O presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), João Grandino Rodas, disse ontem que foi procurado pelo prefeito de Vila Velha (ES), Max Freitas Mauro Filho, que demonstrou, junto com o Sindicato dos Trabalhadores em Alimentação e Afins do Espírito Santo (Sindialimentação), preocupação com o processo de venda da fábrica de chocolates Garoto .
De acordo com documento apresentado ao presidente do Cade, o prefeito afirma que tem conhecimento de que a interessada na compra da Garoto é a multinacional franco-suíça Nestlé. Rodas disse, no entanto, que não foi procurado por representantes da Garoto nem da Nestlé.
Os acionistas da Garoto consideram o apelo ao Cade uma questão mais política do que econômica. Apesar de descartarem completamente a hipótese de reversão da venda da Garoto, tendo em vista as dificuldades administrativas ocasionadas pelos conflitos internos na empresa familiar, os acionistas negam que o negócio esteja fechado com a Nestlé. O diretor comercial da Garoto, Ubiracy Fonseca, disse ontem que, apesar da apreensão dos funcionários quanto ao destino da fábrica, a empresa ganhou mercado em dezembro e janeiro, subindo de 22% para 22,7%, de acordo com dados da Nielsen. "Estamos tentando tranqüilizar os funcionários para manter o ritmo", afirmou.
A venda da Garoto foi divulgada nesta semana pelo Sindialimentação. Segundo a secretária de comunicação da entidade, Mara Lúcia Lira, fontes da indústria afirmaram que, nesta sexta-feira, após um comunicado oficial da transação, haverá demissões em massa. A fábrica tem 2,4 mil funcionários efetivos e 600 temporários e, segundo Mara Lira, o novo grupo controlador da Garoto, além de não usar a marca nos próximos seis meses, irá fechar a fábrica de Vila Velha depois desse período.
O prefeito de Vila Velha declarou que sua iniciativa de apelar à intervenção da SDE não visa à repercussão do fato na imprensa e à hipótese de o alarde gerar, conseqüentemente, resultados positivos à trajetória política de seu pai, o deputado federal Max Mauro, pré-candidato do PTB ao governo do Espírito Santo.
A fábrica reverte em ICMS de R$ 500 mil a R$ 600 mil por mês para o município onde está sediada. O montante representa em média 5% da receita anual de R$ 130 milhões apurada pelo Executivo municipal.
De acordo com os acionistas, a empresa de consultoria Merrill Lynch está conduzindo o processo de venda da Garoto com a orientação de "bater o martelo" para quem oferecer o maior preço e se prontificar a comprar 100% das ações. Eles esperam que as negociações estejam finalizadas nas próximas duas semanas e sejam anunciadas para o conselho daqui a 20 dias.
A prefeitura de Vila Velha (ES) diz que é preocupante a concentração de produção de chocolates na mão de apenas duas empresas, caso a Garoto seja realmente adquirida pela Nestlé. O documento ao Cade informa que três empresas dominam hoje 90% da demanda nacional de chocolates: a Lacta, que pertence à multinacional Kraft Foods do Brasil e detém 35% do mercado, a Garoto com 24%, e a Nestlé com 20%. "A Chocolates Garoto, com sede em Vila Velha, é a única das três com capital 100% nacional, controle familiar e com 72 anos de operações ininterruptas", diz o documento.
A prefeitura apela para que o Cade acompanhe de perto as negociações de venda da Garoto, para evitar que a operação seja concluída sem garantia da manutenção da fábrica em operação e dos empregos. Rodas afirmou que não vai notificar a Garoto sobre a possibilidade de sua venda para a Nestlé, disse apenas que vai acompanhar o caso e, quando a negociação for oficializada, aí sim, a entidade vai analisá-lo.
Fonte: Gazeta Mercantil (por Fernanda Paraguassu e Lygia Sarlo), O Estado de São Paulo e Valor On Line, adaptado por Equipe MilkPoint
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