Afinal, o dólar alto é bom ou ruim para a cadeia láctea?

O dólar alto pode ser bom ou ruim para o setor lácteo? Há apenas vantagens ou desvantagens? Confira!

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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É muito provável que na última semana você, assim como eu, se deparou com o gráfico (equivocado) do Google que mostrava o câmbio acima de R$ 6,00 circulando em diversos grupos de WhatsApp e redes sociais.

Figura 1. Taxa de Câmbio - Google (06/11).

Dólar

No mesmo dia, o Google ajustou essa informação e o Brasil ficou mais aliviado…

Independentemente dessa questão, considerando a fonte oficial – o Banco Central – vemos que a taxa de câmbio realmente tem operado em patamares elevados. Considerando os dados parciais de novembro (até o dia 07/11) o mês apresenta a maior média mensal de toda a série.

A depreciação do real frente ao dólar traz diversos reflexos para a economia brasileira, afetando tanto de forma positiva (para alguns) quanto negativa (para a maioria).

Refletindo sobre os reflexos na cadeia láctea, é possível observar alguns agentes do mercado “comemorando” essa alta do dólar, sob a hipótese de que a piora na taxa de câmbio pode frear as importações de lácteos e beneficiar o setor. Mas será que isso é realmente verdade? Vamos explorar alguns dos aspectos de como o câmbio elevado pode impactar o setor lácteo

Dólar alto, importação baixa?

Antes de aprofundarmos a discussão, vejamos a evolução recente da taxa de câmbio (R$/dólar) com base nos dados do Banco Central.

Gráfico 1. Evolução da taxa de câmbio (R$/dólar).

Evolução da taxa de câmbio (R$/dólar)

É inegável que o aumento do câmbio tende a desestimular importações – afinal, o preço base é em dólar, e a taxa de câmbio funciona como um fator multiplicador dessa relação. No entanto, o câmbio por si só não é o único determinante nas importações.

Ou seja, ele sozinho não vai determinar se vamos importar ou não!

É essencial considerar também o valor do próprio produto em dólar e, principalmente, a relação de preço entre o produto importado e o nacional. Para entender essa correlação, vamos observar o histórico da taxa de câmbio média mensal em relação ao volume de importações de lácteos em litros de equivalente-leite.

Gráfico 2. Taxa de Câmbio (R$ vs USD) e Importação de lácteos (equivalente-leite).

Taxa de Câmbio (R$ vs USD) e Importação de lácteos (equivalente-leite).

Percebe-se visualmente que não há uma correlação clara entre os 2 indicadores. Quantitativamente, calculando a taxa de correlação mês a mês desse período (jan/2015 a outubro/2024) percebe uma correlação de 20% - muito pequena e positiva. Ou seja, não há uma correlação direta entre os indicadores.

Daria para pensar em exportação?

Outra hipótese positiva da alta do câmbio é o estímulo às exportações. Em teoria, um câmbio elevado torna o produto brasileiro mais barato e, portanto, mais atraente para compradores internacionais. No entanto, assim como nas importações, o câmbio por si só não garante competitividade.

Em um cálculo teórico, considerando o preço do leite em pó integral praticado no Mercosul, cerca de US$4.100 por tonelada, o valor máximo que poderia ser pago pelo litro de leite cru no Brasil para viabilizar exportações seria aproximadamente R$2,47/litro – um valor bem abaixo do preço atual de mercado. Isso indica que, mesmo com o câmbio elevado, nossa competitividade para exportação ainda é limitada.

Tabela 1. Preço máximo a ser pago ao produtor no campo (R$/litro) para viabilizar a exportação de LPI brasileiro (referência).

Preço máximo a ser pago ao produtor no campo (R$/litro) para viabilizar a exportação de LPI brasileiro (referência)

Fonte: MilkPoint.


O outro lado da moeda: impactos negativos do dólar alto para o setor lácteo

Olhando os efeitos negativos, o aumento do câmbio traz uma série de desafios importantes para o setor lácteo. Vamos a alguns pontos principais.

  • Custos de Produção: a alta do dólar afeta diretamente os custos de produção, uma vez que muitos insumos e recursos são cotados em dólar, além de diversos outros impactos indiretos. Esse cenário pode gerar dificuldades para produtores e indústrias, elevando os custos ao longo de toda a cadeia.
  • Inflação e piora do poder de compra: se o custo de produção aumenta, essa alta também chega ao consumidor final. Mas, mesmo em um cenário hipotético (e bastante otimista), se o preço dos lácteos se mantiverem estáveis mesmo assim a piora do câmbio prejudicaria o consumo da categoria. A desvalorização do real frente ao dólar contribui para a inflação, elevando os preços de produtos e serviços em geral. Como resultado, o poder de compra das famílias diminui, o que pode levar à redução do consumo de lácteos. Essa situação impacta diretamente a cadeia produtiva, forçando tanto a indústria quanto os produtores a ajustarem preços e margens para tentar manter o volume de vendas.
  • Desafios generalizados para economia: além dos impactos diretos sobre o setor lácteo, a alta do dólar afeta a economia brasileira como um todo. A depreciação do real pode aumentar o custo da dívida pública, reduzir investimentos externos e agravar o cenário de incerteza econômica. Com menos estabilidade, tanto o ambiente de negócios quanto o acesso a financiamentos e crédito ficam prejudicados, afetando o planejamento e o crescimento de empresas de todos os portes, incluindo fazendas e indústrias do setor lácteo.

O dólar alto pode ser bom para o setor?

Embora alguns possam enxergar pontos pontuais positivos da alta do dólar para o setor lácteo, como a redução nas importações e uma maior possibilidade de competitividade para exportações, é preciso avaliar o cenário de forma ampla.

Os aumentos nos custos de produção, a inflação e as dificuldades econômicas são somente alguns dos fatores que prejudicam a cadeia láctea como um todo, desde o produtor até a indústria e o varejo.

Desejamos que o leite brasileiro seja competitivo, que sejamos auto suficientes e que, quem sabe, o produto nacional conquiste espaço no mercado internacional via exportações. No entanto, esperamos alcançar esse objetivo por meio de melhorias na eficiência e produtividade – e não devido à depreciação de nossa moeda.

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Material escrito por:

Matheus Napolitano

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