Como tornar a qualidade do leite uma epidemia

Haveria a necessidade da presença dos fatores motivadores intrínsecos, que gerariam a perenização do desejo de manter uma alta qualidade do leite.

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Os autores do paper que analisei no artigo passado desta coluna, também discutem as estratégias para tornar a questão da melhoria da qualidade do leite uma obsessão coletiva, fato este que os autores chamaram de epidemia da qualidade do leite, ou seja, o que pode ser feito para tornar a idéia de melhorar a qualidade do leite uma prioridade coletiva e sistemática. Segundo os autores, dentre os elementos motivadores da qualidade do leite temos: a educação, a bonificação no preço, a não aplicação de um desconto, etc... Analisando cada um desses fatores poderíamos encontrar limitações. Por exemplo: seria correto afirmar que todo o produtor aplica todos os conceitos técnicos que conhece? Em outras palavras, os produtores aplicam sempre todo o conhecimento/educação que recebem no decorrer de sua formação? Nem sempre! Diz o ditado que "o conhecimento só tem valor quando é posto em prática", ou seja, não adianta você ser um profundo conhecedor de como melhorar a qualidade do leite se você não aplicar efetivamente este conhecimento.

Desta forma, para que o conhecimento seja posto em prática, há a necessidade de um fator de estímulo. Neste caso, um fator de estímulo poderia ser o incentivo financeiro (pagamento diferenciado por qualidade), que os autores chamaram de fator motivador extrínseco (dinheiro). Sem dúvida, esse é um potente fator motivador. No entanto, cabe ressaltar também que de nada adianta termos o fator motivador se não houver a presença do elemento básico que viabiliza a melhoria da qualidade do leite, isto é, o conhecimento técnico. Em resumo, voltaremos par o ponto inicial, ou seja, a importância básica do treinamento e da educação dos produtores.

Mas evoluindo um pouco mais nessa linha de raciocínio, os autores destacam que mesmo com a presença do conhecimento (como fazer) e de algum fator motivador extrínseco, ainda haveria sempre um risco dos objetivos fiais não serem atendidos (melhoria da qualidade do leite) pois esses fatores extrínsecos são potencialmente de curta duração e necessitam ser renovados constantemente. Explicam os autores que, por exemplo, caso haja uma redução no pagamento por qualidade ou uma queda significativa no preço do leite, os produtores perdem imediatamente o estímulo e passam a negligenciar a qualidade do leite. Desta forma, haveria a necessidade da presença dos fatores motivadores intrínsecos, que gerariam a perenização do desejo de manter uma alta qualidade do leite. Os tais fatores motivadores intrínsecos foram definidos pelos autores como sendo "sentimentos intangíveis de um desejo interno de fazer as coisas de forma correta ou de ser o melhor em alguma coisa". Desta forma, quando se atinge o estágio de presença de fatores motivadores intrínsecos, garantimos a continuidade das práticas que visam a melhoria ou a manutenção de uma boa qualidade do leite, independentemente de qualquer outro fator. Neste caso, mesmo que haja, por exemplo, uma queda significativa no preço do leite, os produtores continuarão motivados a manter a qualidade do produto.

Bom, mas o desafio agora é saber como obter essa motivação positiva intrínseca. Para isto, os autores da análise recorrem aos conceitos de um livro chamado "The Tipping Point", de autoria de Malcolm Gladwell. Este livro sugere que tanto idéias quanto produtos se disseminam de uma forma semelhante a uma doença, e para isto o autor busca elementos na teoria da epidemiologia. Segundo ele, toda a epidemia tem início a partir de um ponto de inflexão da taxa de prevalência da doença em um rebanho ou população. Ou seja, uma doença contagiosa se dissemina numa taxa normal na população até um estágio X, a partir do qual a multiplicação se torna exponencial e o quadro para a ser identificado como sendo uma epidemia. Esse estágio X é o que o autor chama de "Tipping Point".

Mas voltando ao nosso assunto de qualidade do leite, os autores propõem que se "induza" um "Tipping Point" para disseminar a idéia de que a qualidade do leite é um assunto de máxima importância, pois uma vez que isso seja obtido, os produtores em massa atingiriam o estágio de motivação intrínseca, justamente aquele que é mais sólido, e essa idéia viraria uma "obsessão coletiva".

Desta forma, retorno aos conceitos do livro de M. Gladwell, que sugere que existem 3 fatores necessários para tornar uma idéia (ou produto) epidêmica, a saber:

a) A lei de poucos: basta apenas um pequeno número de pessoas dedicadas, entusiasmadas e persistentes para disseminar uma idéia
b) O fator "stickness": o que importa não é o que você diz, mas como você diz. É preciso tornar a mensagem memorável, automática e obsessiva. Algo como "bonita camisa Fernandinho", ou "exportar ou morrer". No nosso caso, a mensagem deveria ser: "qualidade do leite é uma questão básica", ou coisa do gênero.
c) A força do contexto: a circunstância tem que ser favorável para se multiplicar de forma exponencial uma idéia. No nosso caso específico, poderíamos dizer que momentos como este que estamos passando, em que a portaria que regulamente o PNMQL foi recentemente aprovada, é um momento propício para se disseminar a necessidade / importância da qualidade do leite.

Enfim, esta discussão parece bastante interessante e mostra algumas idéias de como disseminar um conceito sobre a importância da qualidade do leite. Parece que estes conceitos teriam campo fértil no atual momento por que passa a pecuária leiteira brasileira. No entanto, gostaria de reforçar que de nada adianta estes conceitos de fator motivador - sejam extrínsecos ou intrínsecos - se não tivermos a presença dos elementos básicos, que são o conhecimento técnico, o treinamento e educação do produtor de leite.
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Material escrito por:

Luis Fernando Laranja da Fonseca

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André Gonçalves Andrade
ANDRÉ GONÇALVES ANDRADE

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/11/2002

"Conquistar a qualidade, o resto é conseqüência".

Efetivar a qualidade do leite produzido em nosso país, deve ser uma prioridade unânime no meio que envolve nossa cadeia de lácteos.

O que vemos, é um setor altamente atomizado do ponto de vista de número de "produtores" ou "tiradores de leite", que não tem nenhum compromisso com a cadeia produtiva. Por outro lado, indústrias que não se preocupam com o que está ocorrendo, apenas com suas margens apertadas e tomando decisões um tanto quanto equivocadas, de imediatismo puro. E para contemplar toda essa guerra, o governo que assiste passivamente a tudo sem se preocupar ou com campanhas demagógicas que não levam a nenhum resultado.

Aqui cabe salientar o que penso.

Não existirá uma receita que leve à solução do problema em nosso país. As diferenças de sistemas de produção, regiões geográficas, custos da terra etc., são muito grandes. O que precisamos é de um colegiado de representação nacional, um colegiado de representação estadual e um de participação municipal, definindo cada situação, convergindo para um fim: o "PNMQL".

Aqui cabe salientar que se o PNMQL estivesse sendo levado a sério, não teria prorrogações, nem definições diferentes para regiões diferentes. Para onde vai o produto final, independente de onde é produzido?

O "efeito ressaca" de tudo que ocorre pode ser visto no meio produtivo, com frases como essa:

- Não vou melhorar a qualidade, o prazo vai ser prorrogado mesmo.
- Será que esse programa vai ser colocado em prática?
- Prá que melhorar a qualidade se tem quem me paga o mesmo pelo que estou produzindo?

É, como podemos observar, temos sim que trabalhar para efetivarmos dentro da cadeia produtiva de lácteos, a prioridade de que, sem alcançarmos a qualidade não veremos realizados os nossos sonhos de uma pecuária leiteira mais forte e rentável, política, econômica e social.
Márcio Luiz Chaves
MÁRCIO LUIZ CHAVES

OUTRO - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 29/10/2002

Antes do produtor, o consumidor é que deveria ser educado de modo a saber o que é leite, como deve ser consumido, quais tipos de leite e porque deve ser consumido. Do que adianta o produtor educar a si e a seus funcionários da importância de se produzir um leite de qualidade e gastar mais para isso se quando o produto chega ao supermercado, é tudo leite: informal, C, B A ou longa vida. Diferindo apenas o preço, a comodidade de aquisição ou o conceito equivocado de "qualidade"?
Richard James Walter Robertson
RICHARD JAMES WALTER ROBERTSON

RIO VERDE DE MATO GROSSO - MATO GROSSO DO SUL

EM 29/10/2002

É fundamental o compromisso com a qualidade do leite de forma coletiva e "epidêmica".
Neste contexto, preocupa-me a posição da indústria, que tira proveito das deficiências educacionais, culturais e da falta de organização do setor produtivo do leite para levar sempre a maior vantagem na cadeia.

Na minha opinião o maior desafio não é resolver problemas técnicos e sim de comercialização. Cabe à indústria o papel de valorizar os produtores profissionais e ao governo o papel de fiscalizador entre os elos da cadeia.

O que temos presenciado são cenas de propriedades exemplares liqüidando seus plantéis e de contratos sendo descumpridos. Apesar de concordar com alguns que argumentam que estes plantéis liqüidados vem de propriedades ineficientes sob o ponto de vista administrativo a grande falha, a meu ver, ainda é mercadológica.

Não temos nenhuma garantia que produzindo um produto melhor seremos melhor remunerados. Sou radicalmente contra os subsídios pois, sem este auxílio, o produtor brasileiro prova a cada dia sua enorme capacidade de superar momentos de crise, mostrando ao mundo nosso potencial como nação produtora de leite a pasto.

Infelizmente, apesar de toda a nossa eficiência, paga-se o mesmo preço pela água que se pagaria por sólidos, a exemplo da Nova Zelândia, além disso, poucas indústrias adotam a CCS como critério para pagamentos.

A assinatura da Portaria 56 foi um grande passo e tenho certeza de que todos os produtores vão se esforçar para a adeqüação de suas propriedades.
Resta saber se a grande "Pátria amada, mãe gentil" vai proteger mesmo aqueles que contribuem para a alimentação dos milhões de famintos deste país.

Chegou a hora de todo o setor produtivo se aliar para que não continue a ser "peteca" nas mãos da indústria ou "marionete" nas mãos do governo.

Richard J. W. Robertson
Médico Veterinário e Produtor rural
Sindicato Rural de Rio Verde de Mato Grosso - MS
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