Venda da Garoto tem várias versões

Publicado por: MilkPoint

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Vários jornais trouxeram, hoje, matérias sobre a venda da Garoto, que estaria sendo comprada pela Nestlé. O jornal O Estado de São Paulo aponta que há dificuldades para fechamento do negócio provavelmente em função do valor a ser pago pela empresa, embora indique que os executivos da Garoto estejam esvaziando suas gavetas, em indicação clara que o processo está para ser finalizado. Já a Gazeta Mercantil dá como o negócio como fechado. Por fim, o jornal Valor Econômico aponta que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) poderá dificultar a concretização do negócio, uma vez que a Nestlé passaria a ter mais de 50% do mercado de chocolates.

Estado de São Paulo: Negociação da Garoto passa por dificuldades

Um impasse nas negociações entre os acionistas da Garoto e a direção da Nestlé do Brasil emperrou, ao menos momentaneamente, os planos de divulgação da compra da fabricante de chocolates pela multinacional suíça. O presidente da Nestlé no País, Ivan Zurita, chegou a cancelar entrevistas que seriam concedidas na terça-feira e uma reunião ontem com o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), João Grandino Rodas, na sede da Secretaria Especial de Acompanhamento Econômico, no Rio, após a qual esperava-se que o negócio fosse finalmente confirmado.

Uma das hipóteses para o atraso na divulgação da venda, segundo especialistas, seria a dificuldade dos acionistas da Garoto chegarem a um consenso sobre o valor e o prazo de pagamento propostos pela Nestlé. As negativas de ambas as empresas não retiveram, entretanto, a onda de rumores na fábrica de Vila Velha (ES), onde os funcionários acreditam que a notícia da venda saia ainda esta semana. Ontem, trabalhadores comentavam que executivos da empresa esvaziavam gavetas para deixar suas salas na sexta-feira. O presidente da Garoto, Ricardo Meyerfreund, não deixou a fábrica durante o dia.

"Já não lutamos contra a venda. A luta agora é pela manutenção dos cerca de 2,4 mil empregos no município", explica a coordenadora-geral do Sindicato dos Trabalhadores em Alimentação e Afins (Sindialimentação), Linda Maria Morais.

Gazeta Mercantil: Nestlé leva a Garoto às vésperas da Páscoa

Representantes dos 18 acionistas da Chocolates Garoto vão assinar hoje, em São Paulo, o contrato de venda da indústria capixaba à suíça Nestlé. Os sócios que residem no Espírito Santo embarcaram na noite passada para a capital paulista com essa finalidade e, ainda assim, continuaram se negando a detalhar os termos da negociação. A empresa adiou a publicação do balanço programada para ontem.

Com o negócio, estimado pelo mercado em R$ 500 milhões, incluindo a marca Garoto, a Nestlé vai abocanhar mais de 50% do setor de chocolates, um segmento de 309 mil toneladas e vendas de R$ 2,7 bilhões. Sozinha, a Nestlé detém 31,4% do setor e a Garoto, 22,4%. Ainda assim, alguns acionistas da Garoto afirmaram acreditar que dificilmente haverá algum empecilho por parte do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Com vendas anuais de R$ 597,6 milhões, a Garoto produz 76,4 mil toneladas de chocolates por ano. Foi colocada à venda por desavenças familiares, processo que prejudicou o crescimento da companhia e encolheu sua participação de mercado. A produção do ano passado, por exemplo, caiu 4,76% em relação ao ano anterior, segundo dados preliminares da empresa.

O "namoro" com a Nestlé foi considerado rápido e o negócio já estava praticamente fechado há um mês. Mas a demora para a multinacional suíça arrematar de vez a Garoto teria razões na morte de uma das acionistas, Edite Bodeck, mulher do fundador da Garoto, Henrique Meyerfreund, no dia 31 de janeiro. Ela detinha 10% das ações da empresa e era favorável a venda da companhia. A herdeira é a filha Regina, que, passou a ter 13,3%.

O advogado Luiz Leonardo Cantidiano, do escritório Motta, diz que, em casos assim, o juiz precisa autorizar o contrato de venda. Antes de tomar tal decisão, no entanto, o juiz pede para que os herdeiros sejam ouvidos. Quer saber se eles estão dispostos a se desfazer de suas participações acionárias. A herdeira Regina, segundo um fonte da empresa, estaria disposta a vender suas ações.

Desde que entrou em processo de venda, cujo mandato ficou sob os cuidados da consultoria Merrill Lynch, a Garoto foi oferecida aos principais competidores do setor. Apesar de negar, a norte-americana Hershey chegou a olhar cuidadosamente a operação, mas bateu em retirada depois de não fechar acordo em relação ao preço.

Com vendas mundiais de US$ 4,5 bilhões, a Hershey há tempos ensaiava o desembarque no Brasil. Mas a bandeira foi fincada somente no segundo semestre do ano passado, quando a multinacional comprou a divisão de chocolate da Visconti, por US$ 18 milhões. Na época, a Nestlé chegou, ainda que timidamente, a disputar a Visconti, mas perdeu o negócio e aprendeu a lição: não vai mais abrir brechas para concorrentes, sobretudo os gigantes internacionais.

É exatamente isso que motiva a empresa suíça a comprar a Garoto. Não quer permitir a entrada da inglesa Cadbury que, como se sabe, "namora" o mercado brasileiro. Controlada pelo grupo Cadbury Schweeppes plc, de bebidas e alimentos, com vendas anuais de US$6,92 bilhões, a subsidiária brasileira ainda opera no País timidamente. Tem um escritório comercial e os produtos são importados da subsidiária argentina, a Cadbury Stani. A companhia inglesa quer corrigir a rota, pois reconhece, segundo fontes do setor, que errou ao aportar na América do Sul pela Argentina, ao arrebanhar a Stani, uma empresa local de chocolates e confeitos.

Tanto mundialmente como aqui no Brasil, a Nestlé é uma empresa de porte respeitável. No mundo, registrou faturamento de US$ 48,1 bilhões e emprega 224 mil pessoas em suas 479 fábricas. Apesar de ser líder de mercado no Brasil, não quer deixar uma concorrente levar, por R$ 500 milhões, uma marca como a Garoto, com 70 anos de vida e respeitável participação de mercado. "A marca e a distribuição são questões fundamentais para a entrada de uma empresa no País", conta um executivo do ramo.

Valor Econômico: Compra provoca discussões

O nascimento de uma gigante no setor de chocolates, com a compra da Garoto pela Nestlé, não será tão facilmente aprovado pelos órgãos reguladores do governo. A forte concentração, a multinacional suíça passará a deter mais de 50% do mercado, está sendo considerado um "alerta" pelos especialistas em concorrência, já que pode ter impedido a entrada de outras empresas. As que hoje concorrem com a Nestlé também estão em alerta. Algumas delas já falam em reformular seus planos.

"O novo cenário muda a nossa forma de atuar. Vamos ter de analisar as oportunidades que vão surgir com essa aquisição", afirma o presidente de uma fabricante estrangeira de chocolates, que já atua há alguns anos no Brasil. O executivo argumenta que um processo de aquisição de duas empresas desse porte geralmente é mais demorado. E é justamente neste período que as demais empresas podem avançar. Uma das saídas, diz ele, é centrar forças em marcas mais conhecidas, de maior peso.

Membros do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) afirmaram que a compra da Garoto pode significar a eliminação de um concorrente no mercado, que hoje conta com três grandes "players": Kraft Foods (Lacta), Nestlé e Garoto. Um conselheiro, que pediu para não ser identificado, argumenta ainda que, se for comprovado que a Nestlé pagou mais do que a Garoto valia para afastar outras empresas, as dificuldades de aprovação serão maiores.

A inglesa Cadbury, que estava no páreo para levar o controle da Garoto, ainda estuda seu futuro no Brasil, afirmam fontes de mercado. A reportagem apurou que, historicamente, a empresa entra em um país via aquisição e, agora, restam pouquíssimas alternativas no Brasil. Talvez a Neugebauer, controlada pela Parmalat. A empresa italiana já deixou claro que chocolate não faz parte de suas prioridades. Hoje, a Cadbury vende chocolates importados no Brasil, ainda em pequena quantidade.

Outro conselheiro do Cade reconheceu que o negócio entre Nestlé e Garoto concentrará o mercado de chocolates, mas foi cauteloso. Ele disse desconhecer fortes barreiras à entrada de empresas nesse mercado, o que seria favorável à aprovação. O presidente do Cade, João Grandino Rodas, esteve reunido, ontem, com representantes da Nestlé e poderá manifestar-se sobre o negócio hoje. Amanhã, executivos da Nestlé vão se reunir com representantes da Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), no Rio.

Fonte: O Estado de São Paulo (por André Siqueira), Gazeta Mercantil (por Lygia Sarlo e Christiane Martinez) e Valor On Line (por Juliano Basile e Patrícia Duarte), adaptado por Equipe MilkPoint
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