O agronegócio deverá liderar, mais uma vez, o saldo da balança comercial neste ano. Um setor, no entanto, não vai bem: o leiteiro. As receitas com as exportações de lácteos deverão somar US$ 50 milhões e as despesas com importações, US$ 200 milhões. Nos oito primeiros meses deste ano, as importações de leite em pó cresceram 110% em volume e 62% em dólares.
As causas são várias e passam não só pela necessidade de definição de uma política de melhor acompanhamento do setor pelo governo como também pela profissionalização dos produtores.
Com o maior rebanho comercial do mundo e os custos mais baixos de produção, o Brasil deveria ter como uma das prioridades "achar e ganhar mercado externo", diz o chefe geral da Embrapa Gado de Leite, Duarte Vilela. Isso exigiria uma produção maior, o que garantiria oferta mais regular do produto e redução das oscilações bruscas de preços nos períodos de safra e de entressafra.
A queda de preços é um dos efeitos mais desastrosos e diminui os investimentos em tecnologia e afasta produtores do setor. Nos últimos quatro anos, o número de produtores de leite que participam dos 12 principais laticínios do país caiu de 152 mil para 114 mil, diz Roberto Jank Jr., da Láctea Brasil.
Mercado exigente
O ano de 2002 tem sido um espelho desse ciclo. Após ter atingido o recorde de 21 bilhões de litros em 2001, os preços caíram e a produção deste ano está praticamente estagnada.
O pesquisador do Cepea, Leandro Ponchio, diz que os preços pagos aos produtores caíram 15% em agosto de 2001. A queda continuou nos meses seguintes, prolongando-se por todo o segundo semestre, desincentivando os pecuaristas. Neste ano, devido à maior demanda de leite, os preços deverão cair menos do que em 2001.
Com a maior oferta de produto no ano passado, as indústrias travaram uma acirrada concorrência na venda de lácteos no varejo, o que derrubou os preços. A resposta do consumidor foi o maior consumo. O presidente da Comissão do Leite da Federação de Agricultura de Minas Gerais, Eduardo Dessimoni, diz que o consumo de iogurte e de leite longa vida cresceu 19% no primeiro semestre deste ano em relação ao anterior.
A maior participação do Brasil no mercado externo exigirá fortes mudanças na produção interna. O mercado externo é muito exigente e pelo menos 50% da produção nacional vem da informalidade, ou seja, não existe um controle de qualidade do produto. As leis que regulamentam o setor são de 1952 e não são aceitas como padrão de qualidade pelos países desenvolvidos. Existe uma nova portaria, a nº 56, que vai forçar os produtores a colocar um produto de maior qualidade no mercado, mas o governo está retardando a sua colocação em prática.
O presidente da Cooperativa Agropecuária de Londrina Ltda.(Cativa), diz que é preciso uma maior fiscalização do governo. A ausência do governo, somada à política do mercado de "não ver qualidade, mas apenas preço", está afastando cada vez mais os bons produtores.
O mercado interno, no entanto, poderá ser a grande salvação dos produtores. O consumo atual é reduzido e fica abaixo das recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde). O consumo médio brasileiro é de 130 litros por ano. Se o país subir para os 175 litros recomendados pela OMS, teria de produzir perto de 30 bilhões de litros por ano, diz Dessimoni.
Um dos principais problemas do setor é que não há incentivo para a cadeia de leite no Brasil, diz Jank. Os créditos são destinados ao Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf). Do ponto de vista social, essa política segura algumas famílias no campo, mas não incentiva a produção nacional. Todos os principais setores têm incentivos para a compra de máquinas e as exportações. Isso não ocorre com o leite, finaliza.
Estudo para avaliar o setor
Segundo Dessimoni, os produtores têm de se organizar em cooperativas, que devem ser modernas e atuar de forma profissional. É por meio dessas cooperativas que vão ganhar mais mercado, tanto interno como externo.
Devido à desestruturação do setor, o diretor da RCW Consultores, Ivan Wedekin, está coordenando um trabalho pioneiro com 14 cooperativas do Triângulo Mineiro. Será feito um raio-x das empresas que têm o leite como o principal negócio.
O objetivo é avaliar a estratégia e o potencial de cada uma. Em seguida, sugerir soluções, que podem ser a redução no número de cooperativas e a atuação conjunta. A produção média brasileira por propriedade é de 50 litros por dia. Na Argentina chega a 1.000 litros e, nos EUA, a 7.000 litros.
Wedekin diz que o setor sofre uma competição desleal dos "laticínios de fundo de quintal". As margens de lucro das indústrias são pequenas e essa concorrência desorganiza o mercado. O trabalho está avaliando, ainda, a ociosidade industrial.
É nos países em desenvolvimento que o Brasil terá de investir, argumenta Dessimoni. "Não adianta exportar para os desenvolvidos porque eles não vão importar um volume maior do que o atual", diz.
Um estudo da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), aponta para um forte crescimento do consumo nos países em desenvolvimento. Em 1993, os países industrializados consumiam 245 bilhões de litros de lácteos. Em 2020 o consumo será de 263 bilhões de litros (evolução de apenas 7%). O grande salto será nos países em desenvolvimento, que em 93 consumiam 167 bilhões de litros de lácteos. Em 2020 esse volume subirá para 391 bilhões, uma alta de 134%, segundo a FAO.
Fonte: Folha de S.Paulo/Agrofolha (por Mauro Zafalon), adaptado por Equipe MilkPoint
Setor leiteiro busca maior fatia no exterior
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