As vendas de produtos lácteos voltaram a experimentar forte crescimento no primeiro semestre de 2002, movimento que não era verificado desde 1998. Mas, diferentemente do que ocorreu em 1994, estréia do real, quando melhorou o poder de compra da população, agora o crescimento vem pela acirrada concorrência e redução de preço, que já afeta a lucratividade das empresas.
Pesquisa da ACNielsen registrou alta de mais de dois dígitos no consumo da maioria dos derivados lácteos no primeiro semestre de 2002 sobre o mesmo período de 2001. As vendas de iogurtes cresceram 19,2%, de leite em pó 13,7% e de requeijão 17,5%. Depois de amargarem retração de 20% em 2001, as vendas de leite condensado e creme de leite subiram 28,5% e 15,8%, respectivamente.
"As vendas cresceram graças à queda de preços, pois há uma forte resistência da demanda", acredita o consultor da MB Associados, Fábio Silveira. De acordo com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), em julho os preços reais dos derivados lácteos caíram em relação ao mesmo mês de 2001. No caso do requeijão, a queda foi de 16,64% e para os iogurtes de 11,22%. "O mercado está muito agressivo esse ano e a oferta aumentou", afirma o presidente da Royal Numico no Brasil, dona da Mococa, Carlos Eduardo Gouvea.
Já é conhecida a disputa entre Nestlé e Danone em refrigerados. No bimestre junho e julho, a Danone atingiu 37% de market share em refrigerados, contra 26,5% da Nestlé. "Há muito tempo não abríamos 10 pontos", diz a diretora de assuntos corporativos da Danone, Sandra Reitjens, acrescentando que o maior consumo está ligado também a investimentos em marketing e lançamento de produtos.
Uma nova batalha, entre Nestlé e Parmalat, também vem sendo travada, mas desta vez no leite condensado e no creme de leite, de acordo com analistas. Após a compra da Glória, a Parmalat imprimiu maior agressividade nesses mercados e a multinacional suíça não ficou parada. Campanhas de marketing e promoções derrubaram os preços e expandiram as vendas. A Mococa, na terceira posição, também reviu preços e está tentando exportar mais. Fora isso, as multinacionais agora enfrentam a concorrência de empresas que antes atuavam regionalmente, casos da Itambé e da Elegê.
Procurada, a Nestlé não falou sobre o assunto. Já a Parmalat, por meio de um comunicado, informou que as maiores vendas estão ligadas "à renovação do portfólio e intensificação de ações no ponto-de-venda".
Para alguns, há risco nessa estratégia. O vice-presidente da Itambé, Jacques Gontijo, observa que "as empresas estão tão preocupadas em ganhar mercado que esqueceram da lucratividade". Segundo estudo elaborado pela MB Associados para o Valor Setorial, a rentabilidade dos laticínios caiu 7% de 1998 a 2001. No período, o preço pago pelo leite in natura subiu 42,1%, mas o repasse dos laticínios ao varejo foi de 32,6%.
Se o cenário perdurar, 2002 promete mais sacrifícios. Desestimulados pelos baixos preços de 2001, os produtores não investiram e falta leite no mercado. De janeiro a julho o leite pago ao produtor subiu 22,7%, segundo a Scot Consultoria. "Somada ao aumento no custo da embalagem, da energia elétrica e do combustível, a alta do leite apertou as margens", diz o vice-presidente do Grupo Vigor, Vinicius Vieira Ramos.
As empresas acreditam que a concorrência deve diminuir no segundo semestre. "O corte foi fundo demais. Todos estão sentindo a necessidade de recompor margens", diz Gouvea, da Royal.
Fonte: Valor On Line (por Raquel Landim), adaptado por Equipe MilkPoint
Vendas de produtos lácteos têm forte alta no primeiro semestre
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