A consolidação do pagamento por qualidade

Nas minhas andanças recentes pelo Brasil tem me surpreendido a rapidez e amplitude da adoção de programas de pagamento do leite por qualidade.

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Nas minhas andanças recentes pelo Brasil tem me surpreendido a rapidez e amplitude da adoção de programas de pagamento do leite por qualidade. Desde pequenas indústrias regionais até os grandes laticínios multinacionais têm se envolvido na implantação de programas de pagamento por qualidade.

Acho esse fato extremamente salutar e positivo para a indústria láctea brasileira, uma evolução para o setor, pois, afinal de contas, gera um estímulo para os produtores que se empenham em produzir um produto de melhor qualidade. Por outro lado, a indústria também se beneficia ao receber uma matéria-prima de padrão mais elevado, uma vez que isso resulta em maiores rendimentos industriais, maior tempo de prateleira e produtos finais com melhores características organolépticas.

No entanto, como todo o processo que se encontra em fase inicial, ainda existem muitas incorreções ou imperfeições em vários programas de pagamento por qualidade adotados em vários laticínios e cooperativas. Em primeiro lugar, gostaria de destacar que, no meu modo de ver, o pagamento baseado no critério volume de produção não deveria ser incluído no bojo dos programas de pagamento por qualidade, pois volume de produção diário não tem relação com qualidade do leite, e essa mistura de critérios só serve para confundir o produtor e descaracterizar o que seja "qualidade do leite". E o interessante é que nesses sistemas de pagamento diferenciado do leite, geralmente o quesito volume de produção destaca-se como aquele que gera o maior diferencial de preço. Entendo que existe uma lógica para a indústria no pagamento por volume, mas sugiro que esse critério seja colocado à parte do "real programa de pagamento por qualidade".

Aproveito aqui para fazer mais algumas sugestões. Sempre defendi que um programa de pagamento por qualidade deve ser o mais simples possível, incluindo poucos quesitos (p.ex.: teor de proteína, gordura, CCS e CBT) e de fácil compreensão por parte do produtor. Por exemplo, é possível ter um programa de pagamento que envolva uma escala de 10 pontos, sendo 1 ponto equivalente a 1 centavo. Neste caso, suponhamos que existam 3 escalas de CCS e CBT e 2 escalas de proteína e gordura. Portanto, somamos os 10 pontos e todo mundo entendeu o programa. Esclareço que este é apenas um exercício de reflexão e não uma proposta definitiva de programa de qualidade. Além de simples, tais programas deveriam envolver parâmetros criteriosos para premiação dos produtores, isto é, os parâmetros não podem ser muito severos de forma que poucos produtores consigam atingi-los, o que gera um desânimo para atingir as metas por parte de grande número de produtores. Por outro lado, os parâmetros não podem ser muito "frouxos", de forma que seja muito fácil obtê-los ou que a maioria dos produtores já os tenha obtido, pois isso implica numa perda de sentido de tal programa. Portanto, a implantação dos quesitos de qualidade e de seus valores exige um profundo conhecimento da composição do leite dos fornecedores da indústria específica que está implantando o projeto, sendo desaconselhável a simples "importação" de parâmetros de outras indústrias ou de outros países.

Um outro aspecto relevante é a importância da utilização de laboratórios qualificados para analisar as amostras, bem como o estabelecimento de um sistema eficaz para coleta e transporte das amostras, pois considerando que a análise da amostra de cada produtor define agora o preço a ser pago pelo leite, tal análise passa a ter uma importância capital, tanto para quem paga quanto para quem recebe pelo leite. Se o laboratório responsável pelas análises for da própria indústria compradora do leite, é importante que este laboratório seja periódica e constantemente avaliado e aferido por laboratórios independentes de referência.

E, por fim, é fundamental que um programa de pagamento por qualidade conte com o suporte de uma rede de assistência técnica bem treinada que tenha conhecimento para dar orientação aos produtores sobre como atingir as metas de qualidade, ou seja, ensinar aos produtores as técnicas de manejo, alimentação, higiene e terapia que levam a uma melhoria na qualidade do leite.

Em resumo, um programa de pagamento por qualidade é uma daquelas estratégias tipo ganha/ganha, com a qual sai beneficiado tanto o produtor quanto a indústria e a proliferação dessa nova estratégia de comercialização de leite no Brasil é uma saudável notícia no meio de tantas trevas.
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Material escrito por:

Luis Fernando Laranja da Fonseca

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