O que o setor enxerga?
Em recente discussão ao final de uma palestra proferida pela Scot Consultoria, dois produtores iniciaram um debate sobre o real potencial do mercado interno de leite e derivados.
Em recente discussão ao final de uma palestra proferida pela Scot Consultoria, dois produtores iniciaram um debate sobre o real potencial do mercado interno de leite e derivados.
Esta última quinzena trouxe duas novidades ao mundo lácteo nacional. A primeira foi a pesquisa do IBGE, que desvendou como as famílias brasileiras distribuem o seu gasto com consumo. A segunda é o quase equilíbrio na balança comercial da rubrica leite, no Balanço de Pagamentos. Juntando as duas, a conclusão é inexorável. Se quisermos continuar a crescer a renda láctea nacional, resta somente um caminho: mercado externo.
As exportações de 2004, janeiro a abril, aumentaram cerca de 50% em volume e 80% em faturamento, quando comparadas ao mesmo período de 2003.
Aviso aos navegantes do mundo lácteo: foi dada a partida! Iniciamos a terceira onda na organização da Cadeia do Leite Brasileiro. A história registrará como certidão de nascimento, o seguinte: em 11 de maio de 2004, na sede da FAESP, tendo à frente a Leite Brasil, iniciou-se uma nova revolução, ou seja, o pagamento do leite por sólidos. Refiro-me ao I Seminário Brasileiro Sobre a Valorização dos Sólidos no Leite.
Nos meses de fevereiro e março começaram a circular notícias de que em 2004 não haveria espaços para altas nos preços do leite.
Toda afirmação simples em economia pode levar a erro, com a exceção desta. Ainda mais quando o caso é o Brasil, com suas características regionais muito peculiares. Se estamos falando de leite, o risco de erro é ainda maior. Mas assumo o risco: você ganhou dinheiro com leite nos últimos doze meses!
Boa intenção não garante acerto. Zelo excessivo, também não. Pode-se desproteger, com a intenção de proteger. Pode-se deseducar, com o objetivo de educar. Propósitos nobres podem resultar em ações nefastas, destruidoras...
De fato, a maior parte das atenções é destinada aos problemas e aos pontos negativos do setor leiteiro. Mas, o que há de bom para se dizer do pecuária de leite?
Desde a segunda metade da década de quarenta, por força de lei, leite no Brasil tem de passar por processo de pasteurização. Logo, algum desinformado poderia afirmar que temos implantado a lógica de cadeia produtiva há quase sessenta anos. Uma bobagem!
Até bem pouco tempo atrás, o considerável crescimento da produção leiteira em Rondônia era apresentado apenas em valores porcentuais. Quando se comparava o aumento da produção em volume, Rondônia perdia para outros Estados no aumento da produção leiteira. No entanto, no último levantamento do IBGE, sobre o ano de 2002, Rondônia apareceu com o segundo maior crescimento em volume de leite no país, em relação à produção de 2001.
Não há nenhuma novidade. Todos sabemos que os preços recebidos pelos produtores caíram nos últimos anos e a produção de leite se elevou. Um contra-senso aparente, pois uma das poucas leis que existe na ciência econômica afirma que a oferta é irmã xifópaga dos preços, ou seja, se os preços recebidos caem, cai a quantidade ofertada. Por que o inverso aconteceu?
Não sei quando começou, mas há muito virou tradição. A partir do dia 20 de dezembro até o primeiro final de semana do ano, e nos dias que antecedem e sucedem ao carnaval, o Diário Oficial da União e seus similares nos estados e municípios costumam trazer decisões questionáveis ou nebulosas. Este ano a surpresa foi favorável, pois foi em favor dos produtores de leite!
No informativo "A Nata do Leite", edição 72, seção "O Leite na Sua Região", foi publicada uma análise chamando a atenção para os riscos que exageradas especulações nos preços trazem ao mercado.
Nunca é demais reconhecer que avançamos muito na organização da cadeia produtiva do leite, nestes últimos 13 anos. Isso ajuda a espantar sentimentos derrotistas, daqueles que vêem imobilismo na cadeia do leite. Mas também não podemos partir para outro extremo, ou seja, somente cultuar a reorganização em curso. É preciso estar de olho no que ainda há a fazer nesse sentido, e não é pouco.
Ao final de 2003, a expectativa de comportamento dos preços do leite aos produtores era de aumento a partir dos primeiros meses do ano. Mesmo após o estouro da crise da Parmalat, os agentes de mercado continuaram acreditando em recuperação nos preços do leite logo nos primeiro meses de 2004.
Dentre as muitas afirmações sobre o mercado de leite nacional, os fatos demonstram que uma é inverdade e outra é meia verdade. A afirmação não verdadeira: Com o fim do tabelamento do leite, os preços ao produtor ficaram muito distantes entre os diferentes mercados (estados). A afirmação meia verdade: os preços oscilam no Brasil porque a produção é ainda muito sazonal.
A pecuária leiteira é uma excelente atividade para fixar o homem no campo, além de permitir produção escalonada em pequenas áreas. Esse é um fato mal interpretado por muitos economistas, técnicos e políticos no Brasil.
Na última década do milênio passado o preço do leite ao produtor caiu a quase um terço do valor, descontada a inflação. Foi uma queda radical, que expulsou muitos da atividade e obrigou um forte ajuste nos sistemas produtivos daqueles que se mantiveram na atividade. E neste milênio, qual tem sido o comportamento dos preços?
A crise da Parmalat trouxe novas variáveis de peso ao mercado: a notícia do rombo financeiro, fraudes, desvio de recursos e tantos outros fatores, que tem constantemente sido divulgados na mídia de todo o mundo, influenciaram consideravelmente o mercado de leite no país.
Todo economista gosta de fazer previsões catastróficas, por dois motivos. Primeiro, porque repercute mais, chama mais atenção. Segundo, porque caso as previsões se confirmam, mostra que o vidente estava certo. Se não se confirmam, o mérito é do economista-vidente, pois alertou do perigo a tempo das correções serem feitas. Vou na contramão: 2004 será um ano bom para a cadeia do leite!
O ano 2003 não terminou com a mesma perspectiva que começou.
Os primeiros dias de dezembro de 2003 não foram animadores para os produtores de leite.
Domingo, 30/11. Manhã chuvosa em todo o centro-sul do Brasil. Dia propício para ficar em casa, ler jornal. Dia ideal para ser influenciado pela mídia. Pego a Folha de São Paulo. Na primeira página, está lá o leite como manchete! Boa Notícia?
Há algumas semanas, um produtor enviou uma sugestão de pauta para esta seção. Na sugestão, solicitava que fosse analisada a atuação das entidades de classe e das lideranças da pecuária leiteira com relação à queda de preços, informações desencontradas divulgadas pela indústria e à constante pressão para reduzir o valor do leite coletado no campo.