Torsten Hemme, coordenador do IFCN Dairy Network

O economista agrícola alemão Torsten Hemme é o coordenador do International Farm Comparison Group (IFCN), uma rede de 35 instituições de pesquisa de vários países do mundo que compara custos de produção e índices de rentabilidade nas várias regiões, a partir de uma única metodologia.

Publicado por: MilkPoint

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Figura 1

O economista agrícola alemão Torsten Hemme é o coordenador do International Farm Comparison Group (IFCN), uma rede de 35 instituições de pesquisa de vários países do mundo que compara custos de produção e índices de rentabilidade nas várias regiões, a partir de uma única metodologia. O Brasil participa, sendo a Embrapa Gado de Leite, através do pesquisador Lorildo Stock, o representante brasileiro no IFCN. Torsten esteve no Brasil durante o 9º Congresso Panamericano do Leite e deu essa entrevista exclusiva ao MilkPoint.

MilkPoint: Quais os objetivos do IFCN?

Torsten Hemme: O IFCN existe desde 1997 e, a partir do ano 2000, começamos a fazer comparações anuais sobre custo de produção de leite no mundo. Temos um software que se chama TipiCAL (Technology Impact, Policy Impact Calculation Model), que analisa os impactos de mudanças tecnológicas e políticas públicas/comerciais nos mercado agrícolas. Nós definimos uma fazenda típica em determinada área e coletamos de 500 a 2000 variáveis, dependendo da complexidade do sistema de produção. Tentamos entender os aspectos direcionadores da atividade nessas fazendas e avaliamos o que pode ser feito para melhorar. Trata-se de um grupo de estudo sobre economia leiteira, com um foco global, que fornece várias ferramentas e dados para que a atividade se mantenha sustentável nas várias partes do mundo.

MKP: Por sua experiência, quais têm sido os benefícios de países que participam do IFCN?

TH: Os países participantes citam como grande vantagem o fato da comparação de preços ser uma tremenda ferramenta para se trabalhar dentro de cada país. O segundo argumento reportado por eles é que não há a necessidade de desenvolver seus próprios métodos para cálculo de custo de produção, criando algo mais global, a partir da colaboração entre os pesquisadores, como ocorre com o software livre, por exemplo. Um ambiente em que cada um desenvolve o seu próprio software seria equivalente a uma situação em que se gasta 80% do tempo para desenvolver uma colheitadeira e 20% para colher. O que queremos é que gastemos juntos um tempo bem menor para desenvolver a colheitadeira (o software) e mais tempo colhendo (analisando os dados).

MKP: É possível citar algum caso concreto reportado por algum membro?

TH: Tivemos uma experiência muito interessante na Índia. Em um determinado Estado, havia 40 programas visando o desenvolvimento da atividade leiteira. Começamos a comparar as diretrizes de cada um desses programas e constatamos que 80% deles eram praticamente inúteis! As pessoas achavam que estavam fazendo a coisa certa, mas não estavam. Os outros 20% sim estavam tendo um impacto significativo a nível de fazenda. Isso pôde ser concluído pelo uso do TipiCAL. Você pode imaginar o efeito que teríamos ao concentrar o dinheiro dos 40 programas nos 8 realmente importantes? Em geral, o problema não está na quantidade de idéias para tornar a atividade leiteira melhor, mas sim em saber fazer a coisa certa, na situação certa e no momento certo.

MKP: falando de competitividade, quais são hoje os principais países nesse quesito?

TH: É importante ver inicialmente quais os países apresentam menor custo de produção. Temos basicamente quatro bolsões de baixo custo de produção de leite no mundo: América Latina, Índia e Paquistão, Oceania e Europa Oriental. Há, talvez, um quinto bolsão, não estamos muito certos ainda, que seria a China. É interessante analisar agora o tamanho dos rebanhos nas várias regiões do mundo. Na China, estamos analisando rebanhos com 8 a 10 vacas, muito competitivos globalmente. Já na Oceania (Austrália e Nova Zelândia) estamos falando de fazendas com 200 a 300 vacas. Na Índia e no Paquistão, as fazendas são de 3, 5 a 10 vacas, muito competitivas, ao passo que na América Latina, que você conhece bem, existem vários sistemas.

O interessante disso tudo é que ser competitivo, especialmente em países em desenvolvimento, não tem nada a ver com número de vacas e produtividade por vaca. Ser competitivo depende de ter o sistema correto, na região correta e progressivamente ir desenvolvendo esse sistema na direção certa. A fazenda mais competitiva que temos no sistema fica no Paquistão e tem 5 vacas que produzem 800 kg de leite por ano. Hoje, ela é muito competitiva. Eu digo aos produtores que não se deve temer, por exemplo, a competição com fazendas de 2.000 vacas no Texas. O que é preciso saber é se o sistema de produção utilizado é o melhor para a região, como reduzir os custos de produção e como desenvolver o sistema face, por exemplo, a aumentos nos preços da terra, do leite e da ração.

MKP: Por quanto tempo você acha que esses rebanhos de 3 a 5 vacas conseguirão se manter competitivos?

TH: Existem dois níveis de competição que esse produtor tem de enfrentar. O primeiro é a competição internacional, isto é, a competição com outros países que produzem e comercializam lácteos no mercado internacional. Essa competição, no caso deles, não é um problema significativo. Há, porém, o outro nível de competição, representado pelo desenvolvimento econômico, trazendo aumento dos salários e mais opções de trabalho. Hoje, o salário é de US$ 0,20 por hora, ao passo que o fazendeiro ganha US$ 0,25 por hora, com 5 vacas. É um ótimo negócio. Se o salário subir para US$ 0,25 ou US$ 0,30/hora, o fazendeiro com 5 vacas pode sair da atividade, ou precisa se ajustar rapidamente.

MKP: Qual é o efeito das taxas de câmbio dos vários países em relação à competitividade internacional?

TH: A taxa de câmbio tem um efeito significativo. Analisamos mensalmente e anualmente desde 1996, porque é um dos direcionadores-chave dos preços de leite nos países participantes do IFCN. Em relação ao Brasil, a valorização da moeda tem sido um fator que dificulta a competitividade em comparação a Argentina e Uruguai, de forma que o país precisará correr mais em relação ao desenvolvimento das fazendas para compensar a perda de competitividade da moeda.

MKP: No Brasil, sempre tivemos grandes debates e certa dificuldade de consolidar uma metodologia única para cálculo dos custos de produção. Como vocês conseguiram fazer isso e quais as críticas que recebem?

TH: De fato, somos muito bem sucedidos por ter 35 instituições de pesquisa das várias partes do mundo que concordaram a respeito de uma metodologia. Essa conquista é fruto de cinco anos de estudo das várias metodologias disponíveis até que pudéssemos propor um modelo para começar a trabalhar. Além disso, recebemos críticas - e isso é muito bom - que são analisadas e eventualmente incorporadas ao sistema, criando melhoria contínua.

MKP: Em algumas regiões da Europa, parece que já existem produtores que podem se tornar competitivos em termos globais, mesmo sem subsídios. É verdade?

TH: A Europa é a principal região produtora de leite no mundo. Os fazendeiros europeus foram sistematicamente "cercados" por um sistema de proteção que impediu o desenvolvimento empreendedor pelos últimos 25 anos. A questão é: se você permitir que mudanças estruturais aconteçam, sob que níveis de custos esses produtores poderão sobreviver e crescer? E algumas análises têm mostrado que os fazendeiros mais progressistas podem sobreviver e crescer sob os preços vigentes no mercado internacional. Deixe-me explicar melhor isso. O produtor de leite recebe US$ 0,32/kg de leite. Mas, para produzir, precisará pagar US$ 0,10/kg para ter o direito de vender o leite, por causa do sistema de quotas de produção. Se ele está sobrevivendo recebendo US$ 0,32/kg, significa que sem o pagamento do direito de produzir, teria custo ao redor de US$ 0,22/kg, próximo aos valores mundiais. Estamos hoje estudando essas informações e temos duas hipóteses. A primeira é que este produtor não é competitivo, o que seria uma ótima notícia para a América Latina, que poderia ocupar uma fatia crescente do mercado mundial. A segunda hipótese é que as mudanças estruturais serão rápidas o bastante para que a produção seja competitiva a ponto de até aumentar a participação da Europa no mercado externo, visto que apresenta áreas de produção intensiva de leite, baixo custo de transporte, muitas indústrias profissionais e progressistas e alta tecnologia em ingredientes e produtos lácteos especiais para servir o mercado mundial com especialidades lácteas.

MKP: Apesar do potencial aumento da competitividade dos produtores europeus, muitas empresas lácteas européias, algumas delas cooperativas, estão cada vez mais buscando fontes de suprimento de leite de baixo custo em países emergentes. Como o produtor europeu está vendo isso?

TH: Há duas formas de ver esse movimento. Os produtores mais defensivos obviamente são contrários e querem que a cooperativa capte e processe o seu leite. Os produtores mais progressistas pensam justamente o oposto: se a cooperativa pode aumentar seu retorno sobre o capital investido ao captar leite em outros países, que o faça! Se o produtor de leite tiver dinheiro investido na cooperativa, ele irá querer que esse capital trabalhe para gerar valor e renda.

MKP: O IFCN divulgou que cerca de 1 em cada 10 pessoas no mundo vive de leite. Gostaria de comentar a respeito desse dado?

TH: Essa foi uma estimativa que fizemos. Primeiro, checamos o número de propriedades que exploram o leite como atividade. São cerca de 120 a 150 milhões de fazendas no mundo todo. Depois, estimamos em quatro cinco o número de pessoas envolvidas com a atividade em cada propriedade, e chegamos a 600 milhões de pessoas envolvidas com a produção de leite. O país com o maior contingente de pessoas que vivem do leite é a Índia, e certamente há um componente político considerável.

MKP: O IFCN trabalha com a análise de sistemas de produção de leite. O que você acha de serviços de benchmarking (comparação de dados) técnico e financeiro para fazendas de leite?

TH: Acredito que é algo interessante desde que você tenha sistemas de contabilidade confiáveis, caso contrário não é possível fazer essas comparações, além de ser algo caro. Suponha que você tenha 1 milhão de reais disponíveis para o Estado de Goiás. Colocará em um sistema de benchmarking de fazendas ou estudará a viabilidade e os direcionadores de, digamos, 8 sistemas de produção de leite e seus custos, orientando assim os produtores sobre os caminhos a seguir? A Nova Zelândia está hoje investindo bastante dinheiro em softwares de benchmarking, mas eles dispõem de dados contábeis confiáveis de cada fazenda em centros de pesquisa, com cerca de 15 mil fazendas. Daí sim pode-se obter benefícios de se trabalhar individualmente com sistemas de benchmarking. O Prof. Mike Cook mostrou em sua palestra o conceito de Ciclo de Vida das cooperativas. Talvez possamos usar esse conceito em fazendas de leite também. Dependendo do ciclo de desenvolvimento, deve-se usar ferramentas específicas, ajustadas para cada situação. As fazendas da Nova Zelândia ou do Texas, nos EUA, estão em um nível diferente de desenvolvimento daquele verificado no Brasil, Índia ou outros países emergentes.

MKP: O que deve fazer uma fazenda que esteja em uma região pouco competitiva?

TH: Um ponto importante é que se uma região deixa de ser competitiva, não adianta criar barreiras, mas sim analisar realisticamente as alternativas. Se o Estado de São Paulo está perdendo fazendas, deve-se talvez considerar que outros estados e sistemas são mais competitivos e cabe a cada produtor decidir se continuará na atividade e em que situação, ou se desenvolverá alguma outra atividade mais competitiva. Se não tivéssemos feito isso ao longo da história da humanidade, ainda teríamos trens a vapor porque a "união das empresas de trens a vapor" pressionaria para que barreiras fossem criadas de forma a preservar seus negócios. Se São Paulo, por exemplo, tem a forte competição da cana, os produtores devem saber que a rentabilidade da cana é a fronteira da competitividade na qual precisam trabalhar. Eu cresci em uma fazenda de leite cuja região não é tida como favorável para a produção de leite. Muitas vezes recebemos recomendações de que as fazendas daquela área deveriam fechar. Tivemos de trabalhar mais duro do que os outros, fazendo as coisas certas. E a fazenda está lá há 300 anos. É o efeito das pessoas no negócio.
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Luiz Fernando de Mattos Pimenta
LUIZ FERNANDO DE MATTOS PIMENTA

GOIÂNIA - GOIÁS - PESQUISA/ENSINO

EM 10/09/2007

Ótimo artigo e, de certa forma com algumas conclusões estarrecedoras (a da competitividade das 3 a 5 vacas, por exemplo...). Acho fundamental que tentemos contabilizar nossos custos de leite a partir dos diferentes sistemas de produção, que saibamos quais as regiões mais competitivas etc. Acho que o site da MilkPoint poderia divulgar periodicamente os dados da IFCN e outros, bem como divulgar as metodologias de cálculos de custos.
Qual a sua dúvida hoje?