Reduzir a produção. Foi esta a proposta que encerrou a reunião organizada pela Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais) e pelo Sindicato dos Produtores Rurais de Pompéu, MG, na quinta-feira (20), da qual participaram lideranças rurais nacionais e estaduais, técnicos e produtores de leite para discutir a situação do setor leiteiro, discutindo as perspectivas do setor, exportações, importações e medidas pós-CPI do Preço do Leite.
Entre as lideranças presentes - Faemg, Silemg e Ocemg -, Rodrigo Sant'Anna Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), apresentou dados que, segundo ele, contestam o discurso das indústrias.
"Os produtores não entendem a queda de preços que tem acontecido. Em audiência pública na Câmara, o discurso das indústrias foi evasivo, direcionando a preocupação para políticas públicas, em detrimento da justificativa adotada em outros tempos, a qual se baseava em dados de mercado. Esta situação cria insatisfação. Os produtores querem entender, desejam uma justificativa que os convença", denunciou Alvim, comentando que isso tem criado rebeldia no segmento de produção primária.
Sua fala na reunião de Pompéu teve o objetivo de alertar os produtores que não ganharão nada sem esforço. "Temos de conquistar e, para tal, o fator imprescindível é organizar-se, falar o mesmo. Tudo acontecerá a partir daí. Quanto mais se organizarem melhor; quanto menos, pior". Na opinião de Alvim, o elo produtivo tem melhorado, se organizado e conseguido avanços, mas ainda não são suficientes.
Quanto à estruturação do Conseleite (Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Laticínios) em Minas Gerais, o presidente da Comissão de Pecuária de Leite comentou que os produtores apoiaram unanimemente. "Temos convicção de que é uma ferramenta interessante. Resta saber se a indústria está convencida", destacou.
O desfecho da reunião apontou para o que Alvim considera uma ação que tenha resultados: "Entender que a indústria tem razão e reduzir a produção". Segundo ele, os pecuaristas de leite não querem produzir com escala e ter prejuízo, e, ao mesmo tempo, não querem gerar problema para a indústria. "A saída é pisar no freio", reforçou, observando que é "extremamente desagradável sugerir a um País que tem tido um ibope medonho no mundo inteiro pela sua pujança e agressividade na produção agrícola que desacelere sua produção". Ele acrescentou que desaquecer a produção não significa desabastecer o mercado.
A 2 de dezembro, na reunião da Comissão Nacional de Pecuária de Leite, a proposta será apresentada a lideranças de produtores de todos os estados brasileiros. "Aqueles que considerarem interessante, que desacelerem. Claro que não sugeriremos tal atitude a um produtor especializado. Nossa proposta é que faça uma avaliação individual. Se puder reduzir 30% ou 10%, que reduza".
Caso a indústria necessite importar, de acordo com Alvim, é porque não tem excesso de produto. "O castigo será o setor industrial comprar pagando mais caro - em torno de US$ 2 mil FOB a tonelada - ou, se importar da União Européia, arcar com 42% de impostos", desafiou.
Números
De acordo com Marcelo Costa Martins, assessor de Alvim na CNA, os números que ilustram a atual situação do setor indicam, por exemplo, queda de importação de 840 milhões de litros - a previsão para o total das importações brasileiras de lácteos é 0,62 bilhão de litros, contra 1,46 bilhão em 2002 -, conforme tabelas e gráficos abaixo.
Segundo ele, a queda no consumo terá de ser grande para não se chegar a uma situação de "dar tiro no pé". A manutenção das medidas antidumping, com o real estável na proporção de três para um em relação ao dólar, somada ao preço no mercado internacional, inviabiliza a importação de leite, conforme sua análise, pois o preço de entrada mais frete interno mais despesa de internalização fica muito mais alto que o do mercado interno.
Considerando que, no mercado internacional o preço deverá manter-se no patamar atual, e com a queda do valor pago ao produtor, Martins reforçou o desestímulo dos produtores brasileiros, acenado por Alvim, o que "poderá causar um problema muito sério em 2004".
Outro problema citado por Martins refere-se ao IPC (Índice de Preços ao Consumidor) amplo. "Se pegarmos a série histórica de fevereiro para cá em base 100, a variação acumulada em Goiás, por exemplo, foi 13,64%; para o produtor, também foi positiva, mas apenas 2,56%. Em Minas Gerais, o varejo registrou aumento de 9,87% nos preços, enquanto o produtor teve somente 5,17%. Os preços ao produtor não têm a mesma proporção verificada no varejo", detalhou. E lançou: "Por que, para o produtor, quando diminui o preço, é sempre mais que o proporcional e, quando aumenta, é sempre menos?"




Fonte: Mirna Tonus, da Equipe MilkPoint
