03/04/2013
As empresas não têm "Coração e sim CNPJ"
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 27/03/2013
Gostaríamos de agradecer a participação no fórum. Sempre que tiverem comentários, críticas, sugestões de textos, usem este espaço para se expressarem. Da mesma forma, convidamos outros leitores a participar também.
Atenciosamente
Bruno Miranda

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 27/03/2013
Realmente dificil de resolver, mas é necessário todos ficarem atentos ao tema.

ORIZONA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 27/03/2013
Aguardo pelo próximo!