Um setor em virada: os bastidores e tendências revelados no Fórum MilkPoint Mercado

Segundo Valter Galan, Sócio da MilkPoint Ventures, o principal driver das oscilações de preço tem sido o desequilíbrio entre oferta e demanda. Após um período mais equilibrado, o início de 2026 já apresenta sinais de escassez de leite, com reação rápida nos preços spot.

Publicado por: e

Publicado em: - 6 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 10

Realizado em 9 de abril, em Piracicaba (SP), no Pecege, o Fórum MilkPoint Mercado abriu sua programação com um forte tom de integração e troca de conhecimento, reunindo lideranças e especialistas para discutir os rumos da cadeia láctea em um cenário de forte volatilidade.

Na abertura, Ricardo Shirota, presidente do Pecege, destacou a honra de receber o evento e reforçou a importância de iniciativas que promovam conexão entre os diferentes elos do setor. Na sequência, Marcelo Pereira de Carvalho, CEO da MilkPoint Ventures, deu o tom estratégico do encontro ao enfatizar a necessidade de fortalecer essas conexões em um momento de mudanças relevantes no mercado. Ele agradeceu a presença do público, apresentou os diferentes braços da MilkPoint Ventures e ressaltou o papel da iniciativa como plataforma de conteúdo, inteligência e relacionamento. Ao final, reforçou a expectativa de um dia intenso, marcado por discussões relevantes e trocas capazes de gerar valor prático para toda a cadeia do leite.

Figura 1 e 2: Ricardo Shirota e Marcelo Pereira de Carvalho. 

Figura 1

Figura 2

O primeiro bloco, dedicado aos cenários de mercado — com oferecimento de Spade e Agroforte — trouxe uma leitura ampla e estratégica sobre produção, comércio global, consumo e crédito na cadeia láctea.

Andres Padilla, do Rabobank Brasil, iniciou discutindo o crescimento da produção de leite no mundo e no Brasil. Para 2026, a expectativa é de baixo crescimento da oferta global. A China, que nos últimos anos teve papel expressivo na expansão, já mostra recuo desde 2024, levantando dúvidas sobre a sustentabilidade de seu modelo altamente intensivo e concentrado em megafazendas. Apesar dos ganhos rápidos em produtividade, a rentabilidade não acompanhou, levando inclusive ao fechamento de unidades.

Nos Estados Unidos, a produção deve ganhar ainda mais protagonismo global, sustentada por ganhos de eficiência e aumento de produtividade por vaca, mesmo com rebanho estagnado. O país consolidou um modelo maduro, fortemente orientado à exportação. Ainda assim, as margens seguem voláteis — com queda significativa desde meados de 2024 — exigindo gestão sofisticada por parte do produtor.

Um dos destaques recentes é a estratégia de beef-on-dairy. A valorização da carne elevou a participação dessa receita nas fazendas leiteiras, que passou de níveis históricos de 1% a 3% para até 20% em alguns casos. Essa diversificação tem sido fundamental para sustentar margens positivas mesmo em cenários de preços mais baixos do leite.

No Brasil, o crescimento da produção é heterogêneo e fortemente dependente do perfil do produtor. Pequenos e médios ainda apresentam maior volatilidade, enquanto produtores maiores ganham eficiência e melhor retorno sobre o capital investido. O processo de consolidação tende a se intensificar nos próximos anos. Um ponto de atenção levantado foi a pressão estrutural de custos: para se manter viável, a atividade leiteira exige crescimento constante — uma lógica já observada nos Estados Unidos e cada vez mais aplicável à realidade brasileira.

Continua depois da publicidade

A mensagem central foi direta: produtores que não conseguem crescer com margens positivas tendem a ficar mais expostos à volatilidade e com dificuldade de se manter no longo prazo.

Figura 3: Andres Padilla

Figura 3

Na sequência, Rodolfo Daldegan e Tim Taylor, da Spade, trouxeram uma visão sobre o futuro da cadeia, baseada na integração de dados. Segundo eles, o setor lácteo ainda opera com baixa gestão de informações, apesar do grande volume gerado nas fazendas. A conexão desses dados ao longo da cadeia — da produção ao consumidor — é apontada como chave para destravar eficiência, previsibilidade e melhores decisões. A proposta é sair de um modelo reativo para um modelo preditivo, com inteligência integrada e maior visibilidade em tempo real.

Figuras 4 e 5: Rodolfo Daldegan e Tim Taylor, da Spade

Figura 4
Figura 5
O mercado internacional também esteve no radar. Vitor Vieira, do Grupo Interfood, destacou que o cenário atual já precifica uma queda nos preços globais, com demanda estável, porém com mudanças importantes na dinâmica geográfica. A China segue relevante, mas com comportamento de compra mais moderado, enquanto o Sudeste Asiático ganha protagonismo.

Fatores geopolíticos adicionam incerteza ao cenário. A guerra no Oriente Médio já impacta rotas logísticas estratégicas, como o estreito de Ormuz, o que pode afetar grandes importadores. Nesse contexto, Argentina e Uruguai tendem a ganhar espaço como fornecedores, especialmente diante da sazonalidade da Nova Zelândia, que entrará, em meados de junho e julho, em período de menor oferta de sólidos. Por conta da entressafra.

A expectativa é de maior demanda vinda do Oriente Médio e Norte da África, com custos logísticos mais elevados e redistribuição dos fluxos comerciais globais.

Figura 6: Vitor Vieira 

Figura 6
Ricardo Cotta, da R3 Consultoria, chamou atenção para o avanço consistente do food service no Brasil, que cresce a taxas reais de cerca de 8% ao ano — acima do varejo tradicional — e já movimenta mais de R$ 500 bilhões em faturamento. Segundo ele, trata-se de um dos principais vetores de expansão para os lácteos, com destaque para categorias como queijos, requeijões, leite condensado e creme de leite, amplamente demandadas no consumo fora do lar. Apesar do potencial, Cotta destacou que o segmento ainda exige maior nível de profissionalização por parte da indústria. Mais do que volume, o food service demanda soluções: produtos pensados para performance, padronização e rendimento, além de consistência de qualidade e excelência no serviço. “Não basta adaptar o que já existe — é preciso desenvolver com foco na aplicação”, indicou.

Ele também reforçou a importância de uma atuação mais próxima do cliente, com equipes capacitadas para falar a linguagem da cozinha, além de estratégias de marketing e relacionamento direcionadas, como parcerias com chefs, ações com influenciadores e iniciativas práticas, como workshops culinários. Para Cotta, as empresas que entenderem essa lógica e estruturarem melhor sua atuação no canal tendem a capturar de forma mais consistente o crescimento desse mercado.

Figura 7: Ricardo Cotta 

Figura 7
Outro ponto estratégico abordado foi o papel do crédito na cadeia leiteira. Lucas Nogueira Rezende, da Agroforte, destacou que o crédito deve ser visto como ferramenta estratégica, e não apenas financeira. Quando bem estruturado, ele viabiliza o acesso à tecnologia e impulsiona ganhos reais de produtividade e qualidade. Por outro lado, crédito mal alocado pode comprometer resultados.

Dados apresentados mostram impactos concretos: aumento da produção, melhoria da qualidade do leite e redução de emissões por litro. Nesse contexto, a indústria pode desempenhar papel central ao facilitar o acesso ao crédito, aproveitando sua proximidade com o produtor e fortalecendo o ecossistema como um todo.

Figura 8: Lucas Rezende 

Figura 8

Encerrando o bloco, Valter Galan, Sócio da MilkPoint Ventures, trouxe uma análise sobre o comportamento recente do mercado e as perspectivas para o restante de 2026. Segundo ele, o principal driver das oscilações de preço tem sido o desequilíbrio entre oferta e demanda. Após um período mais equilibrado, o início de 2026 já apresenta sinais de escassez de leite, com reação rápida nos preços spot. A rentabilidade pressionada ao longo de 2025 ainda deve impactar a produção em 2026, com recuperação mais consistente apenas no segundo semestre. Ao mesmo tempo, fatores externos, como possíveis efeitos da guerra sobre custos de energia e fertilizantes, seguem no radar.

Do lado da demanda, há sinais positivos, com destaque para o crescimento no consumo de queijos, possivelmente impulsionado pela busca por proteínas. No entanto, o cenário internacional, com maior competitividade do Mercosul, pode pressionar importações e influenciar o equilíbrio interno.

No geral, a leitura é de um mercado que inicia 2026 com preços em alta devido ao desbalanceamento de curto prazo, mas ainda cercado por incertezas relevantes — tanto do lado da produção quanto da demanda.

Figura 9: Valter Galan

Figura 9

O setor lácteo vive um novo momento: o debate vai além do produto e envolve consumo, saúde, estratégia e posicionamento. Em 2026, o Dairy Vision inaugura uma fase mais exclusiva e estratégica, reunindo líderes nos dias 27 e 28 de outubro, no Bourbon Resort (Atibaia/SP), para discutir o futuro dos lácteos. A edição integra o Fórum MilkPoint Mercado, ampliando a leitura sobre preços, risco e cenários e reforçando o objetivo de antecipar movimentos e qualificar decisões. Saiba mais: https://www.dairyvision.com.br/ 

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 10

Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

Acessar todos os materiais
Maria Alice Trevizam

Maria Alice Trevizam

Editora de Conteúdo Jr. no MilkPoint e Jornalista pela PUC Campinas

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?